Como se pautar com o auxílio de 2,4 milhões de páginas de um jornal

No dia 23 de maio o jornal O Estado de S. Paulo disponibilizou na internet o seu acervo digital. Agora é possível consultar as mais de 2,4 milhões de páginas do jornal desde sua primeira edição, em 1875. A iniciativa já vem mudando a rotina dos jornalistas na redação do jornal, que agora contam com mais facilidade para buscar alguma informação no acervo de 137 anos do jornal, segundo o coordenador do acervo, Edmundo Leite. Abaixo você confere um bate-papo com ele sobre a importância deste imenso material histórico para o jornalismo.

 

Jornalistmo Digital: Qual o principal papel do acervo digital do Estadão?

Edmundo Leite: Difundir um conteúdo sem igual que estava restrito a poucos e ao mesmo tempo preservar os originais em papel, que deixam de correr risco de deterioração por causa do manuseio para consulta.

JD: Por que deixar algumas restrições para não assinantes?

EL: Por várias razões, entre elas o alto custo de um trabalho dessa grandeza. Apesar de compartilhar gratuitamente parte de seus conteúdos, o Grupo Estado acredita que bons produtos devam ser pagos. Mesmo assim, quem não é assinante consegue tirar grande proveito do site do acervo. Mas por entender também que um conteúdo desse tem uma reelevância histórica, estamos fazendo convênios com diversas instituições públicas para que o Acervo Estadão seja acessado sem restrições nesses lugares. A abrangência dos convênios garante esse caráter público. Com os acordos iniciais, serão beneficiados os frequentadores da Biblioteca Nacional, Biblioteca Brasiliana USP, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Biblioteca Mario de Andrade a mais de 50 bibliotecas do Sistema Municipal de Bibliotacas, além das universidades Unicamp e Unesp. Mais convênios deverão ser acertados mais adiante, ampliando ainda mais o número de estudantes, professores, pesquisadores e acedêmicos que poderão acessar o Acervo sem restrições.

JD: Como um acervo histórico pode funcionar em um veículo que trabalha com notícias quentes?

EL: Contextualizar melhor os fatos relatados e dar agilidade na tarefa de relembrar determinados casos são as tarefas básicas e naturais. Mas o importante é que criamos um novo uso desse acervo que vai muito além do saudosismo ou do “há 100 anos, há 50 anos…” Não se trata apenas de uma ferramenta para encontrar edições antigas. É um acervo vivo. Muitas das coisas que estão lá são praticamente inéditas para muita gente. Então vamos fazendo conexões entre as notícias do passado com as atuais. No dia do lançamento, por exemplo, quando todos esperavam que saíssemos com a primeira página publicada pelo jornal, em 4 de janeiro de 1875 em destaque, optamos por destacar uma página de 1974 sobre a inauguração do Metrô em São Paulo, pois naquele dia acontecia uma greve dos metroviários que parou a cidade. A primeira frase da reportagem de 38 anos atrás não poderia ser mais apropriada: “O Metrô hoje está proibido para a população”.

JD: Você acha que o acervo pode um dia pautar o jornal?

EL: Isso já acontece. Mesmo antes do Acervo Estadão, já fazíamos isso no blog do Arquivo. No dia que aqueles prédios desabaram no centro do Rio, fizemos um post com fotos de arquivo que mostravam que um dos prédios era cheio de janelas irregulares em paredes cegas, onde não deveria haver janelas. Foi um dado a mais para mostrar os problemas dos edifícios. http://blogs.estadao.com.br/arquivo/2012/01/27/predio-que-desabou-no-rio-tinha-janelas-fora-do-padrao/. E não vai demorar a surgir fatos novos das antigas páginas do jornal. Como disse, muita coisa ali é praticamente inédita. À medida que mais pesquisadores estiverem relando esse conteúdo e cruzando com outros dados vão surgir coisas que mudarão o entendimento sobre fatos que foram contados posteriormente sem conhecimento daquele dado publicado. É o jornal ganhando uma vida nova.

JD: Algum plano para o acesso mobile deste conteúdo?

EL: Sim. Aplicativos específicos para tablets e celulares deverão ser lançados. O legal é que um acervo como esse oferece muitas possibilidades. Algumas delas devem ser anunciadas em breve.

JD: Como está sendo o retorno dos leitores? e dos jornalistas?

EL: As pessoas elogiam, escrevem relatos emocionados, contam suas histórias, de como o jornal foi importante na vida delas. E entre os jornalistas é mesma coisa, com um sentimento extra: orgulho. Seja por parte de quem trabalhou ou trabalha aqui, todos ficam orgulhosos de fazer parte dessa fantástica história de 137 anos.

