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new journalism agora é outra coisa

Entrevista com Rafael Kenski

Entrevista com Rafael Kenski

Rafael Kenski é um dos grandes nomes do newsgame no Brasil, um dos pioneiros no assunto. Foi entrevistado por email pelo Carlos Nascimento Marciano, para uma monografia sobre o tema (disponível aqui em pdf). Vale ler a entrevista, que publicamos na íntegra aqui:

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011 15:17

1) Qual o programa utilizado para a produção dos newsgames?

Oi Carlos, Antes de mais nada, preciso explicar que só trabalhei de fato com o CSI – o “Paredão” foi feito quando eu já havia saído da Super e deixado o Fred no meu lugar. Então, nas respostas abaixo, falarei só do CSI, ok? Abs Rafael

O jogo do CSI é, em grande parte, crossmedia. Parte dele acontece na revista (que é em si uma ferramenta dentro desse jogo, mas que produzimos com Word e InDesign), parte dele na internet, com Flash e a ferramenta de fóruns da Abril. Houve também uma produção com modelos e fotógrafos, de onde saíram as 116 imagens todas. Mas, pensando em newsgames em geral, qualquer programa pode ser usado para produzi-los.

2) Quem participa da equipe de produção? (por favor se possível especifique nomes e funções, ou pelo menos as funções)

O CSI foi um jogo razoavelmente complexo, apesar da aparência e da jogabilidade simples. Se você der uma olhada lá na página (http://super.abril.com.br/jogos/crime/index.shtml), todos os nomes e funções estão ali. Acho que só não apareci eu, que fui uma espécie de diretor ou produtor da brincadeira toda.

3) Se existem jornalistas trabalhando na produção dos newsgames, por favor especifique as atribuições deles.

A função de um jornalista em um newsgame é quase idêntica a que ele terá em qualquer outra matéria: reunir informações e contar uma história. A diferença é que, de acordo com o meio, as informações necessárias mudam: apurar para um infográfico é bem diferente de apurar para um texto. O mesmo vale para newsgames: ele precisará ajudar o game designer a criar procedimentos convincentes e divertidos, além de criar uma mecânica que responda aos movimentos dos jogadores de forma realista (não estou falando de realismo gráfico, mas sim no que diz respeito à informação jornalística).

4) Em que casos é definido que vai ser produzido um newsgame? E quem define isso?

Varia bastante. O CSI foi escolhido porque era a matéria de capa, e a gente queria testar essa idéia de “jogos jornalísticos” (na época, ninguém tinha ainda ouvido falar de “newsgames”). Os jogos feitos imediatamente depois tinham uma justificativa parecida: era uma forma de chamar atenção para a capa. Com o tempo, foi caminhando para tentar ver que matéria “rende” um bom jogo, assim como se pensa em matérias que rendem infográficos, tabelas, etc. De um modo geral, depende da interação que o assunto permite e de alguém conseguir pensar em uma mecânica para ele. Quem decide isso são os editores e diretores (da revista, da internet ou ambos).

5) Explique um pouco mais sobre o processo de produção dos newsgames (quais as etapas, como é dividido o trabalho etc)

Começa como qualquer matéria ou infográfico: começa na definição da pauta e a apuração. A diferença é que os newsgames envolvem também o design do jogo: imaginar as diferentes mecânicas e elementos. No caso do CSI, as duas coisas foram pensadas juntas. Um repórter já havia apurado parte da matéria e, em uma primeira reunião, combinamos tudo: o que era o assunto, o que sairia na revista, o que sobraria para o jogo, qual era a dinâmica de jogo e a ilustração da matéria. Foi importante porque diminuiu o custo de produção ao dividi-lo entre revista e internet. A partir daí, criamos um roteiro do jogo, fizemos a produção das fotos, um designer e um programador montaram a ferramenta em flesh e colocamos no ar pouco depois da revista chegar às bancas.

6) Quanto tempo leva o processo de produção?

Depende do jogo. No caso do CSI foi algo como um mês, mas não é muito difícil que um jogo leve três vezes esse tempo.

7) Destaque as principais características dos newsgames que os tornam interessantes para um veículo de comunicação.

Os jogos transmitem conteúdo (como as revistas ou jornais) mas por meio de procedimentos (diferentemente de qualquer outra mídia). Eles são essencialmente educativos, ensinam as pessoas a fazerem alguma coisa. Então, já pela própria natureza dos jogos, eles trazem recursos que não estão normalmente disponíveis aos jornalistas, como envolver o leitor em um assunto, permitir a interação e a imersão e criar um modelo da realidade que se está descrevendo. Além disso, jogos estão hoje em todo lugar para todo tipo de pessoa. É uma forma de ampliar o apelo do jornalismo, levá-lo a novos públicos, usar novas linguagens e engajar o leitor de novas maneiras. É quase uma obrigação experimentar com essa mídia em um momento em que o modelo tradicional do jornalismo perde gradativamente a sua importância.

8. Pesquisas apontam que a imersão e a interatividade são dois elementos de grande importância no jogo. Esses pontos são levados em consideração nos newsgames da Super? De que forma?

Acredito que a interatividade é um pré-requisito dos jogos – um newsgame em que ninguém interage não existe. Dependendo do ponto de vista, até mesmo um texto pode ser bastante interativo. Já a imersão é mais um resultado de um jogo bem feito, da adequação da dificuldade da tarefa às habilidades do jogador. Para mim, os dois critérios essenciais para um newsgame são diversão e confiabilidade (ele não pode trazer elementos fantasiosos ou errados, da mesma forma como um infográfico ou um texto da revista não pode simplesmente mentir).

Eu assumi a área de internet da Abril em 2009. Antes disso, estava desenvolvendo ARGs e jogos publicitários para o Núcleo Jovem da Abril (do qual faziam parte Super, Capricho, Mundo Estranho, Guia do Estudante e Aventuras na História). Então, ao voltar para o lado editorial, a idéia de usar as mesmas ferramentas em jogos jornalísticos foi quase óbvia. Juntei alguns dos mesmos colaboradores que havia usado em ARGs anteriores e combinei com a redação da revista para que eles pensassem a matéria como um híbrido de revista e jogo. A partir daí, saí do processo e deixei para eles realizarem o que viria a ser o extremamente bem sucedido jogo do CSI.

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