Crise nas redes sociais – caso Revista Pais & Filhos

Gestão de crises nas redes sociais tem sido um assunto cada vez mais discutido em faculdades, mas pouco pensado ainda em muitas empresas, que não sabem muito bem como lidar com problemas que tomam, às vezes, proporções bem grandes, e que podem ficar maiores com ações equivocadas.

O caso da revista Pais & Filhos é interessante porque demostra bem isso: crise gerada, resposta pouco convincente (apesar de rápida, para os padrões jornalísticos), e a rede segue furiosa, com razão.

A crise tem início com a publicação de um post num dos blogs da revista, feito pela roteirista da Globo Mariana Reade, numa defesa do leite em pó em vez do leite materno. Ao lado do post, o banner com o patrocínio da Danone, numa oferta de leite em pó. Difícil provar que foi um caso de post pago, mas as evidências – e a defesa tão enfática e cheia de problemas factuais, pra não dizer mentiras – fizeram com que diversas mães se revoltassem contra o post, a revista, a autora, a marca que anuncia na revista. Não faltou pra ninguém.

Alguns trechos do post original (apagado pela revista), para uma breve noção da barbaridade. Antes, um contexto: o blog é uma espécie de “olha quem está falando”, em que o bebê compartilha seus pensamentos. Muito original, se estivéssemos nos anos 80, mas isso não vem ao caso. Aos fatos:

O problema é o de sempre: minha mãe não me ouve. Ela fica achando que eu tô chorando de cólica, e eu tô chorando de fome! Cólica é uma coisa que eles dizem para todos os problemas que a gente tem.

(…) Tô dizendo isso porque aqui onde nasci, no Brasil, está super na moda amamentar! Então a maravilhosa invenção do leite em pó anda malvista… E nem passa pela cabeça da minha mãe – que, infelizmente, se influencia pelo o que pensa a maioria – que eu seria muito mais feliz se ganhasse, depois do peito, um pouquinho de leite em pó.

Tem uma senhora muito simpática que vem quase todo dia aqui em casa. (…) De vez em quando, ela fala para alguém: “Ah, se a mãe dela saísse um pouquinho, eu bem que dava uma mamadeira bem grande, aposto que esse bebê está chorando de fome”. A Maria, que não liga pra moda, tem boa intuição. Mas nada da minha mamãe sair de casa…

A revolta na rede foi instantânea. Mais de 3.500 comentários no post – via facebook, porque os comentários só são permitidos via facebook. O que é bom para divulgar a conversa na rede, é péssimo quando se trata de uma crise – especialmente se não houver disposição para entrar na rede e ouvir.


Diversos sites importantes no nicho de mercado da revista fizeram posts detonando, o que ajudou a espalhar ainda mais a revolta.

Mulher que corre com os Lobos

Vila Mamífera (que propõe boicote e denúncia ao CONAR)

O jornal A Tarde, que publica no UOL.

 

A revista fez um erramos, e publicou no slide principal de sua home. Dentro do próprio blog, apagou o post e não há vestígios – um problema, porque quem leu ali leu, e jamais saberá (se não for pra homepage) que leu informação equivocada.

 

A própria Danone publicou uma nota, afirmando não ter sido um post pago, lamentando as opiniões da blogueira e o vínculo com a marca que ocorreu. Poderia exigir não aparecer mais na página da blogueira, se não quisesse retirar todo o patrocínio – essa sim uma ação que seria muito bem vista na comunidade toda. Não existem outras opções no mercado para anunciar para este público, será?

A blogueira publicou no Facebook da revista também uma espécie de retratação. Deveria ter feito um post no próprio canal de comunicação que comanda. Vejam a retratação:

NOTA DA AUTORA:

Caros leitores,
Peço desculpas para quem ficou ofendido, não era de forma alguma uma crítica a amamentação.
Queria explicar que sou totalmente a favor da amamentação, e amamentei durante um ano e meio.

Queria também explicar que a MARGARIDA é uma personagem de ficção, e o que ela estava falando sobre MODA era só uma maneira de criticar a mãe, que justamente por querer tanto amamentar, não queria dar o complemento.

Iinfelizmente tive que dar complemento, apesar de ter ficado muito triste com isso, porque ela continuava com o mesmo peso depois de um mês. Fui em três pediatras e os três recomendaram assim, complemento depois do peito.

A maneira de escrever expressa o ponto de vista de uma bebê, que não sabia porque a mãe não dava leite em pó, já que o leite do peito era pouco. Era isso o que a Margarida queria dizer: por que a mãe – que não tinha leite suficiente – não lhe dava complemento?

De fato é muito frustrante e difícil ter que dar complemento, e a Margarida estava relativizando isso.
E ainda, depois de alguns meses dando complemento, sempre DEPOIS de amamentar, o leite aumentou e pude parar com o complemento, o que foi uma grande felicidade.

Novamente peço desculpas, não era mesmo uma crítica a amamentação, apenas um consolo às mães que de fato precisam dar complemento.

 

Na aula de gestão de crises em redes sociais que a professora Beatriz Polivanov compartilhou comigo, ela pontua algumas ações possíveis, abaixo. Quais outras poderiam ser feitas? Alguma sugestão?

 

COMO RESOLVER?

Algumas ações possíveis (veja mais detalhes aqui)

  1. Peça desculpas e resolva o problema;
  2. Não apague os comentários negativos!
  3. Determine quem merece resposta (se não for possível responder a todos, procure pelo menos os hubs e autoridades);
  4. Pense e atue rápido;
  5. Seja humano(a).

Aliás, saiba sempre o que dizem sobre sua marca por aí (faça monitoramento).

 

Mídia Gaysha

Relato Bafônico da GAYSHA @Paulinho inn Fluxus do @TANQ_ Rosa CHOQ_. Acompanhe as cenas dos próximos capítulos:

“Bafoh !

Mal sabe a imprensa, o quanto os membros da Mídia GAYSHA foram essenciais para a construção do que veio a ser a Mídia NINJA.

O Tanq_ ROSA Choq_ que se soma nessa abertura GAYSHA de experimentação autônoma de linguagem, esteve presente em 2011 na organização da Marcha da Liberdade. Articulou junto da comissão de comunicação a primeira transmissão ao vivo de dentro das manifestações no Brasil. Realizada com uma mala de streamming. Que depois veio gerar a Pós TV.

Ao longo de 2012/2013 dentro do movimento ‘Existe Amor em SP’ do qual o TANQ_ faz parte, foi articulado a Midia NINJA, como uma abertura de comunicação pra fazer a cobertura das intervenções e movimentos das ruas. O TANQ_ ofereceu o seu chassi de carrinho de supermercado e sua tecnologia, para que saíssem dos estúdios e se soltassem dos cabos.

1.a matéria do Estadão sobre os NINJAs diz “Até fevereiro deste ano, as transmissões fora do estúdio ou de um espaço para shows tinham mobilidade limitada. Eles se muniam de cabos de até 300 metros para conectar as câmeras à internet e tinham de se restringir a esse raio de ação. Foi durante o carnaval que, em conjunto com o coletivo Tanque Rosa Choque, da USP, criaram seu caminhão link. A ideia era construir um minitrio elétrico para animar os blocos de carnaval que inundaram os quarteirões de diferentes regiões da cidade. Em um carrinho de supermercado, reuniram duas caixas de som, um gerador, uma mesa de som e laptops. ”

Durante todas as conversas com os membros do FdE, sempre se afirmou que o NINJA era muito mais do Existe Amor em SP do que do FdE. Sempre. Que fazia parte da pós-marca do FdE, enquanto encubadora. Que o NINJA tinha autonomia.

Eis minha surpresa ao ver que haviam decidido que Pablo Capilé iria representando o FdE ao se discutir a Mídia NINJA no Roda Viva. Ao invés de deixar a cria explodir em seu potencial, livre e com autonomia. Focando no debate em relação à democratização do jornalismo. Percebeu-se a grande oportunidade de colar a marca do FdE, nesta exposição midiática positiva que o NINJA havia gerado. O oportunismo de adequar o discurso com a situação dessa vez afirmou que o FdE havia criado o NINJA. Não sou e nunca fui do FdE e corroborei nessa iniciativa pelo potêncial que cabe e se expressa nela. Nem se falou do Existe Amor em SP, pois já não interessava mais, como viemos a ver mais a frente.

A proposta da base móvel de dispáros e captação estéticos, foi formulada por escrito, inicialmente em 2010 em matéria de Multimídia e Intermídia na USP. Foi primeiramente implementada na apresentação Pixel Pixo no MIS em 2010, organizada com Pedro Paulo Rocha. Com projeções ao vivo na tela do cinema, vinda das transmissões e intervenções diretas de luz, vindas da rua com TANQ_, sendo mixadas ao vivo em som e imagem.

Nossa batalha no TANQ_ sempre foi e sempre será de apoio a liberdade e autonomia do movimento pelo movimento. De realmenta abrir compartilhar os códigos. Ir além da autoria e da marca. Por isso lançamos a Mídia GAYSHA, assim como apoiamos a formação de outras Mídias LIVRES, como a Mídia NINJA, como a Mídia Negra, e muitas outras que virão e precisam ter espaço pra isso.

