Crise nas redes sociais – caso Revista Pais & Filhos

Gestão de crises nas redes sociais tem sido um assunto cada vez mais discutido em faculdades, mas pouco pensado ainda em muitas empresas, que não sabem muito bem como lidar com problemas que tomam, às vezes, proporções bem grandes, e que podem ficar maiores com ações equivocadas.

O caso da revista Pais & Filhos é interessante porque demostra bem isso: crise gerada, resposta pouco convincente (apesar de rápida, para os padrões jornalísticos), e a rede segue furiosa, com razão.

A crise tem início com a publicação de um post num dos blogs da revista, feito pela roteirista da Globo Mariana Reade, numa defesa do leite em pó em vez do leite materno. Ao lado do post, o banner com o patrocínio da Danone, numa oferta de leite em pó. Difícil provar que foi um caso de post pago, mas as evidências – e a defesa tão enfática e cheia de problemas factuais, pra não dizer mentiras – fizeram com que diversas mães se revoltassem contra o post, a revista, a autora, a marca que anuncia na revista. Não faltou pra ninguém.

Alguns trechos do post original (apagado pela revista), para uma breve noção da barbaridade. Antes, um contexto: o blog é uma espécie de “olha quem está falando”, em que o bebê compartilha seus pensamentos. Muito original, se estivéssemos nos anos 80, mas isso não vem ao caso. Aos fatos:

O problema é o de sempre: minha mãe não me ouve. Ela fica achando que eu tô chorando de cólica, e eu tô chorando de fome! Cólica é uma coisa que eles dizem para todos os problemas que a gente tem.

(…) Tô dizendo isso porque aqui onde nasci, no Brasil, está super na moda amamentar! Então a maravilhosa invenção do leite em pó anda malvista… E nem passa pela cabeça da minha mãe – que, infelizmente, se influencia pelo o que pensa a maioria – que eu seria muito mais feliz se ganhasse, depois do peito, um pouquinho de leite em pó.

Tem uma senhora muito simpática que vem quase todo dia aqui em casa. (…) De vez em quando, ela fala para alguém: “Ah, se a mãe dela saísse um pouquinho, eu bem que dava uma mamadeira bem grande, aposto que esse bebê está chorando de fome”. A Maria, que não liga pra moda, tem boa intuição. Mas nada da minha mamãe sair de casa…

A revolta na rede foi instantânea. Mais de 3.500 comentários no post – via facebook, porque os comentários só são permitidos via facebook. O que é bom para divulgar a conversa na rede, é péssimo quando se trata de uma crise – especialmente se não houver disposição para entrar na rede e ouvir.


Diversos sites importantes no nicho de mercado da revista fizeram posts detonando, o que ajudou a espalhar ainda mais a revolta.

Mulher que corre com os Lobos

Vila Mamífera (que propõe boicote e denúncia ao CONAR)

O jornal A Tarde, que publica no UOL.

 

A revista fez um erramos, e publicou no slide principal de sua home. Dentro do próprio blog, apagou o post e não há vestígios – um problema, porque quem leu ali leu, e jamais saberá (se não for pra homepage) que leu informação equivocada.

 

A própria Danone publicou uma nota, afirmando não ter sido um post pago, lamentando as opiniões da blogueira e o vínculo com a marca que ocorreu. Poderia exigir não aparecer mais na página da blogueira, se não quisesse retirar todo o patrocínio – essa sim uma ação que seria muito bem vista na comunidade toda. Não existem outras opções no mercado para anunciar para este público, será?

A blogueira publicou no Facebook da revista também uma espécie de retratação. Deveria ter feito um post no próprio canal de comunicação que comanda. Vejam a retratação:

NOTA DA AUTORA:

Caros leitores,
Peço desculpas para quem ficou ofendido, não era de forma alguma uma crítica a amamentação.
Queria explicar que sou totalmente a favor da amamentação, e amamentei durante um ano e meio.

Queria também explicar que a MARGARIDA é uma personagem de ficção, e o que ela estava falando sobre MODA era só uma maneira de criticar a mãe, que justamente por querer tanto amamentar, não queria dar o complemento.

Iinfelizmente tive que dar complemento, apesar de ter ficado muito triste com isso, porque ela continuava com o mesmo peso depois de um mês. Fui em três pediatras e os três recomendaram assim, complemento depois do peito.

A maneira de escrever expressa o ponto de vista de uma bebê, que não sabia porque a mãe não dava leite em pó, já que o leite do peito era pouco. Era isso o que a Margarida queria dizer: por que a mãe – que não tinha leite suficiente – não lhe dava complemento?

De fato é muito frustrante e difícil ter que dar complemento, e a Margarida estava relativizando isso.
E ainda, depois de alguns meses dando complemento, sempre DEPOIS de amamentar, o leite aumentou e pude parar com o complemento, o que foi uma grande felicidade.

Novamente peço desculpas, não era mesmo uma crítica a amamentação, apenas um consolo às mães que de fato precisam dar complemento.

 

Na aula de gestão de crises em redes sociais que a professora Beatriz Polivanov compartilhou comigo, ela pontua algumas ações possíveis, abaixo. Quais outras poderiam ser feitas? Alguma sugestão?

 

COMO RESOLVER?

Algumas ações possíveis (veja mais detalhes aqui)

  1. Peça desculpas e resolva o problema;
  2. Não apague os comentários negativos!
  3. Determine quem merece resposta (se não for possível responder a todos, procure pelo menos os hubs e autoridades);
  4. Pense e atue rápido;
  5. Seja humano(a).

Aliás, saiba sempre o que dizem sobre sua marca por aí (faça monitoramento).

 

Manuais: vídeo online e redes sociais

Começamos a produzir em 2011 dois manuais: um sobre vídeo online, e outro sobre redes sociais. Culpa minha, pensando sempre em publicar manuais que fossem referência sobre o assunto, e sendo o ótimo inimigo do bom, e contrariando sobretudo a regra hacker “release early”, os manuais até hoje não foram terminados, nem publicados. Bem, agora estão publicados aqui.

Os guias são fruto do trabalho que desenvolvemos durante anos na Casa da Cultura Digital, e foi produzido em conjunto por muita gente de lá. São uma tentativa de sistematizar o conhecimento que reunimos, em duas frentes:

Manual de distribuição de vídeo online

Como tirar um arquivo de vídeo de um DVD e jogar na web, da melhor maneira possível? Nós tivemos que aprender na marra, e não foi fácil, sem um lugar que pudesse ensinar isso – apenas fóruns de discussões, listas de videomakers, conversas no corredor. Qual o melhor software para converter arquivos? E para juntar partes de vídeos? E como editar um vídeo que veio do celular, e depois jogar na web? Jogar onde?

