Entrevista com Rafael Kenski

Rafael Kenski é um dos grandes nomes do newsgame no Brasil, um dos pioneiros no assunto. Foi entrevistado por email pelo Carlos Nascimento Marciano, para uma monografia sobre o tema (disponível aqui em pdf). Vale ler a entrevista, que publicamos na íntegra aqui:

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011 15:17

1) Qual o programa utilizado para a produção dos newsgames?

Oi Carlos, Antes de mais nada, preciso explicar que só trabalhei de fato com o CSI – o “Paredão” foi feito quando eu já havia saído da Super e deixado o Fred no meu lugar. Então, nas respostas abaixo, falarei só do CSI, ok? Abs Rafael

O jogo do CSI é, em grande parte, crossmedia. Parte dele acontece na revista (que é em si uma ferramenta dentro desse jogo, mas que produzimos com Word e InDesign), parte dele na internet, com Flash e a ferramenta de fóruns da Abril. Houve também uma produção com modelos e fotógrafos, de onde saíram as 116 imagens todas. Mas, pensando em newsgames em geral, qualquer programa pode ser usado para produzi-los.

2) Quem participa da equipe de produção? (por favor se possível especifique nomes e funções, ou pelo menos as funções)

O CSI foi um jogo razoavelmente complexo, apesar da aparência e da jogabilidade simples. Se você der uma olhada lá na página (http://super.abril.com.br/jogos/crime/index.shtml), todos os nomes e funções estão ali. Acho que só não apareci eu, que fui uma espécie de diretor ou produtor da brincadeira toda.

3) Se existem jornalistas trabalhando na produção dos newsgames, por favor especifique as atribuições deles.

A função de um jornalista em um newsgame é quase idêntica a que ele terá em qualquer outra matéria: reunir informações e contar uma história. A diferença é que, de acordo com o meio, as informações necessárias mudam: apurar para um infográfico é bem diferente de apurar para um texto. O mesmo vale para newsgames: ele precisará ajudar o game designer a criar procedimentos convincentes e divertidos, além de criar uma mecânica que responda aos movimentos dos jogadores de forma realista (não estou falando de realismo gráfico, mas sim no que diz respeito à informação jornalística).

4) Em que casos é definido que vai ser produzido um newsgame? E quem define isso?

Varia bastante. O CSI foi escolhido porque era a matéria de capa, e a gente queria testar essa idéia de “jogos jornalísticos” (na época, ninguém tinha ainda ouvido falar de “newsgames”). Os jogos feitos imediatamente depois tinham uma justificativa parecida: era uma forma de chamar atenção para a capa. Com o tempo, foi caminhando para tentar ver que matéria “rende” um bom jogo, assim como se pensa em matérias que rendem infográficos, tabelas, etc. De um modo geral, depende da interação que o assunto permite e de alguém conseguir pensar em uma mecânica para ele. Quem decide isso são os editores e diretores (da revista, da internet ou ambos).

5) Explique um pouco mais sobre o processo de produção dos newsgames (quais as etapas, como é dividido o trabalho etc)

Começa como qualquer matéria ou infográfico: começa na definição da pauta e a apuração. A diferença é que os newsgames envolvem também o design do jogo: imaginar as diferentes mecânicas e elementos. No caso do CSI, as duas coisas foram pensadas juntas. Um repórter já havia apurado parte da matéria e, em uma primeira reunião, combinamos tudo: o que era o assunto, o que sairia na revista, o que sobraria para o jogo, qual era a dinâmica de jogo e a ilustração da matéria. Foi importante porque diminuiu o custo de produção ao dividi-lo entre revista e internet. A partir daí, criamos um roteiro do jogo, fizemos a produção das fotos, um designer e um programador montaram a ferramenta em flesh e colocamos no ar pouco depois da revista chegar às bancas.

6) Quanto tempo leva o processo de produção?

Depende do jogo. No caso do CSI foi algo como um mês, mas não é muito difícil que um jogo leve três vezes esse tempo.

7) Destaque as principais características dos newsgames que os tornam interessantes para um veículo de comunicação.

Os jogos transmitem conteúdo (como as revistas ou jornais) mas por meio de procedimentos (diferentemente de qualquer outra mídia). Eles são essencialmente educativos, ensinam as pessoas a fazerem alguma coisa. Então, já pela própria natureza dos jogos, eles trazem recursos que não estão normalmente disponíveis aos jornalistas, como envolver o leitor em um assunto, permitir a interação e a imersão e criar um modelo da realidade que se está descrevendo. Além disso, jogos estão hoje em todo lugar para todo tipo de pessoa. É uma forma de ampliar o apelo do jornalismo, levá-lo a novos públicos, usar novas linguagens e engajar o leitor de novas maneiras. É quase uma obrigação experimentar com essa mídia em um momento em que o modelo tradicional do jornalismo perde gradativamente a sua importância.

8. Pesquisas apontam que a imersão e a interatividade são dois elementos de grande importância no jogo. Esses pontos são levados em consideração nos newsgames da Super? De que forma?

Acredito que a interatividade é um pré-requisito dos jogos – um newsgame em que ninguém interage não existe. Dependendo do ponto de vista, até mesmo um texto pode ser bastante interativo. Já a imersão é mais um resultado de um jogo bem feito, da adequação da dificuldade da tarefa às habilidades do jogador. Para mim, os dois critérios essenciais para um newsgame são diversão e confiabilidade (ele não pode trazer elementos fantasiosos ou errados, da mesma forma como um infográfico ou um texto da revista não pode simplesmente mentir).

Eu assumi a área de internet da Abril em 2009. Antes disso, estava desenvolvendo ARGs e jogos publicitários para o Núcleo Jovem da Abril (do qual faziam parte Super, Capricho, Mundo Estranho, Guia do Estudante e Aventuras na História). Então, ao voltar para o lado editorial, a idéia de usar as mesmas ferramentas em jogos jornalísticos foi quase óbvia. Juntei alguns dos mesmos colaboradores que havia usado em ARGs anteriores e combinei com a redação da revista para que eles pensassem a matéria como um híbrido de revista e jogo. A partir daí, saí do processo e deixei para eles realizarem o que viria a ser o extremamente bem sucedido jogo do CSI.

Daniela Silva, jornalismo e transparência de dados públicos

Daniela Silva é jornalista, trabalha na Esfera, empresa que faz parte da Casa da Cultura Digital. Além deste vídeo, que fiz para uma aula com os alunos da pós-graduação da Universidade Metodista d

e Piracicaba (Unimep), a Daniela também deu uma entrevista para o projeto do jornalista Mateus Rodrigues. Foi uma conversa bastante longa, mas alguns trechos publicamos aqui:

Mateus: Daniela, conte um pouco sobre sua formação, tanto acadêmica quanto profissional.

Daniela: Eu sou jornalista. Fiz graduação em jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Trabalhei na Editora Abril, na Editora Moderna já um pouco mais afastada da área, trabalhando com conteúdo educacional. Fiz pouquíssimo, se fiz, trabalho com reportagem tradicional. Todos os veículos que eu trabalhei eram de internet, então eu já comecei trabalhando na web. Eu, na verdade, tive uma desilusão com jornalismo em algum momento bem no comecinho do curso e voltei a querer fazer jornalismo porque descobri a possibilidade de trabalhar com a internet. Descobri que tinha áreas onde era possível fazer alguma inovação. Eu sentia muita falta de trabalho criativo no jornalismo. Nunca imaginei que fosse ser assim, mas eu comecei a fazer e saquei que tinha essa coisa meio “fórmula”, meio “receita de bolo”.

Aí acabei indo estudar fora um tempo, fui estudar na Universidade do Texas, fazer um intercâmbio de um ano para dar uma pensada. E lá eu fui trabalhar no Knight Center, que é um centro de pesquisa em jornalismo na América Latina; é o Knight Center for the Journalism in the Americas, e fiz um curso de jornalismo multimídia. E aí minha cabeça explodiu: falei “é isso”, porque entendi que tinha ali um espaço de inovação e de formato. Mesmo assim ainda não fiquei investindo muito em jornalismo multimídia não. Não encontrei caminho pra isso quando cheguei no Brasil, lembro de ter conversado com alguns profissionais que me indicaram a empresa pública, por exemplo, a Agência Brasil, que na época estava fazendo muita inovação em multimídia, mas no mercado, pra estagiária, estava um pouco difícil em 2005, 2006.

Então acabei, na verdade, fazendo um pouco de jornalismo de internet normal, mas muito numa via já de criação de projetos. Então eu trabalhei no Universia, por exemplo. Lá eu fazia uns pacotes multimídias de passeios virtuais em museus; trabalhei na Abril, no Planeta Sustentável, trabalhei na criação do site, então trabalhei um pouquinho com arquitetura da informação, ajudava a coordenar a equipe de tecnologia que era externa ao site. Hoje eu trabalho com transparência pública e com dados públicos e formas de resignificar esses dados na Rede. Falo que eu sou jornalista porque eu confio numa extensão do sentido dessa palavra; eu acho que ser comunicador significa muito mais do que apenas ser repórter, mas tenho certeza de que eu não trabalho mais com reportagem tradicional, que eu sou uma jornalista tradicional. Não defendo nenhum corporativismo em volta desse termo, e eu acho que hoje meu papel de comunicadora é, na verdade, explorar e criar os caminhos para que mais pessoas possam se apropriar da comunicação como uma ferramenta de transformar as coisas.

Acho a profissão do jornalista em geral, pelo que eu escuto falar dos meus amigos, se aproximou muito da internet. Na época que eu estava na faculdade, eu acho que o pessoal tinha um pouco de birra e ranço – isso foi entre 2003 a 2007. Hoje, agora, eu acho que tem uma proximidade um pouco maior, tem uma ligação um pouco mais íntima no processo de fazer e eu acho que as pessoas, todas, em geral, estão mais próximas da tecnologia. Mas, na época, eu lembro claramente de ser uma das poucas que não me apavorava com aquilo, muito pelo contrário, eu achava que era o máximo e que a verdade estava ali em algum lugar.

Mateus: Você foi cofundadora da Esfera. Começou quando?

Daniela: A Esfera começou em outubro de 2009. Na verdade, ela começou um pouco antes, o planejamento dela começou em junho do mesmo ano, junho de 2009, mas acho que a primeira ação concreta que a gente realizou com ela foi em outubro de 2009, foi o primeiro Transparência Hack Day.

Eu estava pesquisando a transparência e a internet, como a transparência foi impactada pela internet, uma viagem que começou muito por essa forma de digitalização de governos. Então, eu estava querendo entender, por exemplo, experiências como a do SETI@home, experiências de grid computing, então várias pessoas montam um computador virtual que processa dados e eu pensava: “será que esses dados não vão ser muito mais nossos se começarmos a montar estruturas assim? Se, de repente, eles não estiverem parados nos servidores dos governos e estiverem sob controle real das pessoas, porque o digital permite isso. E meio que nessa piração, eu encontrei um movimento mundial consagrado já que estava se preocupando com essas questões, que era o movimento dos dados abertos, que acho que começa mais ou menos em 2007. Isso eu comecei a pesquisar em 2009 e ainda tinha muito pouca literatura sobre isso no Brasil. Tava ali, escrevendo uma pesquisa bem introdutória sobre possibilidades de abrir dados na Rede e possibilidades de reutilizá-los enquanto sociedade. Então, como a transparência se impacta com essas possibilidades novas abertas pelo digital e pela Rede. Tava pensando um pouco no fato de que tinha acabado de ser aprovada uma lei no Brasil, que é a Lei Capiberibe, uma extensão da lei de transparência que fala de dados orçamentários divulgados em tempo real na internet… Primeiro, eu pensava que ia ter uma enxurrada de dados de prefeituras e governos na internet e não ia poder servir pra nada, primeiro por causa do formato, que esses dados são divulgados que dificultam muito, tradicionalmente, a utilização deles.

E aí, em janeiro de 2009, eu e o Pedro Markun – que é meu sócio – começamos a desenhar o que ia ser a Esfera muito “perifericamente” ainda. Em outubro, a primeira ação da Esfera aconteceu, que foi o Transparência Hack Day. Antes disso ainda teve o clone do blog do Planalto, que foi na verdade o estopim de tudo. Foi uma brincadeira, foi uma ideia de fazer uma provocação para a internet, que tava reclamando e chorando porque o tal blog do Planalto não tinha comentário, mas tinha um monte de possibilidades de interação e a gente estava querendo mostrar que “olha, de repente a gente tem possibilidades de ação aqui que não são só verbais, que não é só falar, que não é só ‘expressar o nosso descontentamento’. Aqui tem uma possibilidade de criar debates em torno de como essas tecnologias funcionam”. Daí saiu o clone, do clone saiu uma mobilização política, de fato, em relação a esse tema. Então a gente conseguiu daqui, da Casa de Cultura Digital, onde eu estou, ter uma reposta do Planalto sobre uma decisão que, com certeza, eles passaram cinco meses pensando e articulando, se vai ter comentários ou não vai ter comentários. Sabia-se sim do impacto de opinião pública que isso poderia ter, mas essa discussão foi desmontada em quinze minutos de trabalho aqui na Casa de Cultura Digital, a ponto do Planalto ter que se manifestar e se manifestar em prol da liberdade na internet, falar que a internet é um espaço… é um terreno livre, que as pessoas podem fazer o que elas quiserem com a informação, como estava caracterizado no site por uma licença Creative Commons, que permitia quer isso fosse feito.

Mateus: A gente tá falando basicamente de dados governamentais e a gente falou muito de dados governamentais abertos. O que é isso? O que que define um dado governamental como aberto?

Daniela: Dado governamental aberto é aquele que vem a público com o compromisso de ser compartilhado pela sociedade, de ser apropriado pela sociedade. Essa, eu acho é a minha interpretação. Então, tem um texto que circula pela internet feito por sete ativistas do governo aberto em 2007, no fim de 2007, não é nada muito estruturado, são oito princípios que saíram dessa conversa que falam que os dados governamentais, para serem abertos tem que ser, por exemplo, primários. Então, me interessa menos relatório de governo já com a opinião do governo embutida ali, de certa forma já com recorte e mais dado do jeito que ele veio da fonte, mais próximo da fonte que ele puder estar. Fala-se, por exemplo, de formato aberto. Eu não devo ser obrigada a comprar ou adquirir nenhuma tecnologia para poder abrir esse dado. Então, isso acontece, por exemplo, quando você recebe um arquivo na sua mão que é .doc. Eu sou obrigada a comprar um software X, de uma tecnologia específica que abre esse arquivo, quando existem opções de você não ser obrigado a estar “ligado” a corporação nenhuma. A gente acha que (esse) é um princípio importante para o governo.

Fala-se dos dados serem legíveis por máquinas e não apenas legíveis por pessoas – e acho que essa é uma diferença central. A gente pensou em transparência como uma coisa que, por exemplo, seria mediada pela mídia. Por muito tempo, o Portal da Transparência do governo federal é um portal premiado. A gente tem um programa orçamentário de transparência no Brasil que é reconhecido pelo mundo e, de fato, com conquistas muito importantes. Mas, até muito pouco tempo, esse portal se preparava muito para ter essa intermediação da mídia. Então, não é que qualquer cidadão é capaz de entrar e acessar um milhão de planilhas e conseguir fazer essas análises, ele tá pronto para um jornalista interessado, que tem um tempo que normalmente não se tem na redação, de mergulhar nesse site, abrir planilha por planilha e conseguir fazer uma compreensão mais complexa das coisas que estão lá. Hoje, a gente espera que isso possa ser feito por um programa de computador. Então, um desenvolvedor consegue às vezes fazer um software que faz o que um jornalista faria em dois meses em cinco dias e com isso… Tem formas muito fáceis e ferramentas abertas na internet surgindo para fazer esse mesmo tipo de interpretação para leigos. Então, a gente pensa que cada vez mais essa multiplicidade de olhares vai vir não só de uma pequena mídia ali, que tinha especialização de fazer isso, mas de qualquer pessoa que tenha acesso a essas ferramentas, que a gente acredita que é algo exponencial, potencialmente maior a cada vez, porque mais gente tá sendo inserida nesse discurso e nessas possibilidades.

Mateus: você acha que o papel de trabalhar esses dados, interpretar esses dados, é um papel da sociedade em geral. Agora, (isso) muda o papel do jornalista?

Daniela: Acho que eu não queria dizer que muda a forma que o jornalista tem que encarar isso, porque para ser bastante sincera, acho que isso devia ter mudado faz muito tempo [risos]. Acho que não é a questão dos dados que tem que mudar a forma como o jornalista “funciona”, acho que o jornalismo não está funcionando muito bem na forma como ele se configura hoje. O que eu acho que acontece, na verdade, é que hoje você tem meios para ficar mais próximo daquilo, que é essa a proposta que tem o jornalismo, de criar olhares sobre fatos e apurar o que acontece no mundo e passar para as pessoas o que acontece no mundo; você tem hoje mais ferramentas para isso, de um jeito muito mais completo e mais interessante e mais próximo da objetividade. E eu acho que isso é o que você tem que buscar desde o começo. Então, se por um lado, o jeito bom de fazer isso antes era conversar com múltiplas fontes, que podem te passar olhares diferentes com muito mais facilidade do que com uma fonte só; se isso era o caminho, hoje você tem essa massa de dados gigantesca que pode, na verdade, fazer a mesma coisa. Então assim, quando vem um release de governo na sua mão, eu sempre acho que seria muito mais interessante que, ao invés de um release, você tivesse dados brutos sobre as políticas. Pouco me interessa saber das políticas com uma narrativa já marcada pelo governo, porque a gente sabe que é um mundo de interesses.

Acho interessante e ótimo que todo mundo tenha a oportunidade de se comunicar contando a sua versão da história de acordo com seu entorno de interesses próprios, não acho que isso é um problema. Mas, pra quem é jornalista, na hora de você contar a história toda, quanto mais próximo você estiver do fato real, melhor. E eu acho que, nessa quantidade de dados gigantesca que vem de governos – que ainda não vem, mas que virá sim – eu acho que potencialmente, dessa transição para entender a política como uma coisa mais próxima do digital, tá ali a possibilidade de reprocessar as narrativas, entendeu? De saber “olha, então… de fato, o que está acontecendo na segurança?”. Então, tem uma história ótima, por exemplo, da Secretaria de Segurança do Rio Grande do Sul. Segurança é um tema que é atacado pela mídia a todo o momento, porque interessa muito pouco o dado complexo da segurança, interessa o caso sangrento, né? E mesmo que não seja o sangrento, mas assim, os casos de violência; “morreram ‘tantas’ pessoas”, “morreram ‘x’ pessoas”, “morreram mais quinze pessoas em ‘tal’ lugar”; toda essa informação é um pouco compartimentada. A secretaria de segurança pública do rio grande do sul publica dados abertos sobre ocorrências de crime. E publicando dados abertos, eles conseguiram implacar matérias na mídia que falam que a situação melhorou na segurança, porque finalmente tinha ali… tem áreas que aumentou, tem áreas que diminuiu, mas você conseguia entender ali, no contexto que a questão de segurança pública estava avançando e não se retraindo. Então, depois de uma série de manchetes negativas, finalmente alguém olha para o dado complexo e consegue fazer um cenário melhor e entender: “olha, de fato, aqui no total a situação está melhor”. Isso, a verdade, é a história que a gente leva para o governo para incentivar que eles abram os seus dados, né? Tem muita gente não interessada nisso, tem muita gente que se preocupa em como isso pode desestabilizar o jeito como a política funciona, com como isso desmonta um pouco o centro de poder. Mas tem muita gente que tem muito interesse nessa história, de de fato poder influenciar um discurso público mais fundamentado nas coisas que realmente aconteceram, mais fundamentado nas informações brutas sobre as políticas, e não apenas nos olhares. E acho que é mais ou menos por aí que a função do jornalista tem que se reconfigurar no meio dessa história.

Mateus: Aqui no Brasil, a gente tem determinados níveis de dados que são disponibilizados. No caso da Suécia, por exemplo, em que – se não me engano – as leis de transparência são de antes do século XIX; e eles tem o conteúdo de comunicações, por exemplo, entre os parlamentares (que) são abertos. O que tem que ser aberto e o que tem que ser fechado?

Daniela: Achei interessante, porque você começou falando sobre o caso da Suécia, você falou das leis de transparência da Suécia serem muito antigas. Você já está falando de lei de transparência falando de lei de acesso à informação. A gente vem de um histórico, aqui no Brasil, de entender lei de transparência como lei de responsabilidade fiscal, lei de transparência orçamentária. Não estamos tratando apenas de dados de orçamento, que dados de processos são importantes; eu diria mais importantes. Então, eu me preocupo menos com ter dados disponíveis para fazer controle social e mais dados disponíveis para fazer participação política. Então, me interessa bastante, por exemplo, saber dados da saúde, dados da educação, dados de serviço público; porque dessa forma eu posso não apenas fiscalizar como esse serviço funciona, mas atuar de um jeito mais estratégico enquanto cidadão, por exemplo.