Com mapa e perdido

É muito comum no jornalismo um pedido de infografia sobre um assunto qualquer e o resultado final ser muito bonito, mas pouco informativo ou prático. Este mapa do estadao.com.br, No rastro português, é um bom exemplo disso. A apresentação é linda. Ao entrar no especial, os movimentos com o mouse também impressionam, assim como todo o desenho dos boxes e do mapa. O conteúdo também é bom. É uma grande reportagem sobre a herança portuguesa nos países que tiveram sua colonização. Agora, para acessar todo este material, para navegar pelo conteúdo, você vai precisar se desdobrar um pouco.

A forma escolhida para apresentar estas nove colônias foi um mapa. Melhor escolha impossível. Aqui você consegue ver o tamanho da expansão que Portugal conseguiu. Ao clicar em cada um destes pontos abre-se um box com um pequeno texto sobre o local. Ao fim do texto, um Saiba Mais pode ser clicado para te levar para o texto completo em outra aba.

Nesta outra aba, você encontra a matéria relacionada com o ponto. Ou seja, o pequeno texto do box e mais uns poucos parágrafos. Para voltar ao especial, só trocando de aba, já que não há link algum em nenhuma das nove matérias. Em resumo, o especial é uma lista de nove links para matérias que fazem parte de uma grande reportagem.

É fácil notar que todo o material aqui veio do impresso e foi adaptado (tem até um leia mais na Página 12 na matéria de Angola). Ainda tem a matéria de apresentação da reportagem, que só pode ser acessado na tela inicial do infográfico no Saiba Mais. Se você não clicar ali, você não vai achar tão fácil este texto. Nesta matéria principal há links para os outros textos, mas somente dois, inexplicavelmente.

Devem ter gasto um bom tempo fazendo o mapa animado e os desenhos. O resultado estético ficou lindo, mas pouco prático. Nem sempre o conteúdo do papel é transposto da melhor forma para a internet e No rastro português é um exemplo disso. Para finalizar, deixo os links aqui de cada um dos nove pontos. Não é tão bonito como no mapa, mas é tão eficaz quanto.

Matéria principal

Timor Leste
Macau
Goa
Moçambique
Angola
São Tomé e Príncipe
Guiné-Bissau
Cabo Verde
Brasil

E tem mais esse, sobre os eventuais riscos antes de viajar.

 

Cursos especializados em jornalismo digital

Muitos procuram este site procurando informações sobre cursos relacionados ao jornalismo digital disponíveis no Brasil. Para facilitar essa busca, separamos alguns desses cursos e montamos uma breve lista – e por favor nos envie na caixa de comentários sugestões para outros que conhecem e ficaram de fora.

No lugar de colocar das descrições dos cursos, listamos algumas das disciplinas para ter uma ideia do que se trata. Algumas aulas já começaram, então é legal ficar de olho para a montagem de novas turmas.

Master em Jornalismo Digital (Pós-graduação)
www.masteremjornalismo.org.br/master/digital
Oferecido por: Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS) e Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra (Pamplona, Espanha). As aulas são em São Paulo
Preço: R$ 15 mil (para um participante). O curso tem uma opção mais em conta para empresas que levam mais de um funcionário e há bolsas de estudo
Algumas disciplinas: Planejamento estratégico de conteúdos, Veículos puros de internet, Linguagem jornalística nos meios digitais, Convergência multimídia das redações, Novos formatos e gêneros multimídia, Linguagem jornalística nos meios digitais, Tablets e Jornalismo e web semântica

Tecnologia em Produção Multimídia (Graduação) / Senac
bit.ly/qUX0sv
Oferecido por: Senac (São Paulo). Esse curso tem uma veia forte para o lado do design e da tecnologia.
Preço: O curso tem duração de dois anos, com mensalidade de R$ 534.
Algumas disciplinas: Análise e Gestão na Produção Multimídia, Áudio Digital, Desenvolvimento: Aplicações, Direito Digital, História da Arte: Mídias Analógicas e Digitais, Linguagem Audiovisual, Tecnologia Digital: Interfaces Digitais

Jornalismo Multimídia na Una (Graduação)
www.una.br/curso/graduacao/jornalismo-multimidia
Oferecido por: Centro Universitário Una (Minas Gerais)
Preço: Mensalidade de R$  728 (valor para 2011). O curso dura 7 semestres.
Algumas disciplinas: Infografia, Produção e Edição Audiovisual, Reportagem Multimídia, Produção e Edição Multimídia, Tendências do Jornalismo Multimídia