Este livreto é uma tentativa de juntar esse conhecimento. Traz uma breve explicação sobre formatos de arquivos de vídeo na web, um passo-a-passo em dois sistemas de conversão (VLC e Format Factory), e um guia comparativo sobre plataformas de distribuição de vídeo online. Precisa de atualização (se alguém quiser entrar nessa pode ser uma boa), mas serve pra muita coisa. Tudo isso me ajudou muito.

Manual de Ativação de Redes Sociais

Este trabalho é uma sistematização das redes sociais existentes em 2011/2012, e um guia sobre como trabalhar com elas, e por quê. Twitter, Facebook, FormSpring, Delicious, Flickr, Internet Archive, Tumblr, MySpace, YouTube, Vimeo. E alguns cases de usos de redes.

Tenho mostrado em aulas, e distribuído esses livrinhos por aí (em pdf), mas passou da hora deles estarem na web. Aqui vão.


 

Agradecimentos aos que participaram de alguma maneira aí no projeto, e desculpas se esqueço de alguém: VJ Pixel, Juliana Protássio, Tiago Pimentel e equipe Interagentes, Cardume Estúdio (que ainda eram os irmãos Luiza e Miguel Peixe então), Aloisio Milani (que revisou um trabalho do site Guia do Vídeo Online), o Felipe Lavignatti, que deve ter ajudado com alguma coisa que não lembro, e entre outros tanto aí. Praticamente todos que trabalharam nesses livrinhos não estão mais lá na Casa da Cultura, aliás, mas firmeza, tamos na área.

Entrevista com Rafael Kenski

Rafael Kenski é um dos grandes nomes do newsgame no Brasil, um dos pioneiros no assunto. Foi entrevistado por email pelo Carlos Nascimento Marciano, para uma monografia sobre o tema (disponível aqui em pdf). Vale ler a entrevista, que publicamos na íntegra aqui:

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011 15:17

1) Qual o programa utilizado para a produção dos newsgames?

Oi Carlos, Antes de mais nada, preciso explicar que só trabalhei de fato com o CSI – o “Paredão” foi feito quando eu já havia saído da Super e deixado o Fred no meu lugar. Então, nas respostas abaixo, falarei só do CSI, ok? Abs Rafael

O jogo do CSI é, em grande parte, crossmedia. Parte dele acontece na revista (que é em si uma ferramenta dentro desse jogo, mas que produzimos com Word e InDesign), parte dele na internet, com Flash e a ferramenta de fóruns da Abril. Houve também uma produção com modelos e fotógrafos, de onde saíram as 116 imagens todas. Mas, pensando em newsgames em geral, qualquer programa pode ser usado para produzi-los.

2) Quem participa da equipe de produção? (por favor se possível especifique nomes e funções, ou pelo menos as funções)

O CSI foi um jogo razoavelmente complexo, apesar da aparência e da jogabilidade simples. Se você der uma olhada lá na página (http://super.abril.com.br/jogos/crime/index.shtml), todos os nomes e funções estão ali. Acho que só não apareci eu, que fui uma espécie de diretor ou produtor da brincadeira toda.

3) Se existem jornalistas trabalhando na produção dos newsgames, por favor especifique as atribuições deles.

A função de um jornalista em um newsgame é quase idêntica a que ele terá em qualquer outra matéria: reunir informações e contar uma história. A diferença é que, de acordo com o meio, as informações necessárias mudam: apurar para um infográfico é bem diferente de apurar para um texto. O mesmo vale para newsgames: ele precisará ajudar o game designer a criar procedimentos convincentes e divertidos, além de criar uma mecânica que responda aos movimentos dos jogadores de forma realista (não estou falando de realismo gráfico, mas sim no que diz respeito à informação jornalística).

4) Em que casos é definido que vai ser produzido um newsgame? E quem define isso?

Varia bastante. O CSI foi escolhido porque era a matéria de capa, e a gente queria testar essa idéia de “jogos jornalísticos” (na época, ninguém tinha ainda ouvido falar de “newsgames”). Os jogos feitos imediatamente depois tinham uma justificativa parecida: era uma forma de chamar atenção para a capa. Com o tempo, foi caminhando para tentar ver que matéria “rende” um bom jogo, assim como se pensa em matérias que rendem infográficos, tabelas, etc. De um modo geral, depende da interação que o assunto permite e de alguém conseguir pensar em uma mecânica para ele. Quem decide isso são os editores e diretores (da revista, da internet ou ambos).

5) Explique um pouco mais sobre o processo de produção dos newsgames (quais as etapas, como é dividido o trabalho etc)

Começa como qualquer matéria ou infográfico: começa na definição da pauta e a apuração. A diferença é que os newsgames envolvem também o design do jogo: imaginar as diferentes mecânicas e elementos. No caso do CSI, as duas coisas foram pensadas juntas. Um repórter já havia apurado parte da matéria e, em uma primeira reunião, combinamos tudo: o que era o assunto, o que sairia na revista, o que sobraria para o jogo, qual era a dinâmica de jogo e a ilustração da matéria. Foi importante porque diminuiu o custo de produção ao dividi-lo entre revista e internet. A partir daí, criamos um roteiro do jogo, fizemos a produção das fotos, um designer e um programador montaram a ferramenta em flesh e colocamos no ar pouco depois da revista chegar às bancas.

6) Quanto tempo leva o processo de produção?

Depende do jogo. No caso do CSI foi algo como um mês, mas não é muito difícil que um jogo leve três vezes esse tempo.

7) Destaque as principais características dos newsgames que os tornam interessantes para um veículo de comunicação.

Os jogos transmitem conteúdo (como as revistas ou jornais) mas por meio de procedimentos (diferentemente de qualquer outra mídia). Eles são essencialmente educativos, ensinam as pessoas a fazerem alguma coisa. Então, já pela própria natureza dos jogos, eles trazem recursos que não estão normalmente disponíveis aos jornalistas, como envolver o leitor em um assunto, permitir a interação e a imersão e criar um modelo da realidade que se está descrevendo. Além disso, jogos estão hoje em todo lugar para todo tipo de pessoa. É uma forma de ampliar o apelo do jornalismo, levá-lo a novos públicos, usar novas linguagens e engajar o leitor de novas maneiras. É quase uma obrigação experimentar com essa mídia em um momento em que o modelo tradicional do jornalismo perde gradativamente a sua importância.

8. Pesquisas apontam que a imersão e a interatividade são dois elementos de grande importância no jogo. Esses pontos são levados em consideração nos newsgames da Super? De que forma?

Acredito que a interatividade é um pré-requisito dos jogos – um newsgame em que ninguém interage não existe. Dependendo do ponto de vista, até mesmo um texto pode ser bastante interativo. Já a imersão é mais um resultado de um jogo bem feito, da adequação da dificuldade da tarefa às habilidades do jogador. Para mim, os dois critérios essenciais para um newsgame são diversão e confiabilidade (ele não pode trazer elementos fantasiosos ou errados, da mesma forma como um infográfico ou um texto da revista não pode simplesmente mentir).