Discutir o Fora do Eixo pelo sucesso e a recente construção da Mídia NINJA me parece um equivoco. Muito mais perspectivas virão.

Mas estamos aí e não vamos aceitar intimidações. Que a Midia Livre honre o seu nome e que a liberdade e a descentralização da rede não sofram perigo de um centro querer ditar caminhos do que realmente pode ser uma experiência livre. Que se abram novas fissuras de linguagem e experimentação nessa relação corpo_mídia_rede_rua_movimento. Nossa estréia na Mídia GAYSHA já deu o que falar. E ainda dará muito mais.

Acompanhem os próximos capitulos dos dispáros estéticos da www.facebook.com/MídiaGAYSHA .
Não basta só o relato. Tem que arrasar !

‪#‎ALOKA‬

‪#‎foraChuchu‬ ‪#‎midiaGAYSHA‬ ‪#‎midiaNINJA‬ ‪#‎TANQ_‬ ‪#‎rosachoque‬ ‪#‎ExisteAmoremSP‬ ‪#‎FdE‬ ‪#‎ForadoEixo‬

para ler a matéria do Estadão: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,no-meio-do-redemunho,1050880,0.htm

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/08/1326816-midia-gaysha-quer-ser-uma-alternativa-aos-ninjas.shtml

O trem do samba

Lá vem o Fred di Giacomo e a turma da Superinteressante com novidades. Dessa vez, uma infografia gigante em HTML5 sobre a história do samba. Nada menos que onze (11) pessoas assinam essa info. Queria saber o que cada um fez, e logo mais o Fred conta, com certeza.

Criaram uma espécie de mapa do metrô, com cruzamentos entre estilos, por onde se pode assitir vídeos do You Tube com exemplos das músicas citadas.

O trabalho é incrível, sem dúvida. É possível realizar uma navegação livre, numa narrativa multi-linear, ou seguir a linha cronológica e ver a evolução do samba através do tempo. Aqui faço um pequeno reparo, que é difícil entender em que parte do mapa estamos com o deslocamento da tela. Talvez algum destaque na “bolinha” da “estação do metrô” pudesse ajudar.

Pouca gente está investindo em infografias e narrativas diferenciadas para a web no Brasil. A equipe do Fred se mantém como caso raro, apresentando grandes trabalhos.

Vale acompanhar o blog sobre Newsgames que eles mantém também.

Abaixo, pra se ter uma ideia da pesquisa feita, as fontes que eles usaram para essa infografia:

Livros:

CASTRO, Ruy. “Carnaval no Fogo”; CASTRO, Ruy. “Chega de Saudade”.; DINIZ, André. “Almanaque do Samba: a História do Samba, O Que Ouvir, O Que Ler, Onde Curtir”; LINS, Paulo. “Desde que o Samba é Samba”.

Filmes/documentários: GLOBO REPÓTER, “Os avós do Samba”; HOLLANDA, Lula Buarque de e Carolina Jabor, “O Mistério do Samba”; STEEN, Ricardo van. “Noel, Poeta da Vila”

Sites: Almanaque de Cultura Popular – http://www.almanaquebrasil.com.br; Agenda do Samba-Choro – http://www.samba-choro.com.br/; Cantoras do Brasil – http://www.cantorasdobrasil.com.br; Clique Music UOL – http://cliquemusic.uol.com.br; Clube do Tom – http://www.jobim.com.br/; Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira – http://www.dicionariompb.com.br/; Grêmio Recreativo Cacique de Ramos – http://www.caciquederamos.com.br/; MPBNet – http://www.mpbnet.com.br/

Infografia interativa de código aberto

Fizemos aqui na Casa da Cultura Digital (CCD, daqui pra frente) uma infografia interativa que merece algumas linhas. Primeiro, trata-se de um trabalho do nascente grupo que chamamos de Núcleo de Infografia e Visualização de Dados da CCD.

Havíamos realizado alguns trabalhos já antes, para a revista Teoria e Debate e outros jobs. Dessa vez, unimos a agência de jornalismo Pública (Natália Viana, Ana Aranha, Fabiano Angélico), a equipe de design e desenvolvimento da Cardume, e com ajuda dos jornalistas da Scarlett (eu e Felipe Lavignatti) chegamos num modelo inovador, em que os dados todos da infografia são públicos, o código da infografia é aberto, e tudo foi usado de maneira criativa, com mapas livres, e tecnologia desenvolvida na CCD.