Jornalismo Multimídia na Unimep (Pós-graduação)
bit.ly/mPdYMu
Oferecido por: Unimep de Piracicaba. O curso é no Campus Taquaral
Preço: 20 parcelas de R$ 363, mas fique ligado nos ajustes a cada 12 meses
Algumas disciplinas: Concepção de Produtos Jornalísticos para Web, Cultura Digital e Convergência Midiática, Design e Infografia Aplicados ao Jornalismo, Inclusão Digital e Cidadania, Novas Mídias e Legislação, Reportagem e Narrativa Multimídia

Jornalismo Multimídia na PUC-SP (Pós-graduação)
cogeae.pucsp.br/cogeae/curso/327
Oferecido por: PUC-SP. As aulas são na Unidade Consolação
Preço: O curso faz parte de um programa de especialização da PUC. No programa, cada disciplina sai por R$ 1.550, mas é preciso conferir como isso se aplica ao curso específico de jornalismo multimídia
Algumas disciplinas: Imagens Contemporâneas: Intercâmbios e Interfaces, Informação e Tecnologia, Produção e Análise de Imagens Digitais, Design, Programação Visual e Infografia, Tecnologias de Áudio e Vídeo (Teoria)

Jornalismo Digital na PUC-RS (Pós-graduação)
bit.ly/pTC82W
Oferecido por: PUC do Rio Grande do Sul
Preço: Inscrição de R$63 e 18 parcelas de R$ 500 (para o público geral)
Algumas disciplinas: Jornalismo e sistemas de informação, Produção em hipermídia II: audiovisual, Jornalismo digital e mobilidade, Jornalismo digital e sociabilidade, Gestão de produtos digitais

Introdução à Infografia e Visualização para Jornalistas (Curso à distância)
bit.ly/rtHise
Oferecido por: Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas. As aulas são online e em português
Preço: Não especificado na página de anúncio do curso.
Algumas disciplinas: Não especificado na página do curso, mas o professor será Alberto Cairo, diretor de infografia da revista Época e um dos mais premiados infografistas do mundo.

 

“Ainda há muito o que se explorar na apuração dos bancos de dados”, diz professora

Milhares de documentos chegaram às mãos dos jornalistas no meio do ano passado. Eram informações bombásticas, vazadas pelo site da organzinação Wikileaks, mas elas eram realmente milhares. Resultado: era preciso lidar com aquele volume de informações e buscar maneiras de usá-las da melhor forma.

O caso do Wikileaks evidenciou o uso dos bancos de dados no jornalismo, algo que está crescendo e representa a “quarta geração” do jornalismo digital para a professora Suzana Barbosa (@suzanabarbosa), do departamento de comunicação da Universidade Federal da Bahia. Para ela, ainda há muito o que se explorar “em relação à apuração, à descoberta de informações contidas em bases de dados e que podem fazer a diferença em reportagens”.

Suzana estuda o jornalismo digital em bancos de dados a partir de como isso ajuda na construção e gestão de produtos jornalísticos, além das formas de apresentação desse conteúdo.

O Brasil está preparado para isso? Temos bases de dados livres para fazer esse tipo de trabalho? Confira a íntegra da entrevista da professora Suzana:

A professora Suzana Barbosa

Quando e por que você começou a estudar o jornalismo feito com o uso de bancos de dados?

Na verdade, sua pergunta me reporta ao início do mestrado [no ano 2000], quando, de fato, comecei a estudar o jornalismo digital. Naquele momento, embora os bancos de dados não fossem o meu objeto de investigação, estavam de algum modo contemplados no trabalho final, a dissertação, a qual centrou-se sobre a informação de proximidade, ou seja, a informação local no jornalismo digital. Abordei, então, como se poderia utilizá los para prover informação hiperlocal.

É no doutorado [2003] que começa, de fato, a minha investigação sobre os bancos de dados no jornalismo. Foi a partir de uma das primeiras disciplinas do doutorado, lendo livros como o “The language of new media” (2001), de Lev Manovich, artigos do professor português António Fidalgo (que veio a ser o meu supervisor de estágio doutoral em Portugal, em 2005), entre outros trabalhos de investigadores espanhóis, que percebi o potencial dos bancos de dados para o jornalismo e passei a ter o assunto como objeto de pesquisa.

Para ser mais precisa, trabalhei no doutorado com o que denomino como Jornalismo Digital em Base de Dados (JDBD). Este paradigma, o qual localizo como característico da quarta geração do jornalismo digital (após a da transposição, da metáfora e da terceira geração) desponta em razão das funcionalidades asseguradas pelas bases de dados (BDs) para a construção e gestão de produtos jornalísticos digitais – os cibermeios – bem como para a estruturação e a apresentação dos conteúdos. Associado a ele está, ainda, a identificação de uma nova metáfora para a representação de conteúdos de natureza jornalística, a database aesthetics ou estética base de dados.

