Anti-ads, culture jamming e anti-publicidade

Conteúdo recolhido durante aula sobre anti-ads, anti e contra-publicidade, culture jamming.

 Da Wikipedia:

Culture jamming (conceito surgido em 1984) é uma tática usada por muitos movimentos anti-consumismo para disrupção ou subversão da cultura midiática e ataque a suas principais instituições culturais, como grandes corporações e marcas. Normalmente se propõe a expor os métodos de dominação da sociedade de consumo de massa e provocar danos progressivos através de ataques que utilizam o remix como arma.

Culture jamming é uma forma de subvertising. Muitas peças assumem lados políticos utilizando a mesma tática da publicidade. Táticas comuns são o ataque a logomarcas, produtos e o atentado ao conceito de “cool”. Também buscam desmontar a ideia que a publicidade tenta vender de “liberdade de escolha”: como assim, liberdade de escolha, mas vendendo os mesmo produtos em massa?

Abaixo, alguns exemplos.

 

 

 

 

Instituto cultural Google

Vale a pena gastar uns minutos, horas, navegando pelo Instituto Cultural do Google.

Além dos acervos digitalizados de museus, que já existem no Art Project, existem coleções especiais que recontam momentos históricos.

http://www.google.com/culturalinstitute/project/historic-moments

São especiais multimídia, ao melhor estilo de curadoria da informação.

Perca-se.

Pelo menos um

Acaba de sair do forno mais um trabalho do Portal NE10, feito em parceria com o Jornal do Commercio. O webdocumentário “Pelo menos um” revela a história de vida e lutas de ex-meninos e meninas de rua de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, que se conheceram há 10 anos em uma ONG. Só um deles conseguiu quebrar o ciclo da pobreza. Retrato de um Brasil ainda muito desigual e cruel.

Na página, o internauta tem acesso ao webdocumentário dividido em três episódios, que conta ainda com infográficos animados, galeria de fotos e textos extras:

http://especiais.ne10.uol.com.br/pelomenosum/

O material foi produzido pelas jornalistas Ciara Carvalho, do Jornal do Commercio, e por mim, do Portal NE10, com design de Bruno de Carvalho/ NE10 e fotos de Hélia Scheppa/ JC Imagem.

Manuais: vídeo online e redes sociais

Começamos a produzir em 2011 dois manuais: um sobre vídeo online, e outro sobre redes sociais. Culpa minha, pensando sempre em publicar manuais que fossem referência sobre o assunto, e sendo o ótimo inimigo do bom, e contrariando sobretudo a regra hacker “release early”, os manuais até hoje não foram terminados, nem publicados. Bem, agora estão publicados aqui.

Os guias são fruto do trabalho que desenvolvemos durante anos na Casa da Cultura Digital, e foi produzido em conjunto por muita gente de lá. São uma tentativa de sistematizar o conhecimento que reunimos, em duas frentes:

Manual de distribuição de vídeo online

Como tirar um arquivo de vídeo de um DVD e jogar na web, da melhor maneira possível? Nós tivemos que aprender na marra, e não foi fácil, sem um lugar que pudesse ensinar isso – apenas fóruns de discussões, listas de videomakers, conversas no corredor. Qual o melhor software para converter arquivos? E para juntar partes de vídeos? E como editar um vídeo que veio do celular, e depois jogar na web? Jogar onde?

Este livreto é uma tentativa de juntar esse conhecimento. Traz uma breve explicação sobre formatos de arquivos de vídeo na web, um passo-a-passo em dois sistemas de conversão (VLC e Format Factory), e um guia comparativo sobre plataformas de distribuição de vídeo online. Precisa de atualização (se alguém quiser entrar nessa pode ser uma boa), mas serve pra muita coisa. Tudo isso me ajudou muito.

Manual de Ativação de Redes Sociais

Este trabalho é uma sistematização das redes sociais existentes em 2011/2012, e um guia sobre como trabalhar com elas, e por quê. Twitter, Facebook, FormSpring, Delicious, Flickr, Internet Archive, Tumblr, MySpace, YouTube, Vimeo. E alguns cases de usos de redes.

Tenho mostrado em aulas, e distribuído esses livrinhos por aí (em pdf), mas passou da hora deles estarem na web. Aqui vão.