Eu assumi a área de internet da Abril em 2009. Antes disso, estava desenvolvendo ARGs e jogos publicitários para o Núcleo Jovem da Abril (do qual faziam parte Super, Capricho, Mundo Estranho, Guia do Estudante e Aventuras na História). Então, ao voltar para o lado editorial, a idéia de usar as mesmas ferramentas em jogos jornalísticos foi quase óbvia. Juntei alguns dos mesmos colaboradores que havia usado em ARGs anteriores e combinei com a redação da revista para que eles pensassem a matéria como um híbrido de revista e jogo. A partir daí, saí do processo e deixei para eles realizarem o que viria a ser o extremamente bem sucedido jogo do CSI.

Making of Arte Fora do Museu

Atualização: O projeto Arte Fora do Museu também está no site do SP-Arte 2012, numa parceria com os organizadores. Veja clicando aqui.

Depois de vários meses, finalmente está na rua o Arte Fora do Museu. Aproveitamos para compartilhar aqui um pouco sobre como foi feito esse projeto jornalístico multimídia.

Cada um de nós (eu e o também jornalista Felipe Lavignatti) já havia tido uma ideia semelhante sobre um site que fizesse um georreferenciamento de obras de arte em espaços públicos de São Paulo. Eu havia visto um artigo numa revista sobre os grafites do bairro da Liberdade, e desde então me incomodava que o artigo não tivesse sequer um mapa desenhado com um trajeto proposto. Um site poderia fazer isso muito bem.

Felipe já tinha também pensando a respeito, tendo inclusive mapeado algumas obras. Em 2007, quando visitou uma exposição na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), viu algumas réplicas de obras de Aleijadinho. “Eu não sabia que tinha cópias do Aleijadinho em São Paulo e pensei que devia haver muitas obras que não estão catalogadas. No Masp [Museu de Arte de São Paulo] tem um catálogo das obras, mas como saber o que está na rua?”.

Eis que surge um edital da Funarte, o Bolsa Funarte de Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet, que oferecia a chance de finalmente começarmos o projeto. Trabalhando juntos já em projetos na Casa da Cultura Digital, escrevemos o que seria este site, que mapearia obras de arte em espaços públicos, chamamos de Arte Fora do Museu. Projeto no correio, algumas semanas depois veio a alegria: acabamos vencendo em primeiro lugar.

Tínhamos seis meses para realizar tudo o que havíamos prometido no projeto: cem obras de arte, num sistema de georreferenciamento que funcionasse também a partir de celulares. Sempre nos pareceu correta a estratégia chamada “mobile first” – você desenvolve pensando para celulares, e depois faz funcionar também na web.

Felipe assumiu a produção do projeto, encontrando os consultores Fabio Cypriano e Diogo de Oliveira, que auxiliaram a selecionar as 100 obras de acordo com alguns critérios que definimos em conjunto:

  • A relevância reconhecida por especialistas;
  • Obras consideradas modernas ou contemporâneas;
  • As proximidades do centro expandido da metrópole;
  • Acesso gratuito e fácil ao pedestre (sem ingressos ou agendamentos).

Felipe também montou um banco de dados, onde começava a listar os pormenores que depois alimentariam o site e o aplicativo para celular. Conseguimos uma parceria com a empresa Galapagos Mobile, que se prontificou a desenvolver o aplicativo para o Iphone. O Android, quando havíamos pensando no projeto, ainda não era o que já se tornou: um sistema operacional forte concorrente da Apple.

Enquanto Felipe mapeava as obras, buscando no Google Street View o local exato de cada uma delas, fizemos alguns desenhos do site, que começava a ser criado pelo também parceiro e programador Paulo Geyer. Ele escolheu o Ruby on Rails para criar a site, o que já gerou uma API aberta, como essa aqui. Queremos melhorar isso para que qualquer um possa usar nossa base de dados para outros projetos.

Fora do Brasil existiam algumas experiências semelhantes, mas quase todas baseadas em catalogação colaborativa. Nada contra projetos colaborativos, mas existe todo um sistema complexo de checagem da produção coletiva, e não optamos por este caminho. Pensamos num trabalho jornalístico mais tradicional: apuração com especialistas, produção de conteúdo, edição, apresentação multimídia. Bem, talvez não tão tradicional assim.

A parte mais divertida – mas não menos trabalhosa – foi sair a campo para capturar as imagens de cada obra de arte. Optamos por dias de sol, e fizemos a maior parte dos trajetos de bicicleta, uma vez que muitos dos nossos objetos estavam concentrados no centro da cidade. Fotografar São Paulo com um olhar para o que há de bonito é uma das coisas que há muito eu queria realizar.

A ideia de fotografar as obras foi uma forma de garantir que grafites, ou mesmo edifícios, possam ser guardados de maneira perene na memória da cidade. Alguns projetos gringos que mapeiam arte nas ruas fazem isso a partir do Google Street View, apenas. Nada garante que quando o carro do Google passou, ou passar de novo, aquele grafite ainda estará lá.

Felipe me convenceu que poderíamos também ter vídeos com especialistas falando sobre cada uma das obras, individualmente. Uma loucura, produzirmos 100 vídeos, editarmos 100 vídeos. Mas compramos um tripé vagabundo na Santa Ifigênia para minha pequena câmera Flip HD, um microfone de lapela com fio, que ligamos no meu gravador digital da Sony, e fomos pras entrevistas. Aproveito para agradecer aos entrevistados, Fabio Cypriano, Felipe Chaimovich, Isabel Ruas, Pato, Ricardo Ohtake, Rosana de Paula Prado e Valter Caldana, que nos receberam sempre muito bem.

Pedimos aos nossos amigos da produtora Filmes para Bailar que fizessem a animação do logo, para inserirmos nos vídeos. O próprio Felipe desenhou o logo do projeto, aliás – orçamento baixo é assim.

Com fotos e vídeos nas mãos, começamos a edição de tudo – o que foi um erro nosso: deveríamos ter editado assim que voltávamos de cada saída, e aí não seria tão custoso editar tudo de uma só vez. Uma semana trancados, praticamente.

Compartilhamos as fotos via Dropbox com Paulo Geyer e a equipe da Galápagos. Usamos o Google Docs para compartilhar o banco de dados. Premiere para edição dos vídeos, mas simplesmente porque ainda não temos um Mac – todos dizem que o Final Cut é muito melhor.

Um detalhe: como eram relativamente longas as gravações, descobrimos que a Flip, após 10 ou 15 minutos, gera uma desincronia entre áudio e vídeo. A Flip é uma câmera incrível, pequena, custa US$ 100, mas, bem, descobrimos que não é muito profissional. Não tivéssemos gravado também na lapela, nenhum vídeo teria servido, ou pelo menos teria dado um trabalho infinito para editar.