Identifico as bases de dados como um aspecto-chave para a construção de sites jornalísticos, sob o foco de continuidades/remediações, rupturas e potencialidades. Trata-se de um novo status para as bases de dados no campo do jornalismo. As BDs conferem um padrão dinâmico para os cibermeios, em contraposição a um outro estático que havia marcado as etapas anteriores.

No contexto da convergência jornalística, as bases de dados também desempenham papel fundamental, desde o ponto de vista tecnológico, da gestão do fluxo informativo, do ponto de vista da contextualização dos conteúdos e da publicação para distintas plataformas.

Temos, ainda, o que se considera como Data Driven Journalism (Jornalismo Guiado por Dados), que, para mim, está no escopo do que abarca o Jornalismo Digital em Base de Dados.

Esta é uma temática de estudo que muito me motiva. Mesmo após a conclusão do doutorado e, em seguida, com a realização do pós-doutorado (2007-2008), quando continuei a pesquisa sobre o assunto, mais percebo o quanto as bases de dados são um aspecto primordial para o jornalismo e aquele que realmente confere especificidade, junto a funcionalidades cada vez mais novas. Em agosto, iniciaremos na Faculdade de Comunicação, Facom/UFBA, estudos que resultarão em pesquisa aplicada e que também envolverá as bases de dados. Trata-se do projeto Laboratório de Jornalismo Convergente, coordenado por mim e pela professora Lia Seixas, que foi contemplado com recursos do Edital PPP-2010 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia.

Você acredita que o futuro do jornalismo passa necessariamente pelo bom uso dos bancos de dados? Se sim, por quê?

Acredito. Complementando o que disse acima, o desenvolvimento da tecnologia de base de dados e seu acesso cada vez mais ampliado, com aplicações disponibilizadas por cibermeios, entre outros, certamente assegurará novos formatos para os conteúdos jornalísticos. Já temos exemplos nessa área, como o que vem fazendo sites jornalísticos referenciais, como o guardian.co.uk. A seção “Data” é inovadora e creio que sinaliza um investimento de um grande cibermeio (de ponta) que está preocupado em tornar-se um meio mundial.

A “Data” explora o conhecimento contido nas bases de dados e as novas possibilidades de visualização para a informação ou aquilo que alguns chamam de “data journalism” que, para mim, tem a ver diretamente com as novas funcionalidades das bases de dados no jornalismo. Certamente, muito ainda será preciso desenvolver, principalmente quanto à integração de BDs aos sistemas de gerenciamento de conteúdo para permitir maior suporte ao trabalho de apuração dentro de uma redação, por exemplo, o gerenciamento de bancos de fontes, entre outras funcionalidades relacionadas à criação, edição e publicação de conteúdos.

Infográfico do "Guardian" mostra os soldados britânicos mortos no Afeganistão (Clique na imagem para acessar o original)

No Brasil, que tipo de bancos de dados temos disponíveis e ainda não exploramos no jornalismo?

No Brasil, creio que bases de dados oficiais disponíveis (as do IBGE, Senado, Câmara, assembléias estaduais, juntas comerciais, por exemplo), além daquelas que disponibilizam ONGs como a Transparência Brasil, a Donos da Mídia, entre outras, ainda podem ser muito melhor exploradas. Em geral, costumam ser mais usadas por jornalistas de grandes redações.

Além disso, temos ainda os dos ministérios (como o do Trabalho, Saúde…), o AliceWeb (Sistema de Análise das Informações de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), o do Tribunal Superior Eleitoral e os dos tribunais regionais eleitorais o da Receita Federal, etc.

Em verdade, o processo de apuração tem muito a ganhar com o uso de bases de dados disponíveis online, e, por outro lado, ainda há muito o que desenvolver com relação ao processo de documentação da informação nas redações. Temos bases de dados com os currículos de pesquisadores brasileiros, grupos de pesquisa, bancos de fontes de universidades, entre outras, mas ainda há dados que não estão públicos, o que ainda constitui um entrave.

A tendência é que se disponibilize essas bases de dados, e temos acompanhado o movimento dos que defendem essa abertura. De modo geral, ainda há muito o que se explorar em relação à apuração, à descoberta de informações contidas em bases de dados e que podem fazer a diferença em reportagens, entre outros gêneros para conteúdos jornalísticos. Se há a necessidade de que mais dados públicos sejam disponibilizados, por outro, é também grande a necessidade de formação dos jornalistas para saber como lidar, como trabalhar com esses dados.

