Steven Johnson escreveu o livro “Cultura da Interface” há mais de dez anos (publicado no Brasil em 2001), mas o texto continua atual. Aliás, mais que atual: é uma previsão do que já começa a acontecer.
“Os vitorianos tinham escritores como Dickens para facilitar seu trânsito em meio às revoluções tecnológicas da era industrial, escritores que traçavam mapas romanescos do território novo e ameaçadore das relações sociais que ele produzia. Nossos guias para as cidades virtuais do século 20 vão prestar um serviço comparável, só que dessa vez a interface – e não o romance – será seu meio”.
Quando ele diz “interface”, é justamente aí que enxergo o jornalismo digital, os especiais multimídia, os avanços de interatividade que facilitam a produção colaborativa.
Se antes o newjournalism era a ferramenta para levar a realidade às pessoas de uma maneira inovadora, hoje o novo jornalismo é aquele que consegue melhor construir interfaces.
Preciso escrever sobre isso.
Abaixo, alguns trechos do início do desenvolvimento das interfaces, segundo Johnson.
Um dos primeiros ensaios teóricos que vislumbraram o que poderia ser algo como a internet é o texto de Vannevar Bush, “As We May Think”, publicado em julho de 1945. Steven Johnson cita (2001) o texto como inspirador da primeira interface, que foi a metáfora das janelas que se abriam, e o objeto mouse, que teriam sido inventados e apresentados pelo cientista militar de alta patente Doug Engelbart em 1968:
“O ensaio descrevia um um processador de informação teórico, chamado Memex, que permitia ao usuário ‘abrir caminho’ por grandes coleções de dados, quase como um navegador da Web de nossos dias. (…) A imagem obsecou Engelbart durante décadas, à medida em que ele fazia uma carreira irregular na insipiente indústria da computação. A legendária demonstração que fez em São Francisco foi do primeiro produto em condições de funcionamento que sequer se aproximava da funcionalidade do invento especulativo de Bush, o Memex. Doug Engelbart teve uma carreira notavelmente eclética e visionária, mas por essa única demonstração já merece sua reputação de pai da interface contemporânea”.
A interface rústica apresentada em 1968 irá se desenvolver até o sucesso popular apenas décadas mais tarde, e já é bastante conhecido este percurso. Vale, entretanto, um brevíssimo resumo (JOHNSON, 2001):
“Estava-se no início de 1972 e os pesquisadores do sofisticado laboratório de ciência dos computadores da Xerox em Palo Alto (também conhecido como Xerox Parc) estava se debatendo com o legado das janelas de Doug Engelbart. (…) Vários cientistas do Xerox Parc eram veteranos do Stanford Research Institute (SRI) (…) Um pesquisador em particular, Alan Key, estava enfrentando a implementação de janelas no SRI. Mas as janelas do SRI eram desajeitadas e bidimensionais. Não se sobrepunham. (…) Ao longo da década seguinte, à medida em que a equipe da Xerox Parc montava seu protótipo de interface humana, a metáfora original da escrivaninha de Kay foi se tornando mais concreta. Se o computador podia assumir qualquer forma imaginável, por que não o fazer imitar o velho mundo analógico que iria substituir? Era uma espécie de troca imaginativa: se as pessoas iriam abandonar seus fichários e pilhas de papel, por que não simplesmente transferir essas coisas para o mundo digital? (…) Assim, a equipe do Xerox Parc criou a primeira genuína interface desktop, como parte de um sistema operacional experimental chamado Smalltalk. A Xerox nunca conseguiu fazer coisa alguma com o Smalltalk – meteram-no num pacote junto com um caro sistema computacional chamado XeroxStar que foi um fracasso retumbante no início da década de 1980 –, mas a metáfora da escrivaninha era uma ideia poderosa demais para ficar aprisionada num laboratório de Palo Alto. No fim das contas, o desktop foi liberado por um jovem e obstinado homem de negócios que pôs os olhos no Smalltalk pela primeira vez durante uma visita às instalações da Xerox Parc. Seu nome era Steve Jobs”.
Jobs era fundador da Apple, e lançou depois disso o Macintosh, com quase todos os elementos que conhecemos hoje: menus, ícones, pastas, janelas, lixeiras. A metáfora do desktop não foi, claro, utilizada pela Apple sozinha – a Microsoft se tornou conhecida pelo sistema Windows, vendido junto com os sistemas operacionais da IBM, e houve grandes batalhas na disputa de mercado entre as duas empresas, que perduram até este final da primeira década do século 21.
De qualquer forma, o desenvolvimento das interfaces e suas metáforas foi o que, segundo Johnson (2001), permitiu a popularização dos computadores, afinal. Sem uma interface que permitisse a interação simples com os dados e as operações praticamente infinitas possíveis por estas máquinas, talvez seu uso não estivesse tão disseminado.
Em relação a interfaces, presenciamos também nesta primeira década o início de outra grande modificação: o fim do mouse como ferramenta de interatividade, substituído pelas telas de toque – e, novamente, apresentado com maior eficiência pela Apple, primeiro pelos IPhones e depois pelos IPads.
O mouse, entretanto, começou a desaparecer gradualmente com o uso dos laptops, com pequenas telas de toque que tentavam substituir o mouse nos notebooks, mas ainda sem grande sucesso. A tela do computador em que se pode interagir diretamente (touchscreen) já aponta um substituto à altura do aparelho que, quase três décadas antes, em 1981, foi lançado pela Xerox (no XeroxStar).