Subimos todos os vídeos no YouTube, e todas as fotos no Flickr. Tudo foi liberado em Creative Commons, uma licença que permite a reutilização de tudo o que produzimos, desde que se cite a fonte. Primeiro, achamos que se foi feito com dinheiro público, toda a produção resultante deve ser pública. Mas também nos interessa que nosso trabalho circule, e que mais pessoas tenham acesso ao que fizemos. Assim, quem sabe, mais gente passa a nos conhecer e a nos procurar para trabalhos jornalísticos multimídia. Quem sabe. Viver de royalties é tão século 20.

O projeto está na rua, e agora queremos continuar. Este projeto foi feito praticamente por dois jornalistas, quase sem recursos – não ganhamos absolutamente nada. Mas esperamos que a ideia floresça e que alguém resolva patrocinar uma continuação, aprimoramentos, uma versão para Android. Contanto que o conteúdo seja sempre oferecido de graça, claro.

Pra finalizar, um depoimento do Felipe Lavignatti, acrescentando um pouco mais sobre a história e o processo de criação do projeto:

Eu sempre achei que de todos os cursos que ja fiz, o de desenho e pintura era o que de menos valia teve para minha profissão. Influenciado por gibis e capas de discos de rock, por alguns anos achei que esse seria meu destino: viver das minhas pinturas. Para sorte de todos, estes quadros nunca foram vistos por mais do que cinco pessoas. Quando me decidi pelo jornalismo na adolescência, a paixão pelas artes foi deixada de lado. Mas não totalmente esquecida. E agora, 20 anos após este curso de desenho feito em Jundiaí, as artes plásticas voltam a bater à minha porta. Fiquem tranquilos, não voltei a pintar nem decidi vender minhas obras primas que hoje mofam em algum canto na casa da minha mãe. A arte virou objeto para mim. No caso, objeto jornalístico. Com o Arte Fora do Museu, feito em parceria com o também jornalista e geek Andre Deak, posso satisfazer o desejo de trabalhar com arte daquele menino de 12 anos que pintava quadros duvidosos em Jundiaí. Mas mais do que isso, satisfaço meu lado jornalista ao criar um site que reúne as obras de arte em espaços públicos da cidade de São Paulo.

A ideia de mapear arte na cidade me ocorreu pela primeira vez ao visitar a FAAP durante uma exposição do fotógrafo Bob Gruen em 2007. Fiquei espantado em saber que existia no saguão de entrada da faculdade esculturas do Aleijadinho (mais tarde descobri que sao réplicas). Lembrei-me de que havia alguns cemitérios em São Paulo que também continham obras de artistas renomados, assim como grafites famosos, e resolvi fazer disso uma pauta, mapeando obras de arte ao ar livre, fora dos museus, para criar um catálogo que não existia em nenhum lugar. É fácil saber quais obras estão no Masp, no MAM, mas saber de quem é uma escultura no centro da praça da Sé é uma tarefa um pouco mais difícil. Cheguei a mandar um e-mail para um professor meu, Fabio Cypriano, que além de dar ótimas aulas é crítico de arte da Folha de S. Paulo. Ele chegou a me indicar alguns pontos na época, mas, por algum motivo, esta ideia não saiu do papel, e a visita guiada pela cidade de São Paulo ficou adormecida. Isso até o ano passado, quando o projeto foi posto no papel para ser inscrito em uma bolsa da Funarte. Foi minha primeira empreitada neste tipo de concurso, e não seria possível sem a ajuda do também jornalista e co-autor do projeto, Andre Deak. Andre tinha algumas ideias de projetos para este premio, e uma delas parecia com a pauta que eu guardava no meu bolso há três anos. Sua ideia era fazer um mapa de grafite em São Paulo. O meu era um mapa um pouco mais megalomaníaco, abrangendo tambem esculturas, pinturas e arquiteturas (sempre quis ver um site que listasse todas as obras de Oscar Niemeyer em São Paulo, e agora isso existe). Escrevendo a quatro mãos (nunca entendi este conceito, sendo que cada pessoa escreve com uma mão só…), eu e Andre fomos delineando o que teria neste site, como seria a navegação, etc. Era uma ideia muito boa e bem resolvida, por isso confiávamos que seria premiada. E foi o que aconteceu. Com a divulgação do resultado pela Funarte, o Arte Fora do Museu comecava a nascer.

O primeiro passo foi recuperar a lista de 2007. Não só a lista, mas também o contato com Fabio Cypriano. Se for para mapear as obras de arte de Sao Paulo, melhor chamar alguem que entenda muito do assunto, e Fabio era essa pessoa. Ele trouxe a ajuda do amigo Diogo Oliveira, que trabalha com turismo voltado para arte na cidade – nada mais adequado. Em diversas reuniões, nós quatro listamos pouco mais de 100 obras na cidade, discutimos quem seriam os especialistas para comentar cada peça. A partir daí, foi partir para rua e conhecer cada uma destas obras. E foi um aprendizado incrível ver cada uma destas obras ao vivo e ouvir a explicação de nossos entrevistados: o grafiteiro Pato, os arquitetos Ricardo Ohtake e Valter Caldana, a educadora Rosana de Paula Prado, a mosaicista Isabel Ruas e Cypriano, claro, que também gravou alguns depoimentos.

No fim, foi uma aula de arte feita de metrô, a pé, de carro e bicicleta em uns 7 dias de passeios de sol por lugares da cidade que eu mal conhecia. Reavaliando aquele curso feito em 1991, foi importante ter tido contato com as artes plásticas ali. No fundo, esta paixão nunca foi esquecida, sempre fui admirador. Graças ao jornalismo, agora posso trabalhar com arte sem ter que expor meus dotes na pintura (para sorte de todos).