Os jornalistas brasileiros estão preparados para usar bancos de dados como fontes? Se não, você pode dar alguns exemplos fora do país? Se sim, pode nos dizer quem?

Sobre essa questão, há jornalistas, principalmente aqueles que são da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) ou os que fazem os cursos ministrados por ela que estão preparados (ou se preparando) e que efetivamente empregam as bases de dados em suas reportagens. Quero lembrá-la que esse é um dos usos das bases de dados no jornalismo.

Há jornalistas que usam as técnicas do RAC na Folha, no Estadão, no Globo. Inclusive, reportagens usando essas técnicas foram premiadas.

Qual a diferença entre o uso de bancos de dados lá fora e aqui no Brasil?

Nos Estados Unidos, assim como outros países europeus, o emprego é muito maior.

É importante lembrar que jornalistas norte-americanos usam bases de dados desde os anos 70, quando elas ainda estavam acessíveis via dumb terminals. O desenvolvimento posterior das bases de dados digitais nos EUA propicia a sua difusão e o seu uso pelo jornalismo acontece via implementação do Precision Journalism (Philip Meyer é o precursor e foi quem cunhou a expressão), em seguida com a Computer Assisted-Reporting (CAR/Reportagem Assistida por Computador) ou o chamado Jornalismo Assistido por Computador. Muitos jornalistas que usaram técnicas da CAR estão entre os ganhadores do Pulitzer.

No Brasil, este é um processo lacunar. Mesmo nas faculdades, muitas gerações não passaram por esse treinamento. Sendo assim, temos ainda muito a aprender com relação a esse emprego das bases de dados.

Que tipo de benefícios ao leitor o uso dos bancos de dados pode trazer?

Se considerarmos o cenário de muitas bases de dados públicas disponíveis, o emprego efetivo no jornalismo beneficiará em muito o público. Além de informação mais contextualizada, precisa, os meios em geral poderão fornecer informação mais importante, que ajude melhor as pessoas na sua tomada de decisões, na descoberta das relações entre notícias, personagens das notícias, entre outros.

Os demais benefícios dizem respeito ao que se poderá ver implementado nos sites jornalísticos, nas aplicações para dispositivos móveis, nos perfis de redes sociais, o que implicará em maior interatividade, maior personalização e, portanto, numa experiência mais envolvente do público com o produto jornalístico.

LEIA MAIS:

O artigo “Jornalismo Digital em Bases de Dados: mapeando conceitos e funcionalidades”, da professora Suzana, pode ser encontrado on-line aqui. É interessante para entender melhor o que é a quarta geração do jornalismo digital.

FAÇA VOCÊ MESMO

O visual.ly é uma ferramenta on-line que permite que você mesmo crie um infográfico a partir de um banco de dados. É interessante para fazer alguns experimentos na área e pensar na melhor maneira de organizar as informações:

Fica a dica!

“Qualquer crise da Amy Winehouse pode ter mais repercussão do que crise humanitária na Somália”

Entrevista com Sarita Bastos, jornalista do Maranhão que se especializou em monitoramento de mídia online e gestão da informação, sobre a linha do tempo de crises negligenciadas, que ela criou usando a ferramenta Dipity e dados da ONG Médicos sem Fronteiras. Ela mostra que não é preciso tanto esforço (ou conhecimento de programação) para produzir conteúdo digital.

De onde surgiu a ideia de compilar dados sobre crises negligenciadas pela mídia?

Antes de produzir a linha do tempo, eu já tinha interesse pelo trabalho desenvolvido pelos Médicos Sem Fronteiras.  Foi no site do MSF que conheci a DNDi – Drugs for Neglected Diseases Initiative (“Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas”), que  me levou a questionar de que modo o jornalismo brasileiro pauta as doenças consideradas negligenciadas pela indústria farmacêutica. Isso virou tema de minha monografia, defendida no curso de Jornalismo da UFMA em 2007.

Durante a pesquisa, descobri que o MSF publica, desde 1998, lista anual das dez crises humanitárias mais negligenciadas pela mídia nos Estados Unidos,  o que dá um parâmetro da cobertura mundial.  Qualquer crise da Amy Winehouse pode ter mais repercussão do que crise humanitária na Somália, por exemplo.
Os dados estavam disponíveis, compilar esses dados era uma forma também de dar continuidade ao tema da negligência já abordado na monografia.