Com a palavra, Miguel Peixe, desenvolvedor da Cardume:

A navegação pelos dados do infográfico usa como base de dados uma planilha do Google Docs, interpretada em CSV e transformada dinamicamente em JSON para processamento em JavaScript. Ou seja, mesmo que não seja o caso de o infográfico ser atualizado, ao modificar a planilha do Google Docs, o infográfico interpreta automaticamente. Isso pode ser replicado para outros infográficos, basta estabelecer uma estrutura de cabeçalho para a planilha e alterar o código para interpretá-la corretamente.
Para cada categoria de irregularidade (cidade, programa do governo e tipo de irregularidade) fora criada uma outra planilha. Utilizando o recurso de Pivot Table do Google Docs isso foi feito automaticamente, sem precisar caçar quais são e escrever uma a uma. Dessa forma pudemos trabalhar com diferentes taxonomias dentro das irregularidades sem tomar muito recurso do sistema.
Falando especificamente da criação da planilha de cidades pude acrescentar valores que permitiram a geolocalização dentro dos mapas. A mesma planilha servindo como taxonomia de irregularidade e informação geolocalizada. Eu tinha apenas o nome da cidade e o estado, valores insuficientes para uma geolocalização, que precisa de latitude e longitude. Para resolver isso encontrei uma solução desenvolvida pelo pessoal da MapBox, um script que intepreta uma coluna, busca através de uma API pelos valores de lat-long da cidade e cria duas novas colunas preenchidas com esses valores. De forma simples e rápida tive minhas cidades mapeadas e prontas para serem usadas.
O mesmo script utilizado para geolocalizar as cidades também me permite exportar os dados em formato GeoJSON, interpretado pela tecnologia de visualização de mapas Modest Maps (com a extensão Wax e Markers.js) e pelo TileMill, software utilizado para fazer o design dos mapas.
Como eu gosto de fuçar nas coisas e gastar pouco com isso, me aventurei em fazer o nosso próprio servidor de mapas ao invés de utilizar o serviço que o MapBox oferece. Talvez isso seja história para outro relato.
Em breve, a Casa da Cultura Digital deve lançar uma oficina de mapas e usos de tecnologias livres. Se alguém tiver interesse, por favor deixe um comentário e email de contato.

De cliques e histórias: o futuro do documentário

Por Camila Agustini

Escrever é sempre um ato de comunicação. Assim como fazer filmes. Nos cursos de preparação para apresentação de projetos para potenciais investidores, a mesma pergunta é feita uma e outra vez: por que isso interessaria a mais alguém?

A pergunta serve para mudar o eixo da ação. Para sentarmos do outro lado – no meu caso, da tela – e avaliar até que ponto vale a pena investir (tempo, energia e dinheiro) numa ideia.

Sendo sincera, eu não pensei em nada disso quando me inscrevi para participar de um novo documentário da NFB: o Au Suivant. Dirigido por Danic Champoux, o projeto pretende entrevistar 150 pessoas que vivem em Montreal sobre os mais diversos temas: família, sonhos, passado, futuro, felicidade, absurdo, memórias, para compor um mosaico humano sobre a cidade nos dias de hoje. Eu só queria ver como era um set numa das mais interessantes produtoras do mundo!

Eu já tinha me esquecido disso, quando me chamaram para participar hoje de uma entrevista. O que eu não sabia era que eu teria que responder tudo em francês. Falar sobre tudo que nos faz vivos já é bastante complicado na língua que nascemos sabendo, mas em um idioma que você conjuga basicamente (e por basicamente entenda-se: sujeito + verbo em qualquer tempo + objeto) faz qualquer um parecer um Neandertal.

Eu até agora não sei bem o que eu falei quando me perguntaram por que eu quis ser cineasta. E acho que nem o Champoux, nem ninguém da equipe entendeu. Mas se eu tivesse tido um pouquinho mais de tempo para articular minha resposta eu diria algo como “para sonhar livremente”. Não que o Direito não liberte. [N.E.: Camila é formada em Direito, e é também cineasta formada pela Escola de Cine e TV de Cuba] Em muitos casos é a única ferramenta de libertação, mas o cinema (talvez melhor dito, o audiovisual) permite algo que o Direito raramente permite: experimentar impunemente. (ou quase!)

Talvez por isso, a conversa semi-gutural desta manhã me fez pensar nos documentários interativos que estão tão na moda atualmente e sobre os quais tenho pensado muito desde o Festival Internacional da Cultura Digital.Br quando levamos para o Rio de Janeiro o Hugues Sweeney, principal produtor de conteúdos interativos da NFB.

O Au Suivant será um documentário convencional. Talvez um dos últimos que a NFB vai produzir já que a instituição está sofrendo com os cortes de verbas do governo conservador do Canadá. Espera-se para o segundo semestre uma reformulação que centrará os esforços de produção nas chamadas novas mídias, sobretudo nos conteúdos ditos interativos.  (E quem não tem nem ideia do que seja um documentário interativo terá nos próximos parágrafos uma lista de links para navegar e explorar essa nova linguagem audiovisual.)

Tenho participado de fóruns sobre o “futuro do cinema” e parece haver um certo consenso de que a interação é a bola da vez. Esse pelo menos era o tom dominante no último Hot Docs, em Toronto, no mês passado, onde conheci vários projetos muito interessantes como o Mapping Main Street: projeto colaborativo sobre as diversas “Main Street” (algo como Ruas 7 de setembro no Brasil!) espalhadas por todo o território dos Estados Unidos.

Os desenvolvedores desta plataforma estão agora criando uma ferramenta de curadoria e remix muito interessante o Zeega Project, que permite jogar com material recoletado em Youtube, Flickr, Vimeo, Sound Cloud etc.

No Hot Docs também estava o pessoal da Secret Location, agência multipremiada de produção de conteúdo interativo responsável por projetos como o grandioso D-Day to Victory, documentário interativo que faz uma reconstrução impressionante dos cenários da 2ª Guerra Mundial para revelar as memórias dos veteranos de guerra que ainda estão vivos no Canadá.

A agência apresentou ainda uma campanha bem humorada para arrecadar recursos para tratamento de um paciente com câncer no testículo: o Stanfield’s: The Guy At Home In His Underwear. Uma mistura de Big Brother com Facebook que rendeu ao paciente U$ 25 mil dólares em 7 dias!!

Vindo do outro lado do mundo, mais especificamente da Austrália, John Mac Farlane apresentou os projetos da SBS Documentary: Africa do Australia, sobre imigração africana para aquele país, Goa Hippy Tribe, sobre o movimento hippie e o The Block: stories from a melting place. Este último dedicado a “recuperar” a história de um bairro de Sidney tradicionalmente indígena que atualmente é uma das áreas mais violentas da cidade. Para isso, eles armaram uma visualização 360 graus do bairro, tipo Google Maps, e estão permitindo que os moradores do bairro insiram suas histórias, georreferenciando no mapa criado. O interessante disso é que segundo o Mac Farlane, essa iniciativa já teve um impacto positivo no nível de criminalidade na área em um interessante processo de reconhecimento dos moradores como pertencentes àquela localidade. Ideia boa para o pessoal do Baixo Centro em São Paulo.

Um monte de coisa legal, mas todo mundo só falava mesmo do último projeto interativo da NFB: o Bear 71 que parece ter causado frisson com uma mega instalação multimídia na última edição de Sundance. O grande diferencial é que a plataforma desenvolvida por aqui conecta os diferentes “usuários” e os expõe tal qual uma câmera de vigilância, invertendo a lógica de “bicho de zoológico” onde espectador passa a ser também objeto de interesse dos demais usuários da rede. A Point of View, revista dedicada só a documentários e que não está disponível na web, dedicou uma ampla reportagem sobre a experiência de navegar no projeto.

No vídeo a seguir, de 2 minutos, dá para entender um pouco melhor como é este projeto:

Além disso tudo, os participantes do Hot Docs elegeram seus documentários interativos favoritos e além do próprio Bear 71, Pine Point,  God’s Lake Narrow eTake This Lollipop, que não é exatamente um documentário,  foram os mais citados.

Tudo muito bonito, bem feito e “entretenido” (para usar uma expressão chilena). Mas devo confessar que nada disso realmente me parece “o futuro do documentário”. Pelo menos não para o tipo de espectador que eu sou. Por uma questão crucial: como é que eu tenho paciência para ver um filme de 3 horas e praticamente não consigo deter minha atenção por mais de 10 minutos em nenhum desses projetos? Ainda que muitos toquem em temas que me são caros: revitalização dos centros urbanos, preservação ambiental, história ou sentido de comunidade…

Acho que a grande questão aqui tem a ver com o formato. Todos esses projetos são norteados por uma apresentação descritiva da realidade onde alguém conta para você, espectador, da forma mais didática possível, o que está acontecendo. E no meio do caminho há um leque de opções que te dão mais e mais informação, numa lógica de expansão de conteúdo muito parecida com a própria navegação na rede. Exigindo, inclusive, cliques para avançar na narrativa. A diferença aqui é que alguém, no caso os autores do projeto, te pega pela mão e te conduz nessa estranha viagem que é compreender o mundo à sua volta. O que não deixa de ser um paradoxo já que o legal da rede, e por rede aqui digo internet, é que cada um é livre para ir onde quiser num universo de possibilidades infinitas.