O Paulo Geyer, programador, também mandou um parágrafo contando a experiência dele na produção do Arte Fora do Museu:

Em dezembro de 2010 o Lavignatti entrou em contato comigo, queria fazer um site com cadastro de obras de arte nas ruas de São Paulo. Não sabia exatamente o que seria, mas ao longo da conversa começou a parecer cada vez mais interessante, algo realmente diferente do que eu costumava fazer. Dei início ao projeto em Ruby on Rails. Ao longo do semestre fomos conversando e o projeto foi tomando cada vez mais forma, eu trabalhando em Florianópolis e ele em São Paulo. Não é comum achar gente que consiga trabalhar à distância, mas funcionou perfeitamente bem para nós. Enquanto produziam o material e disponibilizavam por uma planilha do Google Docs (a lista das obras), e os arquivos multimídia com as fotos e áudio via Dropbox, o site ia ganhando forma. Estava gostando muito da navegação do site com as fotos, informações e street view de cada obra, mas quando chegaram os arquivos de áudio eu tive a impressão de que deu um avanço muito grande na navegação: ouvir a explicação de cada obra enquanto se observam as fotos ou o street view melhorou muito a experiência de usuário (eu mesmo parei para rever e ouvir o áudio de diversas obras). Mas somente nos últimos meses deu pra ver todo o potencial do site, e o resultado final me agradou muito mesmo. Da próxima vez que o Lavignatti me chamar para participar de algum projeto não vou pensar duas vezes! 😉

 

PARA ACESSAR:

Arte Fora do Museu – o site

As fotos do projeto no Flickr

Os vídeos no YouTube

Para acompanhar no Twitter e no Facebook

Newscamp Rio no Festival de Cultura Digital.br


Acontece no Rio de Janeiro, no próximo sábado (03 de dezembro), 18 horas, a sétima edição do Newscamp – encontro de jornalistas ligados em tecnologia e de geeks ligados em jornalismo. Novamente este ano o encontro tem apoio do Festival Cultura Digital.br, que cederá espaço dentro do MAM para realizarmos essa desconferência.

O modelo do Newscamp é o mesmo: juntamos várias pessoas que estejam a fim de trocar ideias e projetos sobre jornalismo e tecnologia. Neste ano vamos mostrar projetos da Casa da Cultura Digital, juntar Mario Lima Cavalcanti (Jornalistas da Web), Felipe Lavignatti e Andre Deak (Jornalismo Digital.org , Arte Fora do Museu), e vários outros.

Serviço

Newscamp Rio

Sábado (03 de dezembro), 18 horas às 20 horas

MAM, Rio de Janeiro

Dentro do Festival CulturaDigital.br, no espaço Encontro das Redes

Quanto: gratuito, claro

 

Histórico

A primeira edição do NewsCamp foi no mês de março de 2008, quando o tema principal era blogs e surgia um grupo de jornalistas que discutiam montar o primeiro site colaborativo político. O site nunca foi ao ar, mas reuniu muita gente interessante que formou empresa, tocou projetos vários e até contribuiu para criar a Casa da Cultura Digital.

A segunda edição foi a mais plural de todas e reuniu um público não só de jornalistas, mas blogueiros, publicitários e profissionais da área de Relações Públicas. Gente de gueto diferente só pode resultar em diversidade de temas. Exemplo? Monetização e crise do impresso.  Nesta edição, fizemos um Esquenta antes da grande festa. E muita conversa rolou entre blogs antes da desconferência em si. Confira os temas com a tag Esquenta.

Na terceira edição do NewsCamp, surgiu a colaboração de mais gente durante a organização do evento, o que resultou num formato mais híbrido com oficinas, palestras e muita, mas muita desconferência. As tribos continuaram vindo de todo canto: blogueiro, programador, AI, jornalista, assessor de imprensa. Muita coisa boa rolou naquele NewsCamp, considerado com maior público de 100 pessoas.

A quarta edição fechou o ano de 2008, com a ajuda de Rodrigo Savazoni e Paulo Fehlauer na organização do evento. Mais uma vez, a desconferência ganhou cara nova e, desta vez, o público foi formado por tribos de dois cantos: jornalismo e comunicação corporativa. O evento foi dividido em duas temáticas: jornalismo multimídia e RP Digital. Foi assim que surgiu a lista RP Digital com apoio daAbracom, liderada por Eduardo Vasques.

No ano de 2009, fizemos a quinta edição da desconferência com a presença predominante dos profissionais da área de comunicação corporativa, que naquela época discutiam: publicidade, viral ou relacionamento?

Em 2010 o sexto encontro foi durante o Fórum da Cultura Digital Brasileira, na Cinemateca, e teve mais de 100 pessoas discutindo colaboração e webjornalismo.

 

Jogo BBB РMaking of do Pareḍo da Personalidade

Por Adriana Teodoro dos Santos

Fred Di Giacomo é editor do Internet Núcleo Jovem, da Editora Abril, responsável pelos sites das revistas Superinteressante, Aventuras na História, Mundo Estranho e do Guia do Estudante, da Editora Abril. Experiência com criação e edição de newsgames, infográficos, jogos, edição de texto, gerenciamento de equipe (2 designers, 2 webmasters, 2 estagiários, 2 repórteres, 1 editor-assistente), desenvolvimento de projetos publicitários com o marketing, redesenho de site, operação de publicadores e análise e produção de relatórios de audiência, e é um dos principais responsáveis pela introdução dos newsgames no Brasil. Nesta entrevista, ele fala como surgiu o “BBB – Paredão da Personalidade”, newsgame que venceu o Prêmio Abril 2011.

No mês de abril de 2011, a revista super interessante foi duplamente campeã nas categorias digitais do Prêmio Abril de Jornalismo, uma das mais tradicionais premiações do jornalismo brasileiro. O feito, junto com o prêmio que a revista ganhou na categoria “melhor infográfico”, fez a super ser a segunda publicação mais premiada no ano, atrás somente para a revista Veja.

Um dos ganhadores foi o teste-quiz “BBB-Paredão da Personalidade”, que levou na categoria “uso de redes sociais”. O jogo marcou o site da SUPER na época por diversos motivos, mas um dos importantes foi o questionamento sobre o tema: “a gente falando de Big Brother? Mas pode isso? Pode”, diz Fred. E explica como a história surgiu:

No verão passado, o programa do Pedro Bial, como em quase todos os verões da última década, era assunto recorrente em mesa de bar, Twitter, fila da farmácia e sala de espera de consultório. Na redação da SUPER não foi diferente. Alguns editores dedicavam boa parte de seu tempo no café da máquina discutindo a respeito do comportamento da então webcelebridade Tessália no programa, a redenção de Dourado, o bom-mocismo aguado (para uns) ou lindinhos (para outras) de Cadu. Sim, estávamos falando de um programa que muitos torcem o nariz para confessar que, se não assistem, pelo menos acompanham. Cá entre nós: é muito difícil estar em janeiro no Brasil e passar incólume pelo BBB. Conosco não é diferente.

Foi aí que pensamos em usar o jeito da SUPER enxergar o mundo para tratar o Big Brother. Com o aval do diretor de redação Sergio Gwercman, sugeri ao o resto da equipe do site a explorar o tema. Usamos um grande sucesso nosso de 2009, o Teste de Personalidade, como base para a mecânica. Ele havia sido feito a partir da Teoria dos Cinco Grandes Fatores, de Robert McCrae e Paul T. Costa, estudo que busca entender padrões de comportamento.