Foi difícil encontrar os dados e fazer o levantamento? Quanto tempo você levou entre a pesquisa e a produção?
Os dados estavam disponíveis nos arquivos de notícias do site dos Médicos Sem Fronteiras Brasil. Mas encontrei também o Top Ten Archive, uma página com todas as listas de cada ano, desde 1998. Está disponível em http://www.doctorswithoutborders.org/publications/topten/2009/archive.cfm.

Dediquei um sábado de abril de 2009 para fazer isso.

Por que você optou pelo formato da linha do tempo? Você havia pensado em outros formatos?
Eu queria produzir alguma coisa em linha do tempo, então primeiro veio o formato, depois veio o conteúdo. Como eu já conhecia a lista das pautas negligenciadas, lembrei que seria um bom conteúdo para ser editado nesse formato.

Você pesquisou ferramentas além do Dipity para realizar esse trabalho?
Sim, na época eu estava desempregada e  me dedicando ao “ócio criativo”. Eu testava ferramentas digitais que poderiam me ajudar no trabalho jornalístico quando eu voltasse ao mercado. Encontrei o Dipity, que é uma ótima ferramenta para timelines.  Mas também testei o Xtimelines e Timetoast.

Para que tipo de trabalho você recomendaria o Dipity?
Pode ser usado como recurso pedagógico em salas de aula, edição de conteúdo histórico.

Qual tem sido a repercussão dessa linha do tempo?

Nenhuma. Foi uma linha do tempo negligenciada pela mídia. =)
PS: por coincidência, esse post foi publicado no aniversário da Sarita. Felicidades!

Para inglês ver (o que o resto do mundo não está vendo)

O jornalismo ainda tem salvação, embora o fundo do poço não esteja lá muito longe… Entre as 9h e as 14h dessa sexta-feira (GMT), horário das festividades do casamento real entre William e Catherine (dizem que o apelido Kate foi pras cucuias agora),

os jornalistas Rowenna Davis e Rob Smyth mantiveram um blog no site do The Guardian com absolutamente todos os acontecimentos mundiais, desde que eles não tivessem qualquer relação com o assunto que todos os outros sites e canais de televisão transmitiam: a boda do príncipe e da ex-plebeia.

Pelo visto, muita gente queria escapar do fuzuê. Quase 1800 pessoas compartilharam o blog no Facebook, 253 tuitaram o link e os comentários no site passaram de 300. Leitura divertida, embora demorada, já que a cada dois ou três minutos um novo parágrafo era publicado. Alguns exemplos:

9h20: Oficiais da embaixada britânica estão tentando confirmar se houve cidadãos do Reino Unidos atingidos pela bomba terrorista que matou pelo menos 15 pessoas em Marrakech.

10h26: Hoje é o 50o aniversário da WWF. Sim, foi realmente há 50 anos que o primeiro homem feito entrou em um perigoso par de calças de lycra para se atracar em um combate homoerótico com outro h- oh, espera aí, é o 50o aniversário do World Wildlife Fund (ong ambiental).

Leia o site completo.

Para explicar o inexplicável: infografias sobre Realengo

Passados sete dias do massacre na escola do Realengo, no Rio de Janeiro, deu tempo para os principais sites de notícia do país produzirem um extenso material de cobertura. Quase todos criaram páginas especiais (só não achei no Estadão e no iG) com no

tícias, vídeos, fotos e análises sobre o crime. Diversos aspectos da cobertura já foram analisados em sites muito mais importantes ou em botecos afora. Por aqui, fiquemos com as avaliações sobre as infografias e os especiais multimídia que foram feitos – formato exclusivo da web.

iG

Sem infografias nem canal específico para a cobertura.

Estadão


Também não possui um canal específico para cobertura, mas fez duas infografias sobre o caso. Uma com todos os indícios de ser material reaproveitado do jornal, com mapa de localização da escola e um passo-a-passo da ação do atirador. A outra é uma lista de casos semelhantes de atiradores em escolas de todo o mundo. Essa é uma navegação que me incomoda um pouco, por não usar clique para mudar de item, mas sim com o movimento do cursor. Talvez fosse o caso também de pegar um outro recorte de atiradores, pois dá a impressão que é a primeira vez que alguém entra atirando covardemente em uma multidão aqui no Brasil. Há o caso do estudante que entrou em uma sessão do filme Clube da Luta atirando em um shopping de São Paulo, caso muito lembrado durante a cobertura do Realengo.