Fico aqui pensando qual a diferença, em termos de conteúdo, com os documentários que me levam até o cinema. Ou seja, aqueles que me fazem sair de casa, pegar um ônibus/metrô, pegar fila, pagar e sentar para não fazer nada mais que observar.

Eu não sei. Mas talvez seja exatamente isso: liberdade. Os filmes que eu vou assistir me provocam, mas ao mesmo tempo me deixam livres para pensar o que eu quiser, do jeito que eu quiser, na hora que eu quiser, sem tentar me explicar muito o que está acontecendo.  São esses filmes que muitas vezes não saem da minha cabeça por anos e anos depois de terminada a sessão. Como esses dois aí embaixo:

Obs. No Hot Docs conheci uma pesquisadora do Open Doculab do MIT, a Katie Edgerton, que publicou recentemente um post com reflexões sobre o futuro dos documentários.

Obs.2: Se você quiser saber mais do Hot Doc, aqui dá para acompanhar as conferências do ano passado!

N.E.: Este texto foi publicado originalmente no novíssimo blog da Camila, o Eu Quero uma Vida Lazer.

Com mapa e perdido

É muito comum no jornalismo um pedido de infografia sobre um assunto qualquer e o resultado final ser muito bonito, mas pouco informativo ou prático. Este mapa do estadao.com.br, No rastro português, é um bom exemplo disso. A apresentação é linda. Ao entrar no especial, os movimentos com o mouse também impressionam, assim como todo o desenho dos boxes e do mapa. O conteúdo também é bom. É uma grande reportagem sobre a herança portuguesa nos países que tiveram sua colonização. Agora, para acessar todo este material, para navegar pelo conteúdo, você vai precisar se desdobrar um pouco.

A forma escolhida para apresentar estas nove colônias foi um mapa. Melhor escolha impossível. Aqui você consegue ver o tamanho da expansão que Portugal conseguiu. Ao clicar em cada um destes pontos abre-se um box com um pequeno texto sobre o local. Ao fim do texto, um Saiba Mais pode ser clicado para te levar para o texto completo em outra aba.

Nesta outra aba, você encontra a matéria relacionada com o ponto. Ou seja, o pequeno texto do box e mais uns poucos parágrafos. Para voltar ao especial, só trocando de aba, já que não há link algum em nenhuma das nove matérias. Em resumo, o especial é uma lista de nove links para matérias que fazem parte de uma grande reportagem.

É fácil notar que todo o material aqui veio do impresso e foi adaptado (tem até um leia mais na Página 12 na matéria de Angola). Ainda tem a matéria de apresentação da reportagem, que só pode ser acessado na tela inicial do infográfico no Saiba Mais. Se você não clicar ali, você não vai achar tão fácil este texto. Nesta matéria principal há links para os outros textos, mas somente dois, inexplicavelmente.

Devem ter gasto um bom tempo fazendo o mapa animado e os desenhos. O resultado estético ficou lindo, mas pouco prático. Nem sempre o conteúdo do papel é transposto da melhor forma para a internet e No rastro português é um exemplo disso. Para finalizar, deixo os links aqui de cada um dos nove pontos. Não é tão bonito como no mapa, mas é tão eficaz quanto.

Matéria principal

Timor Leste
Macau
Goa
Moçambique
Angola
São Tomé e Príncipe
Guiné-Bissau
Cabo Verde
Brasil

E tem mais esse, sobre os eventuais riscos antes de viajar.

 

Infografia e newsgames: as novidades da Superinteressante

A Superinteressante foi uma das primeiras a experimentar a produção de newsgames no Brasil. Começou, se não estou enganado, com o CSI brasileiro, jogo em que você usava técnicas da polícia para desvendar um assassinato – a história era ficção, mas os métodos reais. Depois teve o Jogo da Máfia, e as duas experiências foram das mais bem sucedidas, porque juntavam de maneira muito eficaz a informação com a tal da jogabilidade (era preciso, num caso, saber sobre máfia no mundo para operar melhor o tráfico; no outro, entender a perícia criminal para achar o assassino). A partir daí pegaram gosto pela coisa e muitos newsgames foram e ainda são produzidos na Abril, numa equipe bastante inovadora.

Há um debate, uma questão, que já fiz algumas vezes ao Frederico Di Giacomo, editor do Núcleo Jovem da Abril (que já falou a este blog num podcast): qual é o limite entre entretenimento e informação? Quando um jogo passa a ser um “newsgame”, e não “só” um game?

Não há uma resposta muito fácil, muito menos consenso na área.

Por exemplo, a Super fez um jogo sobre os Mortos de Lost – quem já tinha morrido na ilha, quem ainda estava vivo. Tudo bem que existe aí alguma informação, relevante especialmente para quem se interessava pelo seriado – mas parece que há pouco jornalismo aí para chamarmos de newsgames. Ou não?

A Super publicou recentemente três casos interessantes (superinteressantes?), e Fred Di Giacomo apresenta brevemente cada um deles. Abaixo, nossa análise.

Infográfico “República Imigrante do Brasil”
Aproveitando o gancho de que nunca tivemos tantos imigrantes morando no Brasil, lançamos essa reportagem multimídia infografada que inclui data visualization, mapas e um webdocumentário sobre a vinda de imigrantes pro Brasil.
ApocalipCity: Social Newsgame. 
A última capa da SUPER de 2011 foi uma edição sobre final do mundo. No começo de abril lançamos “ApocalipCity” um anti-Farmville, onde você não tem que construir casinhas, mas destruí-las. Para criamos as catástrofes nos baseamos na matéria de capa da SUPER.
Infográfico do fundo do mar
Infografamos o fundo do mar em uma produção toda feita em HTML5. Fomos indicados pro SPD ao  lado de 3 produções do New York Times.
O infográfico do Fundo do Mar é uma das melhores novidades do jornalismo da web dos últimos tempos, e não apenas no Brasil. De simples leitura, agradável, usando tecnologia de ponta (HTML5), traz muita informação de maneira compacta, usando a web no que ela tem de melhor: interatividade, espaço de leitura diferenciado – faltou talvez um multimídia com vídeos dos bichos, que seria legal. Não checamos todas as informações, também, mas uma delas, que nos pareceu bastante incrível, foi desmentida com uma busca simples. Parece que a história sobre uma ilha de lixo entre o Havaí e a Califórnia não é bem isso. Talvez seja o caso de re-checar a informação ou a fonte (não mencionada, ou bastante escondida, outro problema do infográfico).
A República dos Imigrantes é um belo trabalho também, com bastante informação, mas há uma grande dificuldade nos dados: o governo, até os anos 70, fazia a contagem de um jeito, e depois mudou, considerando apenas imigrantes residentes. O gráfico ficou um pouco confuso. Onde houve complicações maiores, entretanto – e isso não é exclusividade da Super, mas de muitos veículos impressos – foi na qualidade dos vídeos. Considerando que formam boa parte do conteúdo do produto, talvez tivesse valido a pena uma captação e uma edição mais cuidadosa e complexa.
Por fim, o caso do newsgame ApocalipCity – em que você precisa destruir a cidade, em vez da tradicional construção de cidades existente em games desde SimCity (1989). Até onde joguei, você controla cometas que precisam destruir uma cidade, o mais rápido possível, causando o máximo de aniquilação. É divertido, mas parece que falta, novamente, algo de jornalismo – ou então temos apenas um game. Ou não?

Pine Point: webdocumentário

Se você gosta de narrativas interativas, de webdocumentários, de produções criativas, então Welcome to Pine Point é imperdível.

os autoreS: http://blog.nfb.ca/2011/02/03/welcome-to-pine-point-an-interview-with-the-goggles/

comentário: http://www.innovativeinteractivity.com/2011/01/24/nfb-pine-point/

O press-release: http://www.onf-nfb.gc.ca/eng/press-room/press-releases.php?id=20150

De graça: o Manual do Jornalismo de Dados


Por Marcelo Soares (captado do blog dele, o Afinal de Contas)

Saiu nesta semana a versão em inglês, gratuita e na Web, do Data Journalism Handbook. Trata-se de um livro feito com a colaboração de vários jornalistas do mundo inteiro com alguma experiência no tratamento jornalístico de dados.

O livro reúne dicas e exemplos para quem quer conhecer melhor como func
iona essa coisa de entrevistar números como se entrevista pessoas e depois fazê-los falar usando gráficos interativos ou não.

Alguns artigos têm uma importância grande até para quem não pretende produzir nada com massas de dados, apenas compreender melhor o que lê. É o caso do artigo “Become data literate in 3 simple steps“, de Nicolas Kayser-Bril.

É um pequeno guia para ler números que viram notícia. Resumo aqui:

1. Como os dados foram coletados?
“Quando a performance está ligada à produtividade, por exemplo, policiais têm um incentivo para registrar o máximo possível de incidentes que não exigem investigação. Um crime assim é o uso de maconha. Isso explica por que crimes relacionados às drogas na França quadruplicaram nos últimos 15 anos enquanto o consumo permaneceu constante. Quando duvidar da credibilidade de um número, sempre cheque duas vezes, como você faria se fosse uma aspa de um político.”