A partir de então, debruçamo-nos – com a essencial ajuda de fontes fanáticas por BBB (essas que assinam o pacote PPV todo ano) – sobre as biografias de todos os participantes de todas as edições do programa (incluindo a que estava rolando). Mais que a biografia, o que nos importava, de fato, era o “personagem” que cada pessoa encarnara no programa. Não nos interessava saber se, por exemplo, o “doutor Gê”, do BBB5, era um sujeito mal fora da casa. Mas, no programa, ele ficou com a fama de vilão. Era isso que valia, pois o objetivo do jogo era mostrar, com base nas suas respostas, com quem você se pareceria se participasse do Big Brother.

Assim, agrupamos os participantes mais notórios da história do programa em categorias opostas: equilibrado-explosivo, polêmico-agradável, relaxado-reservado, bagunceiro-consciente, liberal-conservador. Cada categoria tinha graus de intensidade. Por exemplo: do mais liberal (Priscila, do BBB9, que dava em cima dos homens e falava de sexo sem nenhuma vergonha) ao mais conservador (Íris, BBB7, que segurou a onda de Diego “Alemão” quase o programa inteiro).

“Todo mundo já se imaginou lá dentro. E ainda pensa ‘nossa, eu ia rodar na primeira semana, ia brigar com todo mundo”. A gente bateu muito nessa tecla enquanto apurava e desenvolvia o newsgame (vai dizer que você não pensou isso também?). Então, decidimos que precisávamos dizer quantas semanas as pessoas durariam de fato no programa. Uma brincadeira que exigiu horas de reunião e algumas discussões para se chegar à fórmula que diria os 15 participantes do programa com quem você se pareceria se estivesse lá dentro – e quantas semanas iriam durar até ser eliminado pelo Bial.

Tá, mas 15? Quem se parece com tanta gente? Bem, primeiro que é um jogo, por mais que tenhamos nos baseado em teorias sérias e tivéssemos contado com a ajuda de uma psicóloga especialista em BBB para criá-lo, nunca tivemos a pretensão de fazer um teste psicológico – até porque isso não se faz pela internet, é preciso acompanhamento profissional.

E segundo porque a gente não é 100% parecido com alguém (afinal o nome disso é “idêntico”). Já reparou que quando está com a namorada você parece seu pai, quando tenta separar uma briga você age como um amigo de infância, quando vê uma injustiça você gesticula como seu avô e usa argumentos fortes como aquele antigo professor super legal? Então, dependendo do tipo de situação, temos um padrão de comportamento. Essa era a idéia.

A ativação das redes sociais

A melhor sacada, no entanto, veio bem no fim. Era tarde da noite, estávamos com prazo apertado, e então um trote deu a idéia que criou o viral. Um amigo nosso de outra redação da Abril ligou para todos os nossos ramais, usando uma voz robótica para nos chamar para conversar no RH. Ops. Passados o susto, a raiva e os risos quando descobrimos o autor da piada, a designer Fabiane Zambon sugeriu explorarmos o site da voz eletrônica para localizarmos uma configuração semelhante à voz usada pelo “Big Fone”, a voz que decidia o futuro de quem atendesse um telefonema específico no programa, e usá-la para apresentar o jogo a formadores de opinião na internet.

“Atenção. Preste muita atenção. Você foi indicado para o Paredão da Personalidade da Superinteressante. Acesse…” Assim, com a voz do “Big Fone”, nas últimas semanas do BBB10, ligamos para dezenas de jornalistas, publicitários, blogueiros, twiteiros (teve até colírio da CAPRICHO no bolo), que abraçaram nossa idéia e viralizaram o jogo. O resultado foi um recorde de audiência no site da SUPER, o primeiro grande passo que nos levou a um milhão de visitantes únicos em 2010 – e ao Prêmio Abril de Jornalismo.

O editor Felipe Van Deursen, autor deste texto e um dos criadores do game “BBB – Paredão da Personalidade”

Créditos da equipe que fez o BBB Paredão Personalidade

 

Concepção, reportagem e edição: Felipe van Deursen, Kleyson Barbosa

Concepção e Design: Fabiane Zambon

Reportagem: Ana Carolina Prado

Programação: Bruno Xavier e Tadeu Correa

Colaboração: Fernanda Negrini e Gabriel Gianordoli

 

Jogo:
http://super.abril.com.br/multimidia/info_541776.shtml

 

Este texto é um trabalho para a disciplina design informacional, da pós-graduação 2011 na PUC-SP.

 

@belemtransito: o Twitter na hora do rush

por Andressa Malcher

Tarde de sábado em Belém do Pará. No último final de semana de janeiro de 2011 o bairro de São Brás tremeu. Real Class, um edifício de 35 andares em fase de construção, desmoronou e virou pó. Pânico em uma das principais ruas da cidade. A vizinhança da Travessa Três de Maio se reuniu no asfalto temendo o desabamento de edifícios e casas vizinhas à construção. Enquanto isso, internautas informaram ao @belemtransito a notícia. O perfil do Twitter que colabora com informações sobre o trânsito da capital paraense foi um dos primeiros canais de comunicação da cidade contactado.

Antes que os links ao vivo das emissoras locais informassem aos telespectadores sobre a tragédia, na internet já circulavam vídeos e fotos do desabamento, além de informações que atualizaram o internauta sobre o que se passava no local. Todo fato novo foi reportado ao
@belemtransito que concorreu com a cobertura da imprensa sobre o acidente.

“Fomos um dos primeiros a sermos informados. Algo muito interessante foi que, efetivamente, os órgãos de gestão da crise, bombeiros, por exemplo, já nos direcionavam informações, enquanto tínhamos que apurar outras. Nesse dia, assumi a moderação às 15h e fui encerrar às 2h da manhã”, lembra Aldrin Leal, um dos moderadores do @belemtransito.

O perfil existe há dois anos. Incomodado com os problemas do trânsito de Belém do Pará, o engenheiro mecânico Tiago Paolelli criou o canal de comunicação que informa motoristas sobre engarramentos, acidentes, alagamentos, trânsito lento, protestos ou qualquer fato que colabore para o mal fluxo de veículos. O @belemtransito funciona como uma ferramenta wiki. Os atuais 19.130 seguidores colaboram com diversas informações que são retuitadas. O perfil também comunica a situação do trânsito nas ruas, travessas e avenidas solicitadas pelos
seguidores.

Tiago e Aldrin se dividem em turnos com mais três pessoas para atender às demandas do @belemtransito durante todo o dia. O perfil conta inclusive com uma jornalista que modera o conteúdo publicado. Por trabalhar em um dos principais veículos de comunicação paraense, ela prefere não se identificar.

Embora com pouco tempo de existência, o @belemtransito já virou um perfil de referência na cidade. Funciona inclusive como fonte de informação para jornalistas. A chefia de reportagem de um dos principais jornais impressos do Pará acompanha as publicações do perfil. Muitas já ganharam as páginas do periódico nas editorias de cidades e polícia.