Folha


Possui um canal especial para a cobertura. Sempre acho curiosos os nomes que dão para grandes coberturas. O da Folha é Massacre em Realengo, mas o link remete a outro nome, Tragédia em Escola no Rio, provavelmente o primeiro utilizado durante o caso. A infografia multimídia deles na verdade é uma animação em 3D com a ação do criminoso. No último frame aparecem os dados de mortos e feridos, o que poderia estar separado em uma outra aba da infografia.

G1

O canal especial do caso recebeu o nome de Tragédia em Realengo. Duas artes foram feitas, uma estática e outra um vídeo em 3D. Ambas com o mesmo conteúdo, que eles em algum caso colocam na mesma página, como aqui. Dá pra cortar qualquer uma das duas sem medo de perder nada. O Globo aproveitou material do impresso para mostrar o que o assassino usou. A cobertura do jornal leva o nome de Massacre em Realengo, mas não há um canal específico para ela, a não ser destaque na página inicial.

R7

Sua cobertura ganhou o nome de Massacre em Realengo, mesmo nome usado pela Folha. O portal de notícias da Record não tem tradição de infografias interativas, mas fez três para o caso (o maior número entre os sites analisados). A primeira reúne informações do massacre, vítimas, carta do atirador, testemunhas, presos e a localização da escola. Das artes analisadas, essa é a mais completa, A segunda delas é o que todo mundo fez, com o roteiro seguido pelo atirador, mas de uma forma mais compacta, com apenas quatro momentos da ação. O que chama a atenção (de forma negativa) são os desenhos usados para ilustrar. Nessas horas percebe-se o motivo dos concorrentes usarem o 3D. A última é na verdade uma galeria disfarçada de infografia que mostra pichações na casa de um parente do atirador e a posterior pintura do muro.

 

 

Terra


O Terra batizou sua cobertura de Tragédia em Realengo, mesmo nome usado pelo G1. Foi feita somente uma arte, mostrando a localização da escola e o passo-a-passo do criminoso. Assim como na da Folha, o último frame poderia estar separado em uma aba mortos e feridos, ajudaria na navegação, não sendo necessário ver todos os passos para chegar nestes dados.

Entrevista: Equipe do estadao.com.br comenta o ouro inédito no Malofiej 2011

Na semana passada a equipe do estadao.com.br conseguiu um feito inédito na América Latina: ganhar viagra tablets

m” target=”_blank”>uma medalha de ouro no Malofiej 2011, que premia as melhores infografias do mundo. Além de levar este ouro, a equipe ainda conseguiu uma prata, levando duas medalhas pelos seus três trabalhos inscritos na premiação. Abaixo, uma pequena entrevista com Carlos T. Lemos e Daniel Lima da equipe de infografias do estadao.com.br.

Como foram feitas as pautas?

Daniel Lima – No caso do dinossauro, era uma apuração de mais de um ano do repórter Herton Escobar que também já vinha sendo trabalhada pela arte do impresso, aos poucos, ao longo de meses. Entramos na conversa em torno de um mês antes da publicação e discutimos o que ficaria interessante de migrar para o online de forma interessante.

No caso dos jogadores da Copa, tive a ideia da pauta no final de 2009. Pensei: não é só o Brasil que deve ter boa parte de seus jogadores de seleção jogando fora do país. Como será nos outros lugares? Inicialmente imaginei algo mais “clássico”, digamos, a partir de mapa etc. Mas o volume de dados tornaria isso muito difícil. Daí, discutindo com o Carlão, fomos desenvolvendo esse formato de visualização de dados.

Carlos T. Lemos – Foi uma investigação feita pelo pessoal do jornal (detalhes podem me fugir, até porque esse processo foi feito mais no boca a boca, então não tenho nenhum e-mail sobre o processo). Era um uma reportagem do Herton Escobar, e ele acompanhou a pesquisa por quase dois anos (http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/cabeca-dinossauro/). Eu tinha acabado de retornar de férias e estava certo que faríamos uma adaptação do caderno especial que planejavam no impresso.

Originalmente a história da descoberta do fóssil seria publicada no online, mas era uma história difícil de apurar. Tinha um lance com um procurador entrengando uma intimação por crime de assassinato, e viu que o acusado tinha um osso enorme na sala. Era alguma coisa assim, mas acabou caindo.

As ilustrações partiram do impresso ou foi produção online?

Daniel Lima – Todas as ilustrações do info dos Dinos partiram do impresso. Mas o design e produção da interatividade partiu do online, o que criou uma camada adicional de informação (como o raio-x e a ferramenta de comparação de tamanhos dos dinos). O info em si, também premiado na versão impressa, ganhou bastante com esse desenvolvimento específico para a web.

