A revista The Economist chamou de “jornalismo épico“. De fato, não é sempre – aliás, é quase nunca, nunca mesmo – que uma redação fica dois anos investigando qualquer assunto para então apresentar toda a apuração de maneira inteligente, usando o que há de melhor na visualização de dados interativa.
Trata-se do Top Secret America, reportagem do Washington Post. “Os serviços de segurança nacional americanos criados após o 11 de Setembro tornaram-se tão tentaculares, secretos e intrincados que é impossível saber com precisão sua eficácia e sua abrangência”, diz o jornal. A AFP disparou a notícia, abaixo:
Os serviços de segurança nacional americanos criados após o 11 de Setembro tornaram-se tão tentaculares, secretos e intrincados que é impossível saber com precisão sua eficácia e sua abrangência, segundo uma vasta investigação divulgada nesta segunda-feira pelo Washington Post. Intitulada “A América secreta demais”, a investigação é resultado de dois anos de trabalho no qual participaram vinte jornalistas da respeitada publicação americana.
A investigação indica que, nove anos após os atentados que deixaram quase 3.000 mortos, “o mundo secreto demais que o governo criou tornou-se tão vasto, tão difícil de manobrar e secreto que ninguém sabe quanto custa, quantas pessoas estão envolvidas, quantos programas existem, nem quantos serviços diferentes efetuam a mesma tarefa”.
Consequência: após “nove anos de despesas sem precedentes (…) o sistema instaurado para deixar os Estados Unidos protegidos se tornou tão denso que é impossível conhecer sua eficácia”.
Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, verdadeiro trauma para a sociedade americana, o governo do presidente George W. Bush lançou o conceito de “guerra ao terrorismo”, abandonado depois pelo presidente Barack Obama.
Ilustrado com vários gráficos em diversas páginas, o trabalho do Washington Post será publicado em três partes até quarta-feira e seu primeiro volume, batizado “Um mundo secreto que cresce sem controle”, é dedicado à organização desses serviços.
O jornal indica que 1.271 agências governamentais e 1.931 empresas privadas, espalhadas por 10.000 pontos dos Estados Unidos trabalham com programas ligados à luta contra o terrorismo ou com serviços de inteligência.
O dispositivo emprega cerca de 854.000 pessoas, que possuem acesso às informações secretas, e 33 prédios foram construídos ou estão em construção apenas na capital federal Washington.
O Washington Post ressalta que a magnitude desta burocracia leva a redundâncias administrativas. O jornal indica, por exemplo, que 51 organizações federais situadas em 15 cidades diferentes são encarregadas de monitorar a circulação de recursos das redes terroristas.
A enorme máquina de inteligência americana produz relatórios em uma quantidade tão grande -por volta de 50.000 informes por ano – que “muitos deles são simplesmente ignorados”.
O jornal lembra que, em razão desses erros, os serviços de inteligência americanos não conseguiram impedir a tentativa de atentado em um voo Amsterdã-Detroit no Natal ou o massacre de Fort Hood, no Texas, que deixou 13 mortos em novembro.
Os editores do Washinton Post contam que, por causa do tamanho da investigação, permitiram que alguns oficiais do governo vissem o site antes, para que pudessem explicar algumas coisas específicas. Não disseram nada, apenas justificaram e pediram para remover alguns pontos entre os tantos apontados no mapa. Sim, há um mapa com todas as organizações dos EUA classificadas como Top Secret.
A reportagem é enorme, uma investigação sem precedentes sobre o sistema de investigação secreto que os EUA organizaram pós-11 de setembro. Nos EUA, todo mundo está falando disso. No Brasil, até agora (22h17, dia 20 de julho), parece que apenas o Nelson de Sá citou. Carlos Alberto Jr. falou disso ontem, mas ele não vale: mora em Washington. Se estiver enganado, alguém avise.
Abaixo, o vídeo da introdução da reportagem, que já está legendado em português no YouTube.
“…aliás, é quase nunca, nunca mesmo – que uma redação fica dois anos investigando qualquer assunto para então apresentar toda a apuração de maneira inteligente…”
Como não?! Recentemente teve um caso de funcionários fantasmas na assembleia legislativa do paraná que o jornal levou dois anos e meio investigando.
[...] um excelente post do Jornalismo Digital que reproduzo aqui. Concordo com André Deak quando diz que e a mídia nacional pouco divulgou o [...]
Não foi a revista que chamou a reportagem de “jornalismo épico”, foi o blog da revista The Economist. Melhor, do jornal inglês The Economist.