Hoje, @belemtransito é uma marca com valor agregado. Segundo o moderador Aldrin, alguns tuiteiros colaboram com informações motivados pelo aumento da reputação do seu perfil pessoal no Twitter. Como consequência, ampliam o número de seguidores porque publicam informações importantes sobre o trânsito da capital.

O desabamento do edifício Real Class amadureceu a forma de apurar e filtrar as informações publicadas. Mas não foi a primeira experiência do @belemtransito em reportar tragédias. Aldrin lembra: “Ano passado houve um incêndio aqui na frente de casa. Fiz uma TwitCam daqui”.

Por enquanto o perfil do Twitter ainda não lucra o que desejam seus moderadores. A receita arrecadada é investida para manter o @belemtransito em funcionamento. Os moderadores pensam adiante. Atualmente eles comandam mais dois projetos, a atualização e modernização do site belemtransito.com.br. Outra mais audaciosa é o desenvolvimento de um aplicativo móvel que funcionará como uma espécie de GPS do perfil do Twitter.

Este texto é um trabalho para a disciplina design informacional, da pós-graduação 2011 na PUC-SP.

Festival CulturaDigital.br – 2 a 4 de dezembro no Rio de Janeiro

Mais do que um evento para exposição de ideias e projetos, o Festival CulturaDigital.Br é um momento de encontro de agentes da cultura digital brasileira com seus pares no mundo. São realizadores, produtores, ativistas que atuam na intersecção entre cultura, política e tecnologia, promovendo inovações em suas áreas.

De 02 a 04 de dezembro, o MAM-Rio e o Cine Odeon, no Rio de Janeiro, serão ocupados por palestras, debates, encontros, atividades mão na massa, exibições e performances artísticas. A proposta é articular referências mundiais e redes expressivas, a partir de questões relevantes da conjuntura nacional e global – como a função da propriedade intelectual na era do conhecimento e os avanços do movimento software livre, que integram a essência da cultura digital.

A terceira edição do Festival CulturaDigital.Br emerge no cenário de massificação e apropriação das tecnologias por jovens realizadores com um perfil marcante: eles não se encaixam no que compreendemos sobre organizações e nem estão ligados a filiações ideológicas rígidas. Também estão muito mais preocupados com a prática e o processo, descrevendo e transformando a realidade.

Neste debate, técnica e política jamais podem ser observadas em blocos separados. Não se trata de um movimento de negação da política, mas de confrontação das estruturas caducas.

O Festival CulturaDigital.Br é uma realização da Casa da Cultura Digital, um cluster criativo na cidade de São Paulo, que abriga mais de 15 instituições.

quem vai falar

Entre os confirmados:

Yochai Benkler, professor da Universidade de Harvard, Kenneth Goldsmith, criador da Ubuweb, Hugues Sweeney da National Film Board of Canada, Michel Bauwens, fundador da Fundação Peer-to-Peer Alternatives, Philippe Aigrain, CEO da Sopinspace – Sociedade pelos Espaços de Informação Pública,  Heloisa Buarque de Hollanda, referência no no estudo da relação entre cultura e desenvolvimento, relações de gênero e étnicas, culturas marginalizadas e cultura digital.

O escritor e membro da Academia Brasileira de Letras Paulo Coelho também participará, à distância (via teleconferência), do Festival. Considerado um dos maiores escritores brasileiros, Coelho tem se declarado a favor da “pirataria” ou do copyleft, disponibilizando em seu blog todos os seus livros para download.

outras edições

Em 2009, quando o termo Cultura Digital era emergente e nem constava na Wikipedia, o Ministério da Cultura articulado com a sociedade civil lançou a rede social Fórum da Cultura Digital, uma plataforma com o objetivo ser um espaço para a elaboração colaborativa de políticas públicas para o Século 21, o século das redes, da informação, da produção pós-industrial.

Desse diálogo resultaram ações impactantes em defesa da cultura e do software livre e também o fortalecimento de políticas públicas em favor do compartilhamento do conhecimento, como a ação cultura digital do programa Cultura Viva; a defesa da reforma da Lei de Direitos Autorais (LDA); e a criação do Projeto de lei feito por meio de uma consulta pública colaborativa, o Marco Civil da Internet, enviado pela Presidente Dilma Rousseff ao Congresso, no dia 24 de agosto deste ano.

Nas duas edições (2009 e 2010), o público presente foi além do esperado e o encontro extrapolou suas propostas iniciais. A hashtag #culturadigitalbr esteve entre os assuntos mais comentados do Twitter, figurando na lista dos Trending Topics em 2010. Nesse mesmo ano, o público online, acompanhando as palestras virtualmente, superou a audiência presencial. A edição de 2009 contou com 700 pessoas em quatro dias de evento, em 2010 o número subiu para 3.500 em três dias de atividades.

Uma grande arena de contatos foi formada e redes representativas do movimento, como o Fora do Eixo, Transparência Hacker e RedeLabs viram suas propostas serem potencializadas pela conexão entre pessoas e redes.

As discussões levantadas ainda ressoam na internet, por meio da rede social CulturaDigital.Br, um espaço que se propõe a agregar as pessoas e o fluxo de conteúdos de forma inteligente, organizando a participação e documentando o debate, que conta hoje com mais de 8 mil membros ativos e abriga mais de 700 blogs.

Uma série de registros abertos contam esse processo. Entre eles, o livro CulturaDigital.BR, o vídeo Remixofagia, o site do Fórum de 2009, o de 2010, uma série de entrevistas sobre digitalização de acervos, o projeto Retalhos, a Linha do Tempo da Cultura Digital, entre outros.

Após duas edições na Cinemateca de São Paulo, o evento chega ao Rio de Janeiro e pelo caráter múltiplo de sua programação, se assume como um Festival. Palestras, debates, atividades práticas, encontros, apresentações artísticas, experimentações, inovações e invenções diversas estarão presentes. Programe a sua ida ao Rio de Janeiro!


 

Lançamento oficial do Arte Fora do Museu: quinta, 19h

As cidades têm histórias invisíveis nas ruas. Edifícios, esculturas, grafites e murais são exemplos de obras de arte que passam despercebidas pelas pessoas, mas que transformam as cidades em museus a céu aberto. O projeto Arte Fora do Museu (www.arteforadomuseu.com.br) leva essas informações ao público de maneira gratuita e acessível. 

São Paulo foi a primeira cidade do projeto de mapeamento de pinturas, esculturas, construções arquitetônicas e grafites em espaços públicos. Utilizando o google maps, cada obra foi posicionada e junto a ela foi inserida uma interface repleta de informações. Um breve texto sobre aquele ponto, comentário de um especialista, fotos, áudios e um vídeo trazem o contexto sobre a arte que está no espaço público. O site e o celular se transformam em um guia artístico da cidade. Sobretudo os smart phones: o aplicativo e a versão para celular do site reconhece a posição do usuário e indica quais obras estão mais próximas. O conteúdo jornalístico de pesquisa e análise compõem um material que ajuda o cidadão a (re)descobrir o lado artístico da cidade.