Carlos T. Lemos РAs ilustra̵̤es partiram do impresso. O processo incluiu a contrata̤̣o de um paleoartista (Leandro Sanches) para trabalhar com um ilustrador da casa (Farrel).

O material saiu no jornal antes ou foi discutido em conjunto com a equipe do impresso?

Daniel Lima РFoi discutido em conjunto e saiu simultaneamente com o impresso. O das sele̵̤es foi 100% online. Estudou-se uma adapta̤̣o posterior para o impresso, mas ela acabou ṇo ocorrendo.

Carlos T. Lemos – O material saiu quase ao mesmo tempo. Na verdade o infográfico foi publicado a meia-noite (0h03) do dia que saiu o jornal, então saiu um pouco antes. Ele foi amplamente discutido por ambas as equipes (a editora de arte do online é a Gabriela Allegro), e o tempo todo o Glauco Lara (que fez a edição e a pesquisa do info no impresso), Rubens Paiva e William Marioto (coordenadores de arte do impresso) participaram das discussões e da evolução do projeto online.

O grande objetivo era que ele tivesse vida própria, fazê-lo tão relevante online quanto o que saíria no impresso.

Vocês apostavam mais nesta ou achavam que a das seleções tinha mais chance?

Daniel Lima – Eu pessoalmente apostava mais no das Seleções pelo simples fato de que ele, até onde pude saber, teve mais repercussão internacional, tanto em blogs quanto no twitter. Encontramos menções em japonês, inglês, espanhol, russo etc. Por isso imaginei que o apelo dele fosse mais universal e, por isso, tivesse mais chances. Mas sabíamos que ambos os trabalhos tinham qualidade.

Carlos T. Lemos – Sinceramente, acho as ilustrações e a reportagem incríveis, mas era um info de ciência e achei que a competição era muito dura. Apesar de nunca ter participado da competição e não ter ideia dos critérios de julgamento, o pessoal do NYT e da NatGeo tem muita coisa boa, além dos recursos tecnológicos. Achei que era digno de prêmio (tanto que inscrevemos), mas não achava que era ouro.

O info das seleções rodou o mundo, fez parte de muitos tópicos de discussão internacionais. Era visualização de dados e de um assunto muito simples. Dava pra entender mesmo sem falar português. Na minha cabeça era o que tínhamos de melhor na competição. Mas foi um assunto que todos os jornais deram e acho que, no fim das contas, o que fizemos foi apresentar o assunto melhor que os outros. Isso sem falar que a categoria “reportagem de esportes” foi toda dominada pelo NYT. Ganhou prata pelo design, e foi o prêmio mais alto dado a esta categoria.

No fim das contas, o resultado me surpreendeu positivamente, pois venceu a notícia como um todo.

Foi inscrito algum outro trabalho de vocês?

Carlos T. Lemos – Outros 3:
O Brasil nas Copas, jogo a jogo
Mapa da votação para presidente nos municípios (A versão impressa desse levou bronze, mas também foi um trabalho de sinergia)
A população e as capitais dos Estados


Qual foi o tempo de execução e o papel de cada um no desenvolvimento de cada uma dessas infografias?

Daniel Lima – No info dos Dinos, apenas ajudei a fazer a ponte com o impresso e sugerir formas de aproveitar o material. No das seleções, pautei e apurei. A concepção foi trabalho conjunto com o Carlão, que cuidou da trabalhosa programação. Em relação ao prazo: é uma pergunta difícil. Em ambos os casos, por serem trabalhos extensos, dividimos atenção com outras demandas do dia e das outras editorias. O trabalho, então, nunca é exclusivo.

Carlos T. Lemos – “Os 736…” foram duas semanas. Meu trabalho foi fazer a arte e o programação. Mas acho que dizer assim é meio simplista. O processo criativo visual foi todo discutido em conjunto, e chegamos a várias conclusões juntos. A ideia inicial do info é do próprio Lima. O resultado visual final pode sair da minha mão, mas o processo conceitual e visual não é exclusivo meu. O mesmo vale para o Tapuiassauro (2 semanas no online, alguns meses no impresso).

Dito isto vale lembrar que uma série de pessoas ajudaram no processo. Nossa editora (Gabriela Allegro) também faz parte do processo intelectual de todos os infos. Existiam restrições técnicas que ela foi até as últimas para derrubar e tornar possível a realização.

A equipe de arte do estadao.com.br hoje conta (além de mim e do Lima) com 2 programadores/webmasters (Ricardo Periago e Éder Freire), 2 designers (Cyntia Ueda, Renata Aguiar), 1 ilustrador (Pedro Bottino) e mais 2 jornalistas (Bia Rodrigues e Camila Matos).

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