Então, um caso que a gente sempre cita é os dados do Serviço de Atendimento ao Cidadão, da cidade de São Paulo, por exemplo – e esse serviço tem o mesmo nome em vários lugares. O que acontece: se eu sei que tem alguém que já reclamou pra poder a mesma árvore da minha rua, de repente eu… eu poderia ter um sistema – construído pela sociedade, nem é papel de governo isso… Se eu sei que tem alguém que já reclamou, eu poderia de repente só reforçar esse pedido e não criar cinco mil pedidos diferentes para podar a mesma árvore, porque isso atrapalha a gestão. Então, a gente tá falando de uma forma também de compartilhar certas responsabilidades na hora de fazer a gestão pública acontecer, principalmente nos problemas de gestão que são claramente informacionais – esse é um deles. Então, a gente já conversou com os gestores aqui em São Paulo e sabe, por exemplo, que o sistema do Serviço de Atendimento ao Cidadão não reconhece redundância; então, o mesmo buraco da rua: se eu reclamar, você reclamar, ele reclamar, vai ter três reclamações ali; isso é um problema. Isso é um problema porque o subprefeito não sabe quantos buracos fechar e quantas árvores podar todos os dias. Então, como você vai gerir uma cidade numa situação como essa? Então, isso eu acho que é uma coisa que tem que ser dita.

Fora isso, é importante dizer que a nossa briga do momento não é para abrir nada que não seja público. A gente tá falando do caráter público das informações e eu acho que a gente tem que virar um pouco a chave: não é o que tem que ser aberto, é o que não pode ser aberto e isso tem a ver com a segurança do cidadão. Quanto à segurança do Estado, em sistemas democráticos, a situação de segurança nacional tem que ser exceção. E é uma exceção muito bem justificada e ela é muito mínima no jeito que o sistema funciona. Porque a democracia é o governo das pessoas, a gente tem que ter noção do que está acontecendo em relação àquela representação que a gente escolheu. Para mim, quase não existe desculpa. Casos, por exemplo, de relação internacional e soberania de países, ainda assim eu acho que é muito relativo.

Eu participei de uma discussão semana passada e alguém me apresentou o fato de que, quando o Wikileaks abriu informações de Estado do governo norte-americano, isso podia ter causado um genocídio. Se você tivesse uma informação sobre genocídio, se fosse do governo, na sua mão, você acha que isso deveria ser publicado? Eu não sei se informações que podem causar um genocídio estão seguras na mão do governo americano. A gente já viu isso no passado. Eu ainda acho que isso estar exposto para controle da sociedade, se você tem um alerta na sociedade, se você sabe que tem uma população a ser massacrada numa região do globo, eu prefiro isso sob controle social do que sobre controle de governo, de uma forma que isso pode ser usada como moeda política a qualquer momento. Assim, a responsabilidade é gigantesca de se portar dessa forma, porque a gente vai ter que ficar de olho; só que, ao mesmo tempo, eu não acho que é uma responsabilidade que dá pra terceirizar, porque historicamente terceirizar não resolveu. Então sim, eu acho que mesmo as informações sobre genocídios tinham que vir a público.

Mateus: Como o jornalista precisa se preparar para efetivamente trabalhar bem e tirar uma informação efetiva de dados públicos?

Daniela: Acho que o jornalista tem sim que se preocupar com isso de um jeito especial, no momento. Isso não mora na formação tradicional do jornalista, não acho que pode morar. Eu acho que é muito importante, se você é jornalista, que você entenda a informação como matéria-prima do seu trabalho; você tem que estar na Rede, você tem que estar na internet, não interessa se é TV, não interessa se é jornal, se é internet. Você tem que estar atuando na rede ativamente, você tem que entender quais são as ferramentas, quais são as possibilidades. E acho que é daí que vai vir o conhecimento de como retrabalhar todas essas informações, muito mais do que poderia vir da faculdade, muito mais do que poderia vir do mercado, acho que vai vir da vivência na Rede, da vivência nas comunidades, na vivência nas listas; o aprendizado e a capacidade mesmo de fazer.

Eu tenho um exemplo: tem uma organização norte-americana que chama ProPublica que muito recentemente lançou um grande trabalho com os dados que as empresas farmacêuticas norte-americanas foram obrigadas a liberar por meio do Ato de Acesso à Informação a respeito de médicos com quem elas tem contrato. Então, contrata ali aquele médico como consultor e começou a se desconfiar que isso dirigia as prescrições, então favorecimentos à indústria farmacêutica. A ProPublica conseguiu montar uma grande base de dados onde informações de diferentes formatos… É claro, as indústrias vieram à internet e publicaram isso na internet num formato infernal, quase tudo PDF e tem até aplicativo em Flash… Não podia estar mais fechado para você conseguir descobrir quais são os médicos para os quais aquela empresa manda dinheiro. A ProPublica fez um trabalho de jornalista, tipo, eles são jornalistas, eles entendem isso como uma função do jornalismo, de tirar os dados desses diferentes formatos, montar uma base em que você digita o nome do médico e sabe de que empresa farmacêutica ele está recebendo dinheiro, por que serviço. Então, o contrato tá ali, tá numa base muito útil para a sociedade. Isso é papel, pra mim, de mídia de jornalismo sim; também de um monte de gente, porque hoje acho que a gente tem que extender um pouco esses limites. Esse limite não é corporativo, esse limite é o limite de quem decidiu trabalhar com informação.

Eles fizeram um super tutorial, muito interessante, que é quase um backstage do projeto. Tá ali, é uma fonte excelentíssima para quem quer aprender a tirar dados de PDF e transformar isso em informação concreta na Rede. E eles fazem pra leigo, né? Então, tá escrito: “sou um jornalista, sentei no computador. Como eu resolvo isso? Quais são as ferramentas abertas da Rede que eu posso usar, gratuitas e não gratuitas? Então, se você usar isso aqui, você pode obter esse resultado; se você usar isso, pode conseguir esse.” Tem ali um passo a passo. Eu não sou desenvolvedora. Eu não sei escrever código. Eu trabalho com todas essas questões do lado da comunicação e sei que não é fácil. Tenho um monte de dificuldade para aprender um monte de coisas. Mas hoje eu me sinto minimamente empoderada em relação ao meio. O que eu não sei fazer, eu sei onde eu posso perguntar, eu sei que eu posso trazer para trabalhar junto comigo. Acredito muito na interdisciplinariedade dos dois mundos. Acho que não é trazer desenvolvedor para a redação para ficar desenvolvedores e jornalistas, acho que isso funciona muito pouco.

Mas, às vezes, ter uma “mini-célula terrorista” de um monte de jornalista que é meio “tech-savy”, que gosta de internet com desenvolvedores e começar a criar uma cultura de fazer projetos mais bacanas, de inspirar a redação por meo disso, pode ser um caminho legal. Tem redações do mundo que fizeram isso e que tá dando super certo.

Mas, às vezes, ter uma “mini-célula terrorista” de um monte de jornalista que é meio “tech-savy”, que gosta de internet com desenvolvedores e começar a criar uma cultura de fazer projetos mais bacanas, de inspirar a redação por meo disso, pode ser um caminho legal. Tem redações do mundo que fizeram isso e que tá dando super certo. E, ao mesmo tempo, acho que os próprios repórteres fazerem o papel deles de descobrir essas novas ferramentas.

Entrevista com Paulo Fehlauer, Garapa.org


Paulo Fehlauer é jornalista. Mas também

é fotógrafo, arrisca como programador de HTML e CSS e é um dos três fundadores da Garapa, produtora multimídia que já é reconhecida dentro e fora do Brasil pelos trabalhos de qualidade. Leo Caobelli e Rodrigo Marcondes são os outros jornalistas da Garapa que, como alguns casos talvez cada vez mais frequentes neste século novo, resolveram demitir seus chefes para tentar criar seu próprio emprego, buscando realizar coisas incríveis. E lançaram agora um projeto para financiamento via crowdfunding, pela plataforma Catarse.me.

Esta entrevista é parte de um projeto de mestrado, que é uma espécie de categorização de novas funções que jornalistas que estão na ponta do processo produtivo realizam. Tarefas que fazem de maneira conjunta, às vezes até sobrepostas, sem medo de tatear o novo. Ele respondeu esse mini-questionário durante o vôo que o levava para Belém, e publico aqui as respostas todas:

Você se considera um jornalista multimídia?

Pergunta difícil. Multimídia cada vez mais, jornalista talvez cada vez menos, a não ser que a definição do termo seja ampliada. Nosso trabalho tem uma base documental muito forte, mas que hoje se aproxima mais do mundo das artes visuais do que do jornalismo propriamente dito. Assim, o vínculo com a “assim chamada realidade” vai ficando cada vez mais sutil. Então ou questionamos as fronteiras do jornalismo ou nos distanciamos dele.

Como chamaria a função que desempenha hoje?
Talvez um produtor multimídia, ou um criador multimídia.

Quais atividades você realiza?
Nosso foco está em projetos com base audiovisual. Então vou da concepção à realização do projeto, trabalhando em praticamente todas as etapas: concepção, redação, fotografia, edição, video, web, distribuição. Se, em determinado projeto, não realizo alguma etapa com as próprias mãos, trabalho na orientação dessa execução.

Como é sua rotina? Quais funções específicas?
A rotina é a não-rotina. Dentro da Garapa, dividimos algumas tarefas administrativas entre os sócios e funcionários. Na minha mão ficam a contabilidade e a comunicação externa, por exemplo. Fora isso, as funções vão depender dos projetos, mas geralmente acabamos participando de todas as funções pertinentes a um trabalho.

O que cabe a você – e o que cabe ao repórter, como padrão – nas reportagens multimídia que você realizou?

Geralmente, cabem a mim as etapas da produção audiovisual – concepção visual, captação e edição de foto, áudio e video. Quando há a figura de um repórter propriamente dito, ele costuma se encarregar da concepção narrativa, pesquisa, entrevista e redação. Mas, mais uma vez, todas essas tarefas podem se confundir na execução de uma reportagem desse tipo.

Que treinamento ou quais cursos seria preciso ter para realizar o que você faz?
Eu praticamente não fiz cursos, além da graduação em jornalismo; fui aprendendo com a prática e as necessidades que surgiam. Mas o treinamento pode encurtar esse processo, tanto do lado técnico quanto na parte mais conceitual. Entre as disciplinas técnicas, eu sugeriria um treinamento básico em webdesign, arquitetura da informação e edição de vídeo. No entanto, cada vez mais tendo a questionar a figura do “homem-banda”, por perceber que o resultado de um projeto dessa linha costuma ser muito superior quando é realizado por uma equipe de profissionais qualificados em suas respectivas áreas. O treinamento técnico, assim, deve ter como objetivo familiarizar o profissional com as ferramentas e com as especificidades de cada linguagem. É o que buscamos, por exemplo, nas oficinas “Experiência Multimídia”, que realizamos pelo Brasil em 2010.

Em relação ao “treinamento” conceitual, acredito que o maior desafio colocado aos interessados nessa atividade seja a estruturação de uma narrativa ao mesmo tempo não-linear, interativa, coesa e que não seja redundante. Na web é muito fácil colocar tudo, todas as linguagens, juntos na mesma página, mas isso por si só não cria necessariamente uma narrativa interessante. Ou seja, o desafio é o mesmo desde a Bíblia, só muda a plataforma.

Como você chamaria esse (s) curso (s) ou esse treinamento?

Narrativa hipermídia, talvez. Ou Hipernarrativa. Ou mesmo “Como Dante escreveria A Divina Comédia nos dias de hoje?”, hehe.

Quais atividades você desenvolve hoje, que no início da década de 90 não existiam no jornalismo? Como você as denomina?

Várias atividades, de certa forma, já existiam: captação e edição de vídeo, áudio, foto, por exemplo, mas nunca aconteciam na mesma mesa e destinadas ao mesmo aparelho. Outras são realmente novas, como essa estruturação prévia da narrativa considerando diferentes linguagens e possibilidades. Em todo projeto multimídia do qual participei, uma das principais etapas foi definir qual papel seria cumprido por cada um dos formatos, e como integrá-los de forma a criar uma narrativa coesa e interessante.Outra característica importante desse momento de estruturação é o planejamento das possíveis formas de participação do público, seja por meio de uma simples caixa de comentários ou até da construção colaborativa da narrativa. A tudo isso eu chamaria, talvez, uma “Arquitetura da narrativa”, que deve ser pensada antes e durante a execução do projeto.

Você acha que essas são agora atividades básicas do jornalismo?

Não necessariamente, porque são mais específicas do meio online, mas eu diria que o conhecimento dessas possibilidades e especificidades deve fazer parte do repertório de todo jornalista.

Quais são os pré-requisitos para um bom jornalista hoje em dia?

Em geral, tendo a pensar que as premissas do bom jornalismo se mantêm, independentemente das mudanças de formato. No entanto, justamente por ter me afastado do jornalismo propriamente dito, começo a questionar também tais premissas. Por exemplo, se trabalhamos desde a primeira aula da graduação conscientes da inexistência da objetividade, por que não assumir então a possibilidade (e o valor) da subjetividade? A pergunta talvez soe ingênua, mas considerando que boa parte das informações que recebemos hoje já vem filtrada mais por grupos de interesse (Facebook, Twitter etc.) do que por editores sentados em suas redações, me parece que o caminho da subjetividade é quase uma realidade. Bom, divaguei, rs.

E para trabalhar no jornalismo online? Algum pré-requisito diferente?

O mais importante é entender, ou buscar entender, as dinâmicas da rede – não-linearidade, multilateralidade, capilaridade, multimídia etc. Para isso, é necessário mais disposição do que conhecimentos técnicos, já que o próprio conhecimento técnico está amplamente disponível na web.

Entrevista: Equipe do estadao.com.br comenta o ouro inédito no Malofiej 2011

Na semana passada a equipe do estadao.com.br conseguiu um feito inédito na América Latina: ganhar viagra tablets

m” target=”_blank”>uma medalha de ouro no Malofiej 2011, que premia as melhores infografias do mundo. Além de levar este ouro, a equipe ainda conseguiu uma prata, levando duas medalhas pelos seus três trabalhos inscritos na premiação. Abaixo, uma pequena entrevista com Carlos T. Lemos e Daniel Lima da equipe de infografias do estadao.com.br.

Como foram feitas as pautas?

Daniel Lima – No caso do dinossauro, era uma apuração de mais de um ano do repórter Herton Escobar que também já vinha sendo trabalhada pela arte do impresso, aos poucos, ao longo de meses. Entramos na conversa em torno de um mês antes da publicação e discutimos o que ficaria interessante de migrar para o online de forma interessante.

No caso dos jogadores da Copa, tive a ideia da pauta no final de 2009. Pensei: não é só o Brasil que deve ter boa parte de seus jogadores de seleção jogando fora do país. Como será nos outros lugares? Inicialmente imaginei algo mais “clássico”, digamos, a partir de mapa etc. Mas o volume de dados tornaria isso muito difícil. Daí, discutindo com o Carlão, fomos desenvolvendo esse formato de visualização de dados.

Carlos T. Lemos – Foi uma investigação feita pelo pessoal do jornal (detalhes podem me fugir, até porque esse processo foi feito mais no boca a boca, então não tenho nenhum e-mail sobre o processo). Era um uma reportagem do Herton Escobar, e ele acompanhou a pesquisa por quase dois anos (http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/cabeca-dinossauro/). Eu tinha acabado de retornar de férias e estava certo que faríamos uma adaptação do caderno especial que planejavam no impresso.