 

Agradecimentos aos que participaram de alguma maneira aí no projeto, e desculpas se esqueço de alguém: VJ Pixel, Juliana Protássio, Tiago Pimentel e equipe Interagentes, Cardume Estúdio (que ainda eram os irmãos Luiza e Miguel Peixe então), Aloisio Milani (que revisou um trabalho do site Guia do Vídeo Online), o Felipe Lavignatti, que deve ter ajudado com alguma coisa que não lembro, e entre outros tanto aí. Praticamente todos que trabalharam nesses livrinhos não estão mais lá na Casa da Cultura, aliás, mas firmeza, tamos na área.

O trem do samba

Lá vem o Fred di Giacomo e a turma da Superinteressante com novidades. Dessa vez, uma infografia gigante em HTML5 sobre a história do samba. Nada menos que onze (11) pessoas assinam essa info. Queria saber o que cada um fez, e logo mais o Fred conta, com certeza.

Criaram uma espécie de mapa do metrô, com cruzamentos entre estilos, por onde se pode assitir vídeos do You Tube com exemplos das músicas citadas.

O trabalho é incrível, sem dúvida. É possível realizar uma navegação livre, numa narrativa multi-linear, ou seguir a linha cronológica e ver a evolução do samba através do tempo. Aqui faço um pequeno reparo, que é difícil entender em que parte do mapa estamos com o deslocamento da tela. Talvez algum destaque na “bolinha” da “estação do metrô” pudesse ajudar.

Pouca gente está investindo em infografias e narrativas diferenciadas para a web no Brasil. A equipe do Fred se mantém como caso raro, apresentando grandes trabalhos.

Vale acompanhar o blog sobre Newsgames que eles mantém também.

Abaixo, pra se ter uma ideia da pesquisa feita, as fontes que eles usaram para essa infografia:

Livros:

CASTRO, Ruy. “Carnaval no Fogo”; CASTRO, Ruy. “Chega de Saudade”.; DINIZ, André. “Almanaque do Samba: a História do Samba, O Que Ouvir, O Que Ler, Onde Curtir”; LINS, Paulo. “Desde que o Samba é Samba”.

Filmes/documentários: GLOBO REPÓTER, “Os avós do Samba”; HOLLANDA, Lula Buarque de e Carolina Jabor, “O Mistério do Samba”; STEEN, Ricardo van. “Noel, Poeta da Vila”

Sites: Almanaque de Cultura Popular – http://www.almanaquebrasil.com.br; Agenda do Samba-Choro – http://www.samba-choro.com.br/; Cantoras do Brasil – http://www.cantorasdobrasil.com.br; Clique Music UOL – http://cliquemusic.uol.com.br; Clube do Tom – http://www.jobim.com.br/; Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira – http://www.dicionariompb.com.br/; Grêmio Recreativo Cacique de Ramos – http://www.caciquederamos.com.br/; MPBNet – http://www.mpbnet.com.br/

Como se pautar com o auxílio de 2,4 milhões de páginas de um jornal

No dia 23 de maio o jornal O Estado de S. Paulo disponibilizou na internet o seu acervo digital. Agora é possível consultar as mais de 2,4 milhões de páginas do jornal desde sua primeira edição, em 1875. A iniciativa já vem mudando a rotina dos jornalistas na redação do jornal, que agora contam com mais facilidade para buscar alguma informação no acervo de 137 anos do jornal, segundo o coordenador do acervo, Edmundo Leite. Abaixo você confere um bate-papo com ele sobre a importância deste imenso material histórico para o jornalismo.

 

Jornalistmo Digital: Qual o principal papel do acervo digital do Estadão?

Edmundo Leite: Difundir um conteúdo sem igual que estava restrito a poucos e ao mesmo tempo preservar os originais em papel, que deixam de correr risco de deterioração por causa do manuseio para consulta.

JD: Por que deixar algumas restrições para não assinantes?

EL: Por várias razões, entre elas o alto custo de um trabalho dessa grandeza. Apesar de compartilhar gratuitamente parte de seus conteúdos, o Grupo Estado acredita que bons produtos devam ser pagos. Mesmo assim, quem não é assinante consegue tirar grande proveito do site do acervo. Mas por entender também que um conteúdo desse tem uma reelevância histórica, estamos fazendo convênios com diversas instituições públicas para que o Acervo Estadão seja acessado sem restrições nesses lugares. A abrangência dos convênios garante esse caráter público. Com os acordos iniciais, serão beneficiados os frequentadores da Biblioteca Nacional, Biblioteca Brasiliana USP, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Biblioteca Mario de Andrade a mais de 50 bibliotecas do Sistema Municipal de Bibliotacas, além das universidades Unicamp e Unesp. Mais convênios deverão ser acertados mais adiante, ampliando ainda mais o número de estudantes, professores, pesquisadores e acedêmicos que poderão acessar o Acervo sem restrições.

JD: Como um acervo histórico pode funcionar em um veículo que trabalha com notícias quentes?

EL: Contextualizar melhor os fatos relatados e dar agilidade na tarefa de relembrar determinados casos são as tarefas básicas e naturais. Mas o importante é que criamos um novo uso desse acervo que vai muito além do saudosismo ou do “há 100 anos, há 50 anos…” Não se trata apenas de uma ferramenta para encontrar edições antigas. É um acervo vivo. Muitas das coisas que estão lá são praticamente inéditas para muita gente. Então vamos fazendo conexões entre as notícias do passado com as atuais. No dia do lançamento, por exemplo, quando todos esperavam que saíssemos com a primeira página publicada pelo jornal, em 4 de janeiro de 1875 em destaque, optamos por destacar uma página de 1974 sobre a inauguração do Metrô em São Paulo, pois naquele dia acontecia uma greve dos metroviários que parou a cidade. A primeira frase da reportagem de 38 anos atrás não poderia ser mais apropriada: “O Metrô hoje está proibido para a população”.

JD: Você acha que o acervo pode um dia pautar o jornal?

EL: Isso já acontece. Mesmo antes do Acervo Estadão, já fazíamos isso no blog do Arquivo. No dia que aqueles prédios desabaram no centro do Rio, fizemos um post com fotos de arquivo que mostravam que um dos prédios era cheio de janelas irregulares em paredes cegas, onde não deveria haver janelas. Foi um dado a mais para mostrar os problemas dos edifícios. http://blogs.estadao.com.br/arquivo/2012/01/27/predio-que-desabou-no-rio-tinha-janelas-fora-do-padrao/. E não vai demorar a surgir fatos novos das antigas páginas do jornal. Como disse, muita coisa ali é praticamente inédita. À medida que mais pesquisadores estiverem relando esse conteúdo e cruzando com outros dados vão surgir coisas que mudarão o entendimento sobre fatos que foram contados posteriormente sem conhecimento daquele dado publicado. É o jornal ganhando uma vida nova.

JD: Algum plano para o acesso mobile deste conteúdo?

EL: Sim. Aplicativos específicos para tablets e celulares deverão ser lançados. O legal é que um acervo como esse oferece muitas possibilidades. Algumas delas devem ser anunciadas em breve.

JD: Como está sendo o retorno dos leitores? e dos jornalistas?

EL: As pessoas elogiam, escrevem relatos emocionados, contam suas histórias, de como o jornal foi importante na vida delas. E entre os jornalistas é mesma coisa, com um sentimento extra: orgulho. Seja por parte de quem trabalhou ou trabalha aqui, todos ficam orgulhosos de fazer parte dessa fantástica história de 137 anos.

De cliques e histórias: o futuro do documentário

Por Camila Agustini

Escrever é sempre um ato de comunicação. Assim como fazer filmes. Nos cursos de preparação para apresentação de projetos para potenciais investidores, a mesma pergunta é feita uma e outra vez: por que isso interessaria a mais alguém?

A pergunta serve para mudar o eixo da ação. Para sentarmos do outro lado – no meu caso, da tela – e avaliar até que ponto vale a pena investir (tempo, energia e dinheiro) numa ideia.

Sendo sincera, eu não pensei em nada disso quando me inscrevi para participar de um novo documentário da NFB: o Au Suivant. Dirigido por Danic Champoux, o projeto pretende entrevistar 150 pessoas que vivem em Montreal sobre os mais diversos temas: família, sonhos, passado, futuro, felicidade, absurdo, memórias, para compor um mosaico humano sobre a cidade nos dias de hoje. Eu só queria ver como era um set numa das mais interessantes produtoras do mundo!

Eu já tinha me esquecido disso, quando me chamaram para participar hoje de uma entrevista. O que eu não sabia era que eu teria que responder tudo em francês. Falar sobre tudo que nos faz vivos já é bastante complicado na língua que nascemos sabendo, mas em um idioma que você conjuga basicamente (e por basicamente entenda-se: sujeito + verbo em qualquer tempo + objeto) faz qualquer um parecer um Neandertal.

Eu até agora não sei bem o que eu falei quando me perguntaram por que eu quis ser cineasta. E acho que nem o Champoux, nem ninguém da equipe entendeu. Mas se eu tivesse tido um pouquinho mais de tempo para articular minha resposta eu diria algo como “para sonhar livremente”. Não que o Direito não liberte. [N.E.: Camila é formada em Direito, e é também cineasta formada pela Escola de Cine e TV de Cuba] Em muitos casos é a única ferramenta de libertação, mas o cinema (talvez melhor dito, o audiovisual) permite algo que o Direito raramente permite: experimentar impunemente. (ou quase!)

Talvez por isso, a conversa semi-gutural desta manhã me fez pensar nos documentários interativos que estão tão na moda atualmente e sobre os quais tenho pensado muito desde o Festival Internacional da Cultura Digital.Br quando levamos para o Rio de Janeiro o Hugues Sweeney, principal produtor de conteúdos interativos da NFB.

O Au Suivant será um documentário convencional. Talvez um dos últimos que a NFB vai produzir já que a instituição está sofrendo com os cortes de verbas do governo conservador do Canadá. Espera-se para o segundo semestre uma reformulação que centrará os esforços de produção nas chamadas novas mídias, sobretudo nos conteúdos ditos interativos.  (E quem não tem nem ideia do que seja um documentário interativo terá nos próximos parágrafos uma lista de links para navegar e explorar essa nova linguagem audiovisual.)

Tenho participado de fóruns sobre o “futuro do cinema” e parece haver um certo consenso de que a interação é a bola da vez. Esse pelo menos era o tom dominante no último Hot Docs, em Toronto, no mês passado, onde conheci vários projetos muito interessantes como o Mapping Main Street: projeto colaborativo sobre as diversas “Main Street” (algo como Ruas 7 de setembro no Brasil!) espalhadas por todo o território dos Estados Unidos.

Os desenvolvedores desta plataforma estão agora criando uma ferramenta de curadoria e remix muito interessante o Zeega Project, que permite jogar com material recoletado em Youtube, Flickr, Vimeo, Sound Cloud etc.

No Hot Docs também estava o pessoal da Secret Location, agência multipremiada de produção de conteúdo interativo responsável por projetos como o grandioso D-Day to Victory, documentário interativo que faz uma reconstrução impressionante dos cenários da 2ª Guerra Mundial para revelar as memórias dos veteranos de guerra que ainda estão vivos no Canadá.

A agência apresentou ainda uma campanha bem humorada para arrecadar recursos para tratamento de um paciente com câncer no testículo: o Stanfield’s: The Guy At Home In His Underwear. Uma mistura de Big Brother com Facebook que rendeu ao paciente U$ 25 mil dólares em 7 dias!!

Vindo do outro lado do mundo, mais especificamente da Austrália, John Mac Farlane apresentou os projetos da SBS Documentary: Africa do Australia, sobre imigração africana para aquele país, Goa Hippy Tribe, sobre o movimento hippie e o The Block: stories from a melting place. Este último dedicado a “recuperar” a história de um bairro de Sidney tradicionalmente indígena que atualmente é uma das áreas mais violentas da cidade. Para isso, eles armaram uma visualização 360 graus do bairro, tipo Google Maps, e estão permitindo que os moradores do bairro insiram suas histórias, georreferenciando no mapa criado. O interessante disso é que segundo o Mac Farlane, essa iniciativa já teve um impacto positivo no nível de criminalidade na área em um interessante processo de reconhecimento dos moradores como pertencentes àquela localidade. Ideia boa para o pessoal do Baixo Centro em São Paulo.

Um monte de coisa legal, mas todo mundo só falava mesmo do último projeto interativo da NFB: o Bear 71 que parece ter causado frisson com uma mega instalação multimídia na última edição de Sundance. O grande diferencial é que a plataforma desenvolvida por aqui conecta os diferentes “usuários” e os expõe tal qual uma câmera de vigilância, invertendo a lógica de “bicho de zoológico” onde espectador passa a ser também objeto de interesse dos demais usuários da rede. A Point of View, revista dedicada só a documentários e que não está disponível na web, dedicou uma ampla reportagem sobre a experiência de navegar no projeto.

No vídeo a seguir, de 2 minutos, dá para entender um pouco melhor como é este projeto:

Além disso tudo, os participantes do Hot Docs elegeram seus documentários interativos favoritos e além do próprio Bear 71, Pine Point,  God’s Lake Narrow eTake This Lollipop, que não é exatamente um documentário,  foram os mais citados.

Tudo muito bonito, bem feito e “entretenido” (para usar uma expressão chilena). Mas devo confessar que nada disso realmente me parece “o futuro do documentário”. Pelo menos não para o tipo de espectador que eu sou. Por uma questão crucial: como é que eu tenho paciência para ver um filme de 3 horas e praticamente não consigo deter minha atenção por mais de 10 minutos em nenhum desses projetos? Ainda que muitos toquem em temas que me são caros: revitalização dos centros urbanos, preservação ambiental, história ou sentido de comunidade…

Acho que a grande questão aqui tem a ver com o formato. Todos esses projetos são norteados por uma apresentação descritiva da realidade onde alguém conta para você, espectador, da forma mais didática possível, o que está acontecendo. E no meio do caminho há um leque de opções que te dão mais e mais informação, numa lógica de expansão de conteúdo muito parecida com a própria navegação na rede. Exigindo, inclusive, cliques para avançar na narrativa. A diferença aqui é que alguém, no caso os autores do projeto, te pega pela mão e te conduz nessa estranha viagem que é compreender o mundo à sua volta. O que não deixa de ser um paradoxo já que o legal da rede, e por rede aqui digo internet, é que cada um é livre para ir onde quiser num universo de possibilidades infinitas.

Fico aqui pensando qual a diferença, em termos de conteúdo, com os documentários que me levam até o cinema. Ou seja, aqueles que me fazem sair de casa, pegar um ônibus/metrô, pegar fila, pagar e sentar para não fazer nada mais que observar.

Eu não sei. Mas talvez seja exatamente isso: liberdade. Os filmes que eu vou assistir me provocam, mas ao mesmo tempo me deixam livres para pensar o que eu quiser, do jeito que eu quiser, na hora que eu quiser, sem tentar me explicar muito o que está acontecendo.  São esses filmes que muitas vezes não saem da minha cabeça por anos e anos depois de terminada a sessão. Como esses dois aí embaixo:

Obs. No Hot Docs conheci uma pesquisadora do Open Doculab do MIT, a Katie Edgerton, que publicou recentemente um post com reflexões sobre o futuro dos documentários.

Obs.2: Se você quiser saber mais do Hot Doc, aqui dá para acompanhar as conferências do ano passado!

N.E.: Este texto foi publicado originalmente no novíssimo blog da Camila, o Eu Quero uma Vida Lazer.

dados abertos no estadão: o basômetro

O Estadão sai na frente dos jornais brasileiros ao seguir uma lógica já aplicada em alguns dos maiores jornais do mundo, como o Guardian ou o New York Times: jornalismo em bases de dados abertas. O site lançou uma ferramenta interativa que permite cruzar dados públicos, antes de difícil acesso, em separado, e inacessíveis até então da maneira visual como o Estadão apresenta em seu site: é o basômetro, que apresenta quais parlamentares votam mais de acordo com o governo ou com a oposição; ou seja, mede a taxa de governismo dos deputados (quem é mais base de governo ou não).

Mas não apenas foi gerada uma ferramenta de visualização complexa e de utilidade incontestável – o que já seria um avanço em relação ao jornalismo interativo praticado na internet -, mas toda a programação está aberta, disponível a quem quiser avançar pelos códigos em outras searas.

A equipe do Estadão Dados explica:

Os códigos e os dados no Basômetro estão disponíveis no Github e no Google Docs ( votos deputados em 2012 , votos deputados em 2011 , lista de votações na Câmara , votos senadores (2011 e 2012) , votações Senado ).

O Basômetro se inspirou no projeto Camaraws, de Leonardo Leite e Saulo Trento (PoliGNU – Grupo de Estudos de Software Livre da Poli-USP), que usou os resultados de votações na Câmara dos Deputados para avaliar o grau de semelhança entre os partidos (veja aqui).

O Estadão Dados é uma equipe formada por jornalistas, programadores e designers: José Roberto de Toledo, Daniel Bramatti, Eduardo Malpeli e Amanda Rossi. No projeto do Basômetro, colaboraram também Carlos Lemos, Bruno Lupion e Ricardo Periago. O Basômetro também recebeu valiosas contribuições de Fabio Sales, diretor de Arte do Grupo Estado.

A equipe também nos enviou um breve texto detalhando o processo de criação, e explicando a façanha. Atenção para uma opção já comum entre os maiores desenvolvedores, mas no Brasil pouco explorada, que é a opção por códigos alternativos ao Action Script (Flash), que rodem também em ipads, iphones, e demais equipamentos móveis.

Quando o Basômetro começou a ser criado, os resultados das votações nominais do Congresso estavam disponíveis nos sites da Câmara e do Senado apenas como arquivos isolados – um para cada votação. Não havia ainda uma visão agregada de todas as votações. Por isso, uma das primeiras etapas do trabalho foi selecionar os dados, organizá-los e limpá-los – só na Câmara, trabalhamos com mais de 50 mil linhas de dados. Todas as ferramentas que utilizamos neste processo são livres e gratuitas, como o Open Office e o Google Refine.

Ao mesmo tempo, a equipe começou a desenhar e a testar formas visuais de apresentar a informação, que permitissem ao usuário tirar conclusões rápidas, mas também possibilitasse que ele aplicasse diversos tipos de filtros para realizar análises pessoais. Por exemplo, escolher o período de tempo analisado, o partido, o estado ou o parlamentar. A ferramenta foi escrita em Javascript. A escolha da linguagem objetivou deixar a tecnologia acessível aos desenvolvedores de web. Além disso, o Javascript permite que a ferramenta rode em todas as plataformas computadores, tablets, smartphones.

Um dos princípios do Estadão Dados é a transparência. Por isso, todos os dados e códigos estão disponíveis (no Google Docs e no GitHub) e podem ser reutilizados livremente.

G1 e o especial sobre o Facebook

O G1 lançou uma reportagem especial interativa sobre o Facebook, agora que suas ações estão abertas na bolsa e a empresa está ainda mais valiosa, e seus acionistas mais ricos. A reportagem entra como um dos grandes exemplos recentes de trabalhos criativos, com opções interativas bastantes atrativas.

Não é o primeiro trabalho que explora o HTML5 no Brasil como narrativa jornalística. O próprio G1 já tinha lançado um especial sobre o Corinthians, no final de 2011, outro no dias das mães (não estou mais achando o link, quem me passa?), e o UOL andou explorando a linguagem num especial sobre o terremoto do Japão. Todos testam o que vimos chamando de sites-reportagem, uma linha bem pouco explorada, em geral, no jornalismo brasileiro, mas muito bem executada em outros países.

A ideia do G1 foi utilizar o formato da linha do tempo do próprio Facebook como moldura para seu conteúdo. Ficou interessante, bem executado, especialmente as brincadeiras com a linguagem do próprio FB, como os “curtiu”, e memes que circulam por lá. Seria legal também ter feito, além do site-reportagem, uma timeline como fez o New York Times, usando o próprio timeline do Facebook para contar uma história. O NYT contou ali sua própria história, mas o G1 poderia ter brincado com a meta-linguagem da coisa e contar a história do Facebook no Facebook – o que permitiria aumentar os acessos à página oficial do G1 naquela rede. O NYT tem 2 milhões de “curtiu” na sua página.

Um detalhe sobre a estrutura do HTML5: seria perfeito se, ao rolar a página pra baixo, os anos fossem mudando automaticamente. Como está, os anos ficam marcados independente da navegação pela rolagem.

Muito boas as interações com notícias do G1 e a rádio com músicas do Roberto Carlos.

Abaixo, Amanda Demetrio, repórter deste especial do G1, conta como foi o processo de criação:

A ideia de criar um infográfico tipo “Linha do Tempo” sobre a história do Facebook veio logo no começo de fevereiro, quando o Facebook apresentou os documentos para realizar o IPO. Sabíamos que teríamos que preparar um material longo sobre o assunto   e que teríamos que contar a história da rede social de algum jeito. Importante frisar que a ideia não foi minha, e sim do outro repórter que trabalha aqui, o Gustavo Petró (@gustavopetro).

 

Como o Petró é mais focado em games e eu já tinha lido um livro sobre o Facebook e feito um especial sobre o assunto, decidimos que eu ia ficar mais focada nisso, mas todos ajudaram muito, inclusive a Daniela Braun, nossa editora (@dani_braun), e a Laura Brentano (@laurabrentano), também repórter da editoria.

 

Pegamos muito material envolvendo as origens da empresa no “Bilionários Acidentais”, do Ben Mezrich, e no “Efeito Facebook”, do David Kirkpatrick. Além disso, usamos informações das fontes que vemos todos os dias para fazer uma ronda por aqui: blogs de tecnologia e os grandes jornais. Montei um texto grande e enviamos pro pessoal da arte.

 

Na arte, o Gustavo Miller (@gustavomiller) coordenou todo o processo e deu ideias ótimas para deixar tudo mais interativo. Também teve a equipe de arte: Dalton Soares, Daniel Roda, Elvis Martuchelli, Leo Aragão e Rafael Soares. A pesquisa de vídeos foi da Flavia Rodrigues.

 

Depois que enviamos o texto pra lá, rolou essa ideia de fazer uma coisa mais interativa, com itens que poderiam ser clicados pelas pessoas –no infográfico dá, por exemplo, pra você ouvir a música “Eu quero apenas”, do Roberto Carlos, na Rádio Globo. A ideia também era incorporar no infográfico algumas das principais “brincadeiras” que são feitas dentro do Facebook. Temos um “Keep Calm”, uma frase falsa da Clarice Lispector e um “Como as pessoas me veem”, por exemplo.

 

Em termos de linguagem, pensamos em usar muito do que acontece dentro do Facebook para contar algumas partes da história. Usamos muito o “cutucar” e o “curtir”. No post do filme sobre o Facebook, colocamos, por exemplo, que “A Academia curtiu”.

 

Houve uma longa pesquisa de vídeos para ilustrar certos momentos da história do Facebook também.

Um manifesto pós-jornalístico

Artigo escrito por Bernardo Gutiérrez (@bernardosampa), CEO e Founder de Futura Media, onde este post foi publicado originalmente. 

(Imagem de Julian Assange por Ben Heine) 

N.E: Publicamos em 2010 o texto A Linguagem Libertada, também um diálogo com o manifesto de Gutiérrez. Também todo o estudo Novos Jornalistas do Brasil fala sobre isso e sobre, inclusive, este termo, o pós-jornalismo. Este é um blog essencialmente sobre pós-jornalismo, como seus editores já se identificam aliás. O texto de Gutiérrez vem em boa hora. Boa leitura.


Para alguns, os jornais de papel estão marcados para morrer. Ross Dawson criou um cronograma com a data exata da morte dos jornais em cada país. Em 2017 terminará o último jornal nos Estados Unidos. Em 2031, não haverá nenhum jornal impresso no Japão. Por volta de 2040 a África ficará sem jornais. Para muitos, a comparação é inevitável: se os jornais desaparecem, o jornalismo também. Os pessimistas usam todas as informações ou relatórios para confirmar a crônica de uma morte anunciada. A indústria da mídia é a que mais rapidamente diminui nos EUA. A mídia afunda na Espanha: os ingresos da publicidade caem 20%. Sem papel não tem jornalismo, pensam os que fazem notícias como sempre fizeram.

Os presságios mortais contra a mídia - ou contra o jornalismo – vêm de longe. O prestigioso pensador Jean Baudrillard, em seu clássico Requiem for the media, de 1972, atacou o sistema de meios de comunicação “unilateral e vertical”. Entendemos que a comunicação - Baudrillard escreveu - como mais do que uma “simples transmissão-recepção da mensagem”. Informar não é comunicar. Mas a maior parte dos meios de comunicação continuou na idade da Internet com a transmissão-recepção clássica da mensagem. O meio é a mensagem, como diria Marshall McLuhan. O papel / tela é tudo. Substitui a mensagem.

Em 2005, Bruce Sterling, um dos escritores mais influentes do cyberpunk, observando a inércia do antigo regime da comunicação, escreveu o Dead media manifiesto (manifesto da mídia morta), “um guia para os paleontólogos da mídia”. Bruce (@bruces no Twitter),  vislumbrou então o suicídio da mídia: “Precisamos de um livro sobre as falhas da mídia, sobre o colapso dos meios de comunicação, um livro que detalhe os terríveis erros cometidos para não repeti-los”. Seu manifesto, em essência, não era muito diferente ao requiem midiático de Baudrillard: “A verdadeira mídia é a transmissão imediata, dada e recebida, falada e respondida, móvel no mesmo espaço e tempo, recíproca e antagônica.”

Confesso que este post não existiria sem o maravilhoso texto Por um manifesto posfotográfico de Joan Fontcuberta, em que o fotógrafo catalão demole os fundamentos da fotografia antiga com uma facilidade surpreendente. Fontcuberta imagina como funciona a “radical criação posfotográfica” em um mundo no qual ”o artista se confunde com o curador, o coletor, o professor, o historiador de arte, o teórico”. “Já não se trata de produzir obras”, ele diz, “mas de prescrever sentidos”. A circulação e a gestão da imagem predomina, diz, ”sobre o conteúdo da imagem”.

Depois de várias re-leituras do texto de Fontcuberta, após mais de quinze anos na profissão, eu troquei a palavra ”jornalista” no meu perfil no Twitter por “pós-jornalista”. E isso que eu tenho muito claro que o jornalismo não vai morrer.Estamos lidando com uma verdadeira mudança semântica do termo. A definição clássica de jornalismo não é mais útil. Pode sobreviver, enriquecida por uma nova definição de “pós-jornalismo”. A redefinição descreve outra realidade, outra prática,outros hábitos. E como é que funciona a criação radical do pós-jornalismo? Tentei imaginar como seria um hardware pós-jornalístico em um decálogo aberto, remixável e claramente melhorável coletivamente. Já está no wiki de movimento Fora do Eixo. Qualquer pessoa pode participar melhorando o manifesto.

1) A informação torna-se um processo compartilhado. Os produtores de informação incluem os leitores no desenvolvimento do conteúdo. Compartilhar em blogs, plataformas de vídeo ou sites os detalhes de como eles têm desenvolvido o trabalho informativo é tão importante quanto o resultado final. O conteúdo irá tornar-se um making of em tempo real.

2) A definição do conteúdo evolui, cresce, se expande. Discutir a notícia, espalhá-la com valor acrescentado (mais conteúdo), remixá-la, é criar conteúdo. A adesão (clickar no “Eu curti” em uma rede social) é uma nova mutação do conteúdo. A edição será considerada uma forma de autoria.

3) O pós-jornalista confunde-se com o curador. Selecionar o conteúdo relevante na infosfera da superabundância será uma das suas principais tarefas. Filtrar conteúdo será uma das funções do pós-jornalista.

4) Temos que entender o pós-jornalismo como uma estrutura de código aberto em constante desenvolvimento. Ninguém é dono do jornalismo.Qualquer um pode usá-lo. Qualquer um pode melhorá-lo. Qualquer um pode hackeá-lo.

5) A notícia - que não vai desaparecer- não é mais a unidade básica do pós-jornalismo. O fluxo, um fluxo constante de fatos, dados e declarações, torna-se a espinha dorsal do pós-jornalista. O fragmento torna-se a unidade básica da informação. A informação torna-se um rio compartilhado que incorpora fragmentos distribuídos produzidos por jornalistas e leitores. O rio vai coexistir com uma estructura de informação descentralizada (arquivo em beta) inspirado na Wikipedia. Alguns, caminho sugerido pela Fundação P2P, vão preferir adicionar informações ao wikicorpo da sua marca que ao rio compartilhado.

6) A informação não é mais um produto: é uma comunidade. Às vezes, as comunidades vão viver ao redor do conteúdo gerado pelos pós-jornalistas. Em outras ocasiões, elas próprias desenvolverão seus próprios conteúdos. A mídia, com conteúdo próprio ou alheio, tem que tentar ser uma plataforma de interações.

7) O imediato será considerado como um simples plug in ou aplicativo de algo maior. Sem um sistema operacional, sem um gestor de conteúdo, o plug in ou aplicativo de software é inútil. O imediato, ainda que importante, já não é o epicentro do pós-jornalismo. A inteligência coletiva de uma população armada de telefones inteligentes será o melhor amigo (não inimigo) do pós-jornalismo para compreender e cubrir o imediato. Grande parte das fontes clássicas serão devoradas por essa inteligência coletiva em tempo real.

8) O pós-jornalismo dá sentido aos fatos já conhecidos. O leitor vai encontrar menos notícias nas marcas informativas. Vai entender depois de consultar as marcas informativas os fragmentos já conhecidos. Portanto, não basta informar. Se comunicar com os leitores não é suficiente. Explicar, analisar e contextualizar são características que irão se diluindo em todos os gêneros narrativos.

9) Sobre a definição de narração: as histórias estarão construídas com peças de diferentes tipos, com peças sobrepostas, com partes modificáveis​​. As histórias vão adotar novos e imprevisíveis formatos híbridos construídos com peças aparentemente desconexas.

10) Sobre o eco da mensagem: agora prevalece a importância da circulação e do compartilhado. A mensagem será coral, distribuída, enriquecida e retroalimentada durante todo o ciclo da comunicação. O eco - uma nova narração coletiva – se confunde com a mensagem.