Arte Fora do Museu no Brasil
Depois de São Paulo, já existe um projeto para ampliar o mapeamento para diversas outras cidades do país. Rio de Janeiro deverá ser a próxima capital, inclusive com a tradução para outras línguas.

Lançamento oficial
Na quinta-feira (27) ocorre o lançamento oficial do site e do aplicativo, com um evento na Casa da Cultura Digital. Entre os convidados, estão vários dos especialistas e artistas entrevistados para o projeto, realizadores e apoiadores.

Como surgiu a ideia?
O projeto foi concebido e realizado pelos jornalistas Felipe Lavignatti e Andre Deak, e foi selecionado pela Bolsa Funarte de Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet em 2010, permitindo que alguns custos de desenvolvimento fossem cobertos.

Um making of mais detalhado sobre como surgiu e foi realizado o Arte Fora do Museu foi publicado no site www.jornalismodigital.org

Serviço
Lançamento oficial na Casa da Cultura Digital
Quinta-feira, dia 27, 19 horas

Rua Vitorino Carmilo, 459
Barra Funda – São Paulo – SP
Fone: +55 (11) 3662 0571
http://www.casadaculturadigital.com.br/2009/11/onde-estamos/ 

site do projeto:
http://arteforadomuseu.com.br

aplicativo na apple store:
http://itunes.apple.com/us/app/arte-fora-do-museu/id470340090?mt=8

Contato para entrevistas e/ou informações
Entre em contato via caixa de comentários e respondemos imediatamente.

O Agora é Guerra: arte, interatividade, transmissão online ao vivo

Por Janaína Castro

 

Exposição artística com performances ou performance artística em exposição? Happening ou instalação? Sem uma definição precisa e acadêmica, a experiência de dois artistas paulistanos explicitou o processo de criação de uma coleção de telas, músicas e poesias e permitiu a interferência do público na construção das obras. E tudo foi transmitido em tempo real, pela internet.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=TDerfRmW9A4[/youtube]

Imagine-se no foco de uma câmera 24 horas por dia, sete dias por semana. Conhecidos e desconhecidos assistem ao que você diz e faz – como se estivesse preso em uma gaiola. Não, não se trata de um big brother ou de uma fazenda qualquer. O assunto aqui é a experimentação de um fazer artístico com a pressão da vigília e a colaboração de pessoas conectadas.

Entre 22 de maio e 5 de junho deste ano, a missão dos artistas Bieto e Luciana Araújo (Luba) foi preencher a Casa Galeria Café, em São Paulo, com improvisações sonoras e visuais, pautadas pela interação ao vivo dos públicos online e presencial, que questionavam e sugeriam. Vale alertar desde já que qualquer trocadilho com a Casa dos Artistas está dispensado. A performance da dupla e dos músicos convidados foi transmitida online em tempo real, via JustinTV.

Dentre muitas outras coisas, Bieto é artista plástico e grafiteiro. Luba, poetisa e musicista. Casados há dois anos, eles convivem com a arte em imersões que vão do refúgio em uma caverna no meio do Piauí a essa exposição (em qualquer sentido do verbo expor). Os artistas fazem parte do grupo Cuidado Tinta Fresca, que propõe performances com música, palavras, telas e spray, em espaços urbanos e eventos. Sempre trabalham com a singularidade do momento de produção, em conjunto com a música. É uma experiência temporal, no agora. E a proposta de O Agora é Guerra é trabalhar essa unicidade colocando sob a lupa os conflitos encarados dia a dia. “Seja em casa com a mãe, no campo de batalha ou com nós mesmos”, explica Bieto.

O Agora é Guerra

Para os artistas, o sentimento de estar exposto muda a relação com o mundo – na ansiedade, os movimentos são diferentes. Durante o confinamento, a transmissão e os comentários que surgiam transformavam cada quadro e o jeito de se portar. “Quando estou sendo observado, mudo minha postura inconscientemente. Fico pressionado a tomar decisões e tudo isso influi na tela,” conta.

Não foi com o advento da internet, no entanto,  que artistas começaram a trabalhar com a ideia de transmissão em tempo real. Happenings e performances eclodiram nas décadas de 1950 e 1960 e o desenvolvimento tecnológico amplificou as possibilidades de participação do público. Uma das propostas pioneiras nesse sentido foi a instalação Hole in Space, dos norte-americanos Kit Galloway e Sherrie Rabinowitx. Em 1980, muito antes da rede como se conhece hoje, a dupla montou uma instalação com a ideia de viagem pelo espaço instantânea. Via satélite, eles conectaram em tempo real imagem e áudio de pessoas em Los Angeles e em Nova York. A instalação chamou atenção dos críticos, apesar de suas limitações se compararmos ao que existe hoje.

O Agora é GuerraO alcance de um projeto como O Agora é Guerra foi uma surpresa para os seus criadores. Com uma divulgação singela de amigos pelas redes sociais, os artistas tiveram mais de mil visitantes por dia na página. Bieto não sabe exatamente quem apareceu por lá para participar dessa história. “Uns perdidos aí ou gente que estava procurando a gente. Não tenho como saber,” conta. E essas pessoas que surgiram não podem ser consideradas meramente audiência, já que fizeram parte da criação. Para o pesquisador norte-americano Lev Manovich, um especialista em novas mídias, o papel do público online é múltiplo. “Percebi que a gente não pode ter um único e bom termo que descreva o que a gente faz nas mídias digitais por uma razão (…). Leitores, espectadores, publicadores, jogadores, usuários – todos se aplicam,” defende Manovich em um post no seu site. No caso da interação com o trabalho criado Bieto e Luba, o que representavam essas pessoas: participantes, espectadores, coautores, musas? Também não há uma resposta única e, seja qual for a atitude e a função, elas contribuíram com o processo.

Um dos pontos mais interessantes dessa experiência artística é que ela conversa com a instantaneidade da internet, mas seu todo significativo não pode ser revivido. Está preso ao momento e aos meios em que ocorreu. Este making of reproduz apenas uma impressão que certamente não fará justiça às sensações dos artistas – os que idealizaram e os que, em conjunto, criaram.

PARA SABER MAIS:

Myspace Cuidado Tinta Fresca

Flickr Bieto

Lev Manovich

O conceito de Happening (Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais)

O conceito de Performance (Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais)

Fotos Overradd | Vídeo Atitudedelicada

Este texto é um trabalho para a disciplina design informacional, da pós-graduação 2011 na PUC-SP.