Lívia Ascava: como fizemos o Isso não é normal

Publicado em 23 de junho de 2010
Por admin

Escrevemos aqui sobre a reportagem multimídia Isso não é normal, publicada pelo Estadão e desenvolvida pelas empresas WebCitizen e Cia de Foto. Falamos com uma das repórteres do projeto, Lívia Ascava, que nos enviou um depoimento sobre o processo de produção. Abaixo:

Nós (Webcitizen e Cia de Foto) recebemos uma missão da embaixada britânica: realizar um trabalho sobre mudanças climáticas com foco em cidades. O nosso projeto está alinhado com o relatório “Vulnerabilidades das Mega-cidades Brasileiras às Mudanças Climáticas: Região Metropolitana de São Paulo”, coordenado pelo Carlos Nobre. É um trabalho bem bacana, cheio de pesquisas acadêmicas, muito rico. A nossa ideia era tornar a informação mais simples, acessível e divertida. Além de aproximar os cidadãos do tema. Não apenas no sentido de “ó, tá acontecendo”, mas também de “ó, tá acontecendo e isso tem tudo a ver com a sua vida, o seu cotidiano, o agora”.

Dividimos o projeto em três etapas: São Paulo, Sul e Nordeste. Na etapa de São Paulo o problemão que a cidade grita é alto. E tudo esta relacionado. De uma ponta a outra: o tanto de deslocamentos que precisamos fazer, devido a lógica urbana, que nos leva a utilizar muito os veiculos automotores, que poluem o ar, emitem gases que aquecem o planeta, daí vem as chuvas, que afetam mais áreas em que o modelo de ocupação é inadequado… E assim vai. Por outro lado, o comportamento, que é uma questão de cultura. Por que carro? Por que tanto consumo?

Estudamos uma plataforma que fosse adequada pra linguagem e para o tema. Multimídia, atrativa e impactante. Fizemos uma série de entrevistas com especialistas, que serviram de pesquisa e pauta para os demais. A verdade é que a turma toda envolvida já tinha um histórico de interesse e trabalho com temas urbanos, pesquisa e se envolve com a cidade. O que tornou a elaboração mais concreta. Pessoas que tinham o desejo de ir fundo no tema e compartilhá-lo.

A equipe não é grande. Durante dois meses nos dividimos para contemplar tudo. Nove pessoas participaram do projeto. E embora cada um fosse responsável por coordenar uma história, desde o começo trabalhamos em grupo. A designer (Marina Chevrand) participou de todas as reuniões de pauta e de muitas das entrevistas, por exemplo. Tinha fotógrafo que fazia pergunta aos entrevistados. Isso aconteceu frequentemente. O Denis [Russo] filmou uma das entrevistas. A Natalia [Garcia] também. Isso não só por conta de uma equipe reduzida, mas porque todos se interessam e compreendem a comunicação, a informação, como o conjunto de todas as frentes: texto, infográfico, video, fotografia…

Nessas reportagens, contamos também com a colaboração dos especialistas. O Sadalla Domingo, especialista em projetos para renaturalizar (ou desimpermeabilizar) São Paulo, por exemplo, passou um sábado caminhando pela Pompéia com a gente e deu uma super aula sobre o tema. O Paulo Saldiva nos recebeu diversas vezes na USP, cheguei a trabalhar do escritório dele durante uma tarde e ele conversava comigo nos intervalos de cinco minutos entre uma reunião e outra para que tudo desse certo. Esse apoio foi fundamental, porque quando se trata de pesquisas, de números e de futuro, é preciso entender muito bem o assunto.

Um exemplo: fiquei empolgada com a possibilidade de fazer um infográfico sobre o quanto se gasta com poluição, dividindo esse montante entre a população ou as empresas mais poluidoras. Mostrando o quando eles deveriam pagar se a gente adotasse a lógica do poluidor pagador e tal. Mas aí quando você analisa, esse infográfico se torna uma coisa absurda. Porque a conta não pode ser feita desse jeito! Por isso nós abandonamos algumas ideias no meio do caminho e tivemos outras, que pudessem ser mais consistentes e contribuissem de fato para que a informação fosse passada de uma forma bacana e para que lá na ponta, os nossos leitores conseguissem ter uma informação relevante para uma possível aplicação em seu cotidiano. Nos ajudando a conviver com essas mudanças, nos adaptando, preparando… Não queríamos ser apocalípticos. Porque sim, a gente pode fazer muita coisa, o governo também… É um baita problema, mas com algumas soluções bem boas e algumas prontas.

Acho que, pra todos, participar do projeto foi muito divertido, o que é fundamental. Uma coisa que gosto demais na Webctizen e no TEDxSP é isso, apostar que conhecimento e entretenimento não precisam estar distantes. E que, através disso, podemos contribuir de alguma forma com transformações positivas. Ver o projeto pronto deu esse gostinho de “deu certo”.

Mudanças climáticas não é um tema tão sedutor e mesmo assim já conseguimos atrair um público bem diverso pro nosso site. Acho que isso mostra que temas considerados mais ásperos, técnicos e segmentados, quando tratados com um viés assim tem alcance. E que as pessoas não estão tão desinteressadas como dizem por aí. Só é preciso aproximá-las das questões. É um start para o engajamento…

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