Como se pautar com o auxílio de 2,4 milhões de páginas de um jornal

No dia 23 de maio o jornal O Estado de S. Paulo disponibilizou na internet o seu acervo digital. Agora é possível consultar as mais de 2,4 milhões de páginas do jornal desde sua primeira edição, em 1875. A iniciativa já vem mudando a rotina dos jornalistas na redação do jornal, que agora contam com mais facilidade para buscar alguma informação no acervo de 137 anos do jornal, segundo o coordenador do acervo, Edmundo Leite. Abaixo você confere um bate-papo com ele sobre a importância deste imenso material histórico para o jornalismo.

 

Jornalistmo Digital: Qual o principal papel do acervo digital do Estadão?

Edmundo Leite: Difundir um conteúdo sem igual que estava restrito a poucos e ao mesmo tempo preservar os originais em papel, que deixam de correr risco de deterioração por causa do manuseio para consulta.

JD: Por que deixar algumas restrições para não assinantes?

EL: Por várias razões, entre elas o alto custo de um trabalho dessa grandeza. Apesar de compartilhar gratuitamente parte de seus conteúdos, o Grupo Estado acredita que bons produtos devam ser pagos. Mesmo assim, quem não é assinante consegue tirar grande proveito do site do acervo. Mas por entender também que um conteúdo desse tem uma reelevância histórica, estamos fazendo convênios com diversas instituições públicas para que o Acervo Estadão seja acessado sem restrições nesses lugares. A abrangência dos convênios garante esse caráter público. Com os acordos iniciais, serão beneficiados os frequentadores da Biblioteca Nacional, Biblioteca Brasiliana USP, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Biblioteca Mario de Andrade a mais de 50 bibliotecas do Sistema Municipal de Bibliotacas, além das universidades Unicamp e Unesp. Mais convênios deverão ser acertados mais adiante, ampliando ainda mais o número de estudantes, professores, pesquisadores e acedêmicos que poderão acessar o Acervo sem restrições.

JD: Como um acervo histórico pode funcionar em um veículo que trabalha com notícias quentes?

EL: Contextualizar melhor os fatos relatados e dar agilidade na tarefa de relembrar determinados casos são as tarefas básicas e naturais. Mas o importante é que criamos um novo uso desse acervo que vai muito além do saudosismo ou do “há 100 anos, há 50 anos…” Não se trata apenas de uma ferramenta para encontrar edições antigas. É um acervo vivo. Muitas das coisas que estão lá são praticamente inéditas para muita gente. Então vamos fazendo conexões entre as notícias do passado com as atuais. No dia do lançamento, por exemplo, quando todos esperavam que saíssemos com a primeira página publicada pelo jornal, em 4 de janeiro de 1875 em destaque, optamos por destacar uma página de 1974 sobre a inauguração do Metrô em São Paulo, pois naquele dia acontecia uma greve dos metroviários que parou a cidade. A primeira frase da reportagem de 38 anos atrás não poderia ser mais apropriada: “O Metrô hoje está proibido para a população”.

JD: Você acha que o acervo pode um dia pautar o jornal?

EL: Isso já acontece. Mesmo antes do Acervo Estadão, já fazíamos isso no blog do Arquivo. No dia que aqueles prédios desabaram no centro do Rio, fizemos um post com fotos de arquivo que mostravam que um dos prédios era cheio de janelas irregulares em paredes cegas, onde não deveria haver janelas. Foi um dado a mais para mostrar os problemas dos edifícios. http://blogs.estadao.com.br/arquivo/2012/01/27/predio-que-desabou-no-rio-tinha-janelas-fora-do-padrao/. E não vai demorar a surgir fatos novos das antigas páginas do jornal. Como disse, muita coisa ali é praticamente inédita. À medida que mais pesquisadores estiverem relando esse conteúdo e cruzando com outros dados vão surgir coisas que mudarão o entendimento sobre fatos que foram contados posteriormente sem conhecimento daquele dado publicado. É o jornal ganhando uma vida nova.

JD: Algum plano para o acesso mobile deste conteúdo?

EL: Sim. Aplicativos específicos para tablets e celulares deverão ser lançados. O legal é que um acervo como esse oferece muitas possibilidades. Algumas delas devem ser anunciadas em breve.

JD: Como está sendo o retorno dos leitores? e dos jornalistas?

EL: As pessoas elogiam, escrevem relatos emocionados, contam suas histórias, de como o jornal foi importante na vida delas. E entre os jornalistas é mesma coisa, com um sentimento extra: orgulho. Seja por parte de quem trabalhou ou trabalha aqui, todos ficam orgulhosos de fazer parte dessa fantástica história de 137 anos.

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