O trem do samba

Lá vem o Fred di Giacomo e a turma da Superinteressante com novidades. Dessa vez, uma infografia gigante em HTML5 sobre a história do samba. Nada menos que onze (11) pessoas assinam essa info. Queria saber o que cada um fez, e logo mais o Fred conta, com certeza.

Criaram uma espécie de mapa do metrô, com cruzamentos entre estilos, por onde se pode assitir vídeos do You Tube com exemplos das músicas citadas.

O trabalho é incrível, sem dúvida. É possível realizar uma navegação livre, numa narrativa multi-linear, ou seguir a linha cronológica e ver a evolução do samba através do tempo. Aqui faço um pequeno reparo, que é difícil entender em que parte do mapa estamos com o deslocamento da tela. Talvez algum destaque na “bolinha” da “estação do metrô” pudesse ajudar.

Pouca gente está investindo em infografias e narrativas diferenciadas para a web no Brasil. A equipe do Fred se mantém como caso raro, apresentando grandes trabalhos.

Vale acompanhar o blog sobre Newsgames que eles mantém também.

Abaixo, pra se ter uma ideia da pesquisa feita, as fontes que eles usaram para essa infografia:

Livros:

CASTRO, Ruy. “Carnaval no Fogo”; CASTRO, Ruy. “Chega de Saudade”.; DINIZ, André. “Almanaque do Samba: a História do Samba, O Que Ouvir, O Que Ler, Onde Curtir”; LINS, Paulo. “Desde que o Samba é Samba”.

Filmes/documentários: GLOBO REPÓTER, “Os avós do Samba”; HOLLANDA, Lula Buarque de e Carolina Jabor, “O Mistério do Samba”; STEEN, Ricardo van. “Noel, Poeta da Vila”

Sites: Almanaque de Cultura Popular – http://www.almanaquebrasil.com.br; Agenda do Samba-Choro – http://www.samba-choro.com.br/; Cantoras do Brasil – http://www.cantorasdobrasil.com.br; Clique Music UOL – http://cliquemusic.uol.com.br; Clube do Tom – http://www.jobim.com.br/; Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira – http://www.dicionariompb.com.br/; Grêmio Recreativo Cacique de Ramos – http://www.caciquederamos.com.br/; MPBNet – http://www.mpbnet.com.br/

Entrevista com Rafael Kenski

Rafael Kenski é um dos grandes nomes do newsgame no Brasil, um dos pioneiros no assunto. Foi entrevistado por email pelo Carlos Nascimento Marciano, para uma monografia sobre o tema (disponível aqui em pdf). Vale ler a entrevista, que publicamos na íntegra aqui:

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011 15:17

1) Qual o programa utilizado para a produção dos newsgames?

Oi Carlos, Antes de mais nada, preciso explicar que só trabalhei de fato com o CSI – o “Paredão” foi feito quando eu já havia saído da Super e deixado o Fred no meu lugar. Então, nas respostas abaixo, falarei só do CSI, ok? Abs Rafael

O jogo do CSI é, em grande parte, crossmedia. Parte dele acontece na revista (que é em si uma ferramenta dentro desse jogo, mas que produzimos com Word e InDesign), parte dele na internet, com Flash e a ferramenta de fóruns da Abril. Houve também uma produção com modelos e fotógrafos, de onde saíram as 116 imagens todas. Mas, pensando em newsgames em geral, qualquer programa pode ser usado para produzi-los.

2) Quem participa da equipe de produção? (por favor se possível especifique nomes e funções, ou pelo menos as funções)

O CSI foi um jogo razoavelmente complexo, apesar da aparência e da jogabilidade simples. Se você der uma olhada lá na página (http://super.abril.com.br/jogos/crime/index.shtml), todos os nomes e funções estão ali. Acho que só não apareci eu, que fui uma espécie de diretor ou produtor da brincadeira toda.

3) Se existem jornalistas trabalhando na produção dos newsgames, por favor especifique as atribuições deles.

A função de um jornalista em um newsgame é quase idêntica a que ele terá em qualquer outra matéria: reunir informações e contar uma história. A diferença é que, de acordo com o meio, as informações necessárias mudam: apurar para um infográfico é bem diferente de apurar para um texto. O mesmo vale para newsgames: ele precisará ajudar o game designer a criar procedimentos convincentes e divertidos, além de criar uma mecânica que responda aos movimentos dos jogadores de forma realista (não estou falando de realismo gráfico, mas sim no que diz respeito à informação jornalística).