2. O que se pode descobrir aí?
“Na média, 1 em cada 15 europeus é completamente analfabeto. Essa manchete parece assustadora. Também é completamente verdadeira. Entre os 500 milhões de europeus, 36 milhões provavelmente não sabem ler. Aliás, 36 milhões também têm menos de 7 anos de idade. Quando for escrever sobre uma média, sempre pergunte a si mesmo: ‘média de quê?’ A população de referência é homogênea? Os padrões desiguais de distribuição explicam por que a maior parte das pessoas dirige melhor do que a média, por exemplo. Muita gente tem zero ou apenas um acidente durante a vida inteira. Alguns motoristas inconsequentes têm muitos acidentes, jogando o número médio de acidentes para muito mais alto do que a maior parte das pessoas experimenta. O mesmo é verdade na distribuição de renda: muita gente ganha menos do que a média.”

3. O quanto essa informação é confiável?
“Matérias sobre os benefícios de beber chá são lugar comum. (…) Embora os efeitos do chá sejam seriamente estudados por alguns, muitas pesquisas deixam de levar em conta fatores do estilo de vida, como a dieta, a profissão ou a prática de esportes. Na maior parte dos países, o chá é uma bebida comum entre classes mais altas e mais conscientes em relação à saúde. Se os pesquisadores não levarem em conta os fatores de estilo de vida nos estudos do chá, eles não estarão dizendo nada além de ‘os ricos são mais saudáveis – e eles provavelmente bebem chá’. A matemática por trás das correlações e margens de erro nos estudos do chá está certamente correta, ao menos na maior parte do tempo. Mas, se os pesquisadores não procurarem outras co-correlações (tipo como beber chá se correlaciona à prática de esportes), seus resultados têm pouco valor.”

Este último ponto é particularmente importante.

Ontem, fui almoçar com colegas de uma editoria especializada aqui da Folha. Um deles me contou de uma entrevista que fez com um pesquisador, segundo o qual determinado fenômeno tinha tido uma redução de 1.500%. O colega sabia que nada pode cair mais do que 100% – uma queda de 1.500% significa perder tudo o que tem e ficar devendo 14 vezes tudo o que tinha antes da queda -, e portanto deixou essa informação inútil e enganosa fora da reportagem. Jornalista ligado protege até a fonte de passar ridículo.

A queda real: 97%, o que é bastante significativo. Desde que o pesquisador soubesse usar uma trena corretamente para medir as distâncias. Espera-se que sim.

terremoto no Jap̣o Р1 ano

O Uol tem uma equipe que trabalha com especiais multimídia interativos, e recentemente publicou um trabalho que chamou a atenção por utilizar a linguagem HTML5  – o que há de mais novo na tecnologia web.

Foi o especial 1 ano do terremoto no Japão, com material recolhido da cobertura e uma edição adicional, com fotos, vídeos, texto.

O projeto usa um tipo de navegação que mimetiza os tablets, uma espécie de “navegação em E”, uma vez que tem um eixo vertical, e muitos eixos horizontais. Em alguns momentos, o eixo horizontal é grande demais, e sem uma marcação mais adequada, a usabilidade fica prejudicada. De qualquer forma, é uma das poucas experiências brasileiras com o formato. O G1 tinha experimentado algo semelhante antes, num especial sobre o Corinthians.

Abaixo, Cíntia Baio, produtora conta um pouco dos bastidores de como foi pensado e feito o especial.

 

O nosso objetivo era tentar contar qual é o retrato do Japão um ano após o terremoto com uma linguagem diferente, que valorizasse vídeos e imagens, que foram muito fortes durante toda a cobertura do ano passado. Depois de uma reunião com designers e programadores, um deles sugeriu fazer em html 5, com um formato diferente dos infográficos que já tínhamos como padrão. Um dos pontos que contou bastante para a decisão foi o planejamento antecipado e um conteúdo frio, facilitando o trabalho de apuração, layout e programação.
A partir daí, os jornalistas do projeto (éramos em 3) decidiram quais seriam os itens abordados e qual seria a ordem e começamos o trabalho de apuração, escolhendo fotos e vídeos que relembrassem o tema. Um deles, que é editor-assistente de Inter e quem deu a ideia de fazer uma cobertura especial para o tema, foi até o Japão para visitar os locais atingidos e mostrar como estava sendo a reconstrução.
Para a equipe, criar um projeto assim foi importante no processo de integração de diferentes áreas, já que tivemos a participação de programador, designer, jornalistas, técnicos de vídeo desde a criação até a execução do projeto. É uma maneira diferente da redação trabalhar e do jornalista pensar de uma maneira diferente em como apresentar o conteúdo.