Originalmente a história da descoberta do fóssil seria publicada no online, mas era uma história difícil de apurar. Tinha um lance com um procurador entrengando uma intimação por crime de assassinato, e viu que o acusado tinha um osso enorme na sala. Era alguma coisa assim, mas acabou caindo.

As ilustrações partiram do impresso ou foi produção online?

Daniel Lima – Todas as ilustrações do info dos Dinos partiram do impresso. Mas o design e produção da interatividade partiu do online, o que criou uma camada adicional de informação (como o raio-x e a ferramenta de comparação de tamanhos dos dinos). O info em si, também premiado na versão impressa, ganhou bastante com esse desenvolvimento específico para a web.

Carlos T. Lemos РAs ilustra̵̤es partiram do impresso. O processo incluiu a contrata̤̣o de um paleoartista (Leandro Sanches) para trabalhar com um ilustrador da casa (Farrel).

O material saiu no jornal antes ou foi discutido em conjunto com a equipe do impresso?

Daniel Lima РFoi discutido em conjunto e saiu simultaneamente com o impresso. O das sele̵̤es foi 100% online. Estudou-se uma adapta̤̣o posterior para o impresso, mas ela acabou ṇo ocorrendo.

Carlos T. Lemos – O material saiu quase ao mesmo tempo. Na verdade o infográfico foi publicado a meia-noite (0h03) do dia que saiu o jornal, então saiu um pouco antes. Ele foi amplamente discutido por ambas as equipes (a editora de arte do online é a Gabriela Allegro), e o tempo todo o Glauco Lara (que fez a edição e a pesquisa do info no impresso), Rubens Paiva e William Marioto (coordenadores de arte do impresso) participaram das discussões e da evolução do projeto online.

O grande objetivo era que ele tivesse vida própria, fazê-lo tão relevante online quanto o que saíria no impresso.

Vocês apostavam mais nesta ou achavam que a das seleções tinha mais chance?

Daniel Lima – Eu pessoalmente apostava mais no das Seleções pelo simples fato de que ele, até onde pude saber, teve mais repercussão internacional, tanto em blogs quanto no twitter. Encontramos menções em japonês, inglês, espanhol, russo etc. Por isso imaginei que o apelo dele fosse mais universal e, por isso, tivesse mais chances. Mas sabíamos que ambos os trabalhos tinham qualidade.

Carlos T. Lemos – Sinceramente, acho as ilustrações e a reportagem incríveis, mas era um info de ciência e achei que a competição era muito dura. Apesar de nunca ter participado da competição e não ter ideia dos critérios de julgamento, o pessoal do NYT e da NatGeo tem muita coisa boa, além dos recursos tecnológicos. Achei que era digno de prêmio (tanto que inscrevemos), mas não achava que era ouro.

O info das seleções rodou o mundo, fez parte de muitos tópicos de discussão internacionais. Era visualização de dados e de um assunto muito simples. Dava pra entender mesmo sem falar português. Na minha cabeça era o que tínhamos de melhor na competição. Mas foi um assunto que todos os jornais deram e acho que, no fim das contas, o que fizemos foi apresentar o assunto melhor que os outros. Isso sem falar que a categoria “reportagem de esportes” foi toda dominada pelo NYT. Ganhou prata pelo design, e foi o prêmio mais alto dado a esta categoria.

No fim das contas, o resultado me surpreendeu positivamente, pois venceu a notícia como um todo.

Foi inscrito algum outro trabalho de vocês?

Carlos T. Lemos – Outros 3:
O Brasil nas Copas, jogo a jogo
Mapa da votação para presidente nos municípios (A versão impressa desse levou bronze, mas também foi um trabalho de sinergia)
A população e as capitais dos Estados


Qual foi o tempo de execução e o papel de cada um no desenvolvimento de cada uma dessas infografias?

Daniel Lima – No info dos Dinos, apenas ajudei a fazer a ponte com o impresso e sugerir formas de aproveitar o material. No das seleções, pautei e apurei. A concepção foi trabalho conjunto com o Carlão, que cuidou da trabalhosa programação. Em relação ao prazo: é uma pergunta difícil. Em ambos os casos, por serem trabalhos extensos, dividimos atenção com outras demandas do dia e das outras editorias. O trabalho, então, nunca é exclusivo.

Carlos T. Lemos – “Os 736…” foram duas semanas. Meu trabalho foi fazer a arte e o programação. Mas acho que dizer assim é meio simplista. O processo criativo visual foi todo discutido em conjunto, e chegamos a várias conclusões juntos. A ideia inicial do info é do próprio Lima. O resultado visual final pode sair da minha mão, mas o processo conceitual e visual não é exclusivo meu. O mesmo vale para o Tapuiassauro (2 semanas no online, alguns meses no impresso).

Dito isto vale lembrar que uma série de pessoas ajudaram no processo. Nossa editora (Gabriela Allegro) também faz parte do processo intelectual de todos os infos. Existiam restrições técnicas que ela foi até as últimas para derrubar e tornar possível a realização.

A equipe de arte do estadao.com.br hoje conta (além de mim e do Lima) com 2 programadores/webmasters (Ricardo Periago e Éder Freire), 2 designers (Cyntia Ueda, Renata Aguiar), 1 ilustrador (Pedro Bottino) e mais 2 jornalistas (Bia Rodrigues e Camila Matos).

MAIS: Veja os medalhistas de ouro do Malofiej 2011