4) Em que casos é definido que vai ser produzido um newsgame? E quem define isso?

Varia bastante. O CSI foi escolhido porque era a matéria de capa, e a gente queria testar essa idéia de “jogos jornalísticos” (na época, ninguém tinha ainda ouvido falar de “newsgames”). Os jogos feitos imediatamente depois tinham uma justificativa parecida: era uma forma de chamar atenção para a capa. Com o tempo, foi caminhando para tentar ver que matéria “rende” um bom jogo, assim como se pensa em matérias que rendem infográficos, tabelas, etc. De um modo geral, depende da interação que o assunto permite e de alguém conseguir pensar em uma mecânica para ele. Quem decide isso são os editores e diretores (da revista, da internet ou ambos).

5) Explique um pouco mais sobre o processo de produção dos newsgames (quais as etapas, como é dividido o trabalho etc)

Começa como qualquer matéria ou infográfico: começa na definição da pauta e a apuração. A diferença é que os newsgames envolvem também o design do jogo: imaginar as diferentes mecânicas e elementos. No caso do CSI, as duas coisas foram pensadas juntas. Um repórter já havia apurado parte da matéria e, em uma primeira reunião, combinamos tudo: o que era o assunto, o que sairia na revista, o que sobraria para o jogo, qual era a dinâmica de jogo e a ilustração da matéria. Foi importante porque diminuiu o custo de produção ao dividi-lo entre revista e internet. A partir daí, criamos um roteiro do jogo, fizemos a produção das fotos, um designer e um programador montaram a ferramenta em flesh e colocamos no ar pouco depois da revista chegar às bancas.

6) Quanto tempo leva o processo de produção?

Depende do jogo. No caso do CSI foi algo como um mês, mas não é muito difícil que um jogo leve três vezes esse tempo.

7) Destaque as principais características dos newsgames que os tornam interessantes para um veículo de comunicação.

Os jogos transmitem conteúdo (como as revistas ou jornais) mas por meio de procedimentos (diferentemente de qualquer outra mídia). Eles são essencialmente educativos, ensinam as pessoas a fazerem alguma coisa. Então, já pela própria natureza dos jogos, eles trazem recursos que não estão normalmente disponíveis aos jornalistas, como envolver o leitor em um assunto, permitir a interação e a imersão e criar um modelo da realidade que se está descrevendo. Além disso, jogos estão hoje em todo lugar para todo tipo de pessoa. É uma forma de ampliar o apelo do jornalismo, levá-lo a novos públicos, usar novas linguagens e engajar o leitor de novas maneiras. É quase uma obrigação experimentar com essa mídia em um momento em que o modelo tradicional do jornalismo perde gradativamente a sua importância.

8. Pesquisas apontam que a imersão e a interatividade são dois elementos de grande importância no jogo. Esses pontos são levados em consideração nos newsgames da Super? De que forma?

Acredito que a interatividade é um pré-requisito dos jogos – um newsgame em que ninguém interage não existe. Dependendo do ponto de vista, até mesmo um texto pode ser bastante interativo. Já a imersão é mais um resultado de um jogo bem feito, da adequação da dificuldade da tarefa às habilidades do jogador. Para mim, os dois critérios essenciais para um newsgame são diversão e confiabilidade (ele não pode trazer elementos fantasiosos ou errados, da mesma forma como um infográfico ou um texto da revista não pode simplesmente mentir).

Eu assumi a área de internet da Abril em 2009. Antes disso, estava desenvolvendo ARGs e jogos publicitários para o Núcleo Jovem da Abril (do qual faziam parte Super, Capricho, Mundo Estranho, Guia do Estudante e Aventuras na História). Então, ao voltar para o lado editorial, a idéia de usar as mesmas ferramentas em jogos jornalísticos foi quase óbvia. Juntei alguns dos mesmos colaboradores que havia usado em ARGs anteriores e combinei com a redação da revista para que eles pensassem a matéria como um híbrido de revista e jogo. A partir daí, saí do processo e deixei para eles realizarem o que viria a ser o extremamente bem sucedido jogo do CSI.

Infografia interativa de código aberto

Fizemos aqui na Casa da Cultura Digital (CCD, daqui pra frente) uma infografia interativa que merece algumas linhas. Primeiro, trata-se de um trabalho do nascente grupo que chamamos de Núcleo de Infografia e Visualização de Dados da CCD.

Havíamos realizado alguns trabalhos já antes, para a revista Teoria e Debate e outros jobs. Dessa vez, unimos a agência de jornalismo Pública (Natália Viana, Ana Aranha, Fabiano Angélico), a equipe de design e desenvolvimento da Cardume, e com ajuda dos jornalistas da Scarlett (eu e Felipe Lavignatti) chegamos num modelo inovador, em que os dados todos da infografia são públicos, o código da infografia é aberto, e tudo foi usado de maneira criativa, com mapas livres, e tecnologia desenvolvida na CCD.

Com a palavra, Miguel Peixe, desenvolvedor da Cardume:

A navegação pelos dados do infográfico usa como base de dados uma planilha do Google Docs, interpretada em CSV e transformada dinamicamente em JSON para processamento em JavaScript. Ou seja, mesmo que não seja o caso de o infográfico ser atualizado, ao modificar a planilha do Google Docs, o infográfico interpreta automaticamente. Isso pode ser replicado para outros infográficos, basta estabelecer uma estrutura de cabeçalho para a planilha e alterar o código para interpretá-la corretamente.
Para cada categoria de irregularidade (cidade, programa do governo e tipo de irregularidade) fora criada uma outra planilha. Utilizando o recurso de Pivot Table do Google Docs isso foi feito automaticamente, sem precisar caçar quais são e escrever uma a uma. Dessa forma pudemos trabalhar com diferentes taxonomias dentro das irregularidades sem tomar muito recurso do sistema.
Falando especificamente da criação da planilha de cidades pude acrescentar valores que permitiram a geolocalização dentro dos mapas. A mesma planilha servindo como taxonomia de irregularidade e informação geolocalizada. Eu tinha apenas o nome da cidade e o estado, valores insuficientes para uma geolocalização, que precisa de latitude e longitude. Para resolver isso encontrei uma solução desenvolvida pelo pessoal da MapBox, um script que intepreta uma coluna, busca através de uma API pelos valores de lat-long da cidade e cria duas novas colunas preenchidas com esses valores. De forma simples e rápida tive minhas cidades mapeadas e prontas para serem usadas.
O mesmo script utilizado para geolocalizar as cidades também me permite exportar os dados em formato GeoJSON, interpretado pela tecnologia de visualização de mapas Modest Maps (com a extensão Wax e Markers.js) e pelo TileMill, software utilizado para fazer o design dos mapas.
Como eu gosto de fuçar nas coisas e gastar pouco com isso, me aventurei em fazer o nosso próprio servidor de mapas ao invés de utilizar o serviço que o MapBox oferece. Talvez isso seja história para outro relato.
Em breve, a Casa da Cultura Digital deve lançar uma oficina de mapas e usos de tecnologias livres. Se alguém tiver interesse, por favor deixe um comentário e email de contato.

Casa da Cultura Digital + Box1824

Juntamos o pessoal da Casa da Cultura Digital com o pessoal da Box 1824 pra falar sobre alguns aspectos e tendências da web, em especial fidelização: por que ser fiel a um site ou a uma marca? Mais: é importante ser fiel?

É claro que o papo tomou outros rumos, virou terapia de grupo, sessão de risadas, a eterna discussão sobre quem somos, de onde viemos e pra onde vamos.

Pelo menos, dessa vez, o áudio tá ok – na nossa conversa anterior, sobre crowdfunding, ficou só com muita vontade pra ouvir tudo. Bem, aqui também. Não teve aquela super edição, mas tá bão. Se você é da CCD, se interessa pela CCD, ou é amigo de alguém que participou, pode achar interessante.

Se não for nada disso, bem. Taí o podcast.

 

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Como se pautar com o auxílio de 2,4 milhões de páginas de um jornal

No dia 23 de maio o jornal O Estado de S. Paulo disponibilizou na internet o seu acervo digital. Agora é possível consultar as mais de 2,4 milhões de páginas do jornal desde sua primeira edição, em 1875. A iniciativa já vem mudando a rotina dos jornalistas na redação do jornal, que agora contam com mais facilidade para buscar alguma informação no acervo de 137 anos do jornal, segundo o coordenador do acervo, Edmundo Leite. Abaixo você confere um bate-papo com ele sobre a importância deste imenso material histórico para o jornalismo.

 

Jornalistmo Digital: Qual o principal papel do acervo digital do Estadão?

Edmundo Leite: Difundir um conteúdo sem igual que estava restrito a poucos e ao mesmo tempo preservar os originais em papel, que deixam de correr risco de deterioração por causa do manuseio para consulta.

JD: Por que deixar algumas restrições para não assinantes?

EL: Por várias razões, entre elas o alto custo de um trabalho dessa grandeza. Apesar de compartilhar gratuitamente parte de seus conteúdos, o Grupo Estado acredita que bons produtos devam ser pagos. Mesmo assim, quem não é assinante consegue tirar grande proveito do site do acervo. Mas por entender também que um conteúdo desse tem uma reelevância histórica, estamos fazendo convênios com diversas instituições públicas para que o Acervo Estadão seja acessado sem restrições nesses lugares. A abrangência dos convênios garante esse caráter público. Com os acordos iniciais, serão beneficiados os frequentadores da Biblioteca Nacional, Biblioteca Brasiliana USP, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Biblioteca Mario de Andrade a mais de 50 bibliotecas do Sistema Municipal de Bibliotacas, além das universidades Unicamp e Unesp. Mais convênios deverão ser acertados mais adiante, ampliando ainda mais o número de estudantes, professores, pesquisadores e acedêmicos que poderão acessar o Acervo sem restrições.

JD: Como um acervo histórico pode funcionar em um veículo que trabalha com notícias quentes?

EL: Contextualizar melhor os fatos relatados e dar agilidade na tarefa de relembrar determinados casos são as tarefas básicas e naturais. Mas o importante é que criamos um novo uso desse acervo que vai muito além do saudosismo ou do “há 100 anos, há 50 anos…” Não se trata apenas de uma ferramenta para encontrar edições antigas. É um acervo vivo. Muitas das coisas que estão lá são praticamente inéditas para muita gente. Então vamos fazendo conexões entre as notícias do passado com as atuais. No dia do lançamento, por exemplo, quando todos esperavam que saíssemos com a primeira página publicada pelo jornal, em 4 de janeiro de 1875 em destaque, optamos por destacar uma página de 1974 sobre a inauguração do Metrô em São Paulo, pois naquele dia acontecia uma greve dos metroviários que parou a cidade. A primeira frase da reportagem de 38 anos atrás não poderia ser mais apropriada: “O Metrô hoje está proibido para a população”.

JD: Você acha que o acervo pode um dia pautar o jornal?

EL: Isso já acontece. Mesmo antes do Acervo Estadão, já fazíamos isso no blog do Arquivo. No dia que aqueles prédios desabaram no centro do Rio, fizemos um post com fotos de arquivo que mostravam que um dos prédios era cheio de janelas irregulares em paredes cegas, onde não deveria haver janelas. Foi um dado a mais para mostrar os problemas dos edifícios. http://blogs.estadao.com.br/arquivo/2012/01/27/predio-que-desabou-no-rio-tinha-janelas-fora-do-padrao/. E não vai demorar a surgir fatos novos das antigas páginas do jornal. Como disse, muita coisa ali é praticamente inédita. À medida que mais pesquisadores estiverem relando esse conteúdo e cruzando com outros dados vão surgir coisas que mudarão o entendimento sobre fatos que foram contados posteriormente sem conhecimento daquele dado publicado. É o jornal ganhando uma vida nova.

JD: Algum plano para o acesso mobile deste conteúdo?

EL: Sim. Aplicativos específicos para tablets e celulares deverão ser lançados. O legal é que um acervo como esse oferece muitas possibilidades. Algumas delas devem ser anunciadas em breve.

JD: Como está sendo o retorno dos leitores? e dos jornalistas?

EL: As pessoas elogiam, escrevem relatos emocionados, contam suas histórias, de como o jornal foi importante na vida delas. E entre os jornalistas é mesma coisa, com um sentimento extra: orgulho. Seja por parte de quem trabalhou ou trabalha aqui, todos ficam orgulhosos de fazer parte dessa fantástica história de 137 anos.

De cliques e histórias: o futuro do documentário

Por Camila Agustini

Escrever é sempre um ato de comunicação. Assim como fazer filmes. Nos cursos de preparação para apresentação de projetos para potenciais investidores, a mesma pergunta é feita uma e outra vez: por que isso interessaria a mais alguém?

A pergunta serve para mudar o eixo da ação. Para sentarmos do outro lado – no meu caso, da tela – e avaliar até que ponto vale a pena investir (tempo, energia e dinheiro) numa ideia.

Sendo sincera, eu não pensei em nada disso quando me inscrevi para participar de um novo documentário da NFB: o Au Suivant. Dirigido por Danic Champoux, o projeto pretende entrevistar 150 pessoas que vivem em Montreal sobre os mais diversos temas: família, sonhos, passado, futuro, felicidade, absurdo, memórias, para compor um mosaico humano sobre a cidade nos dias de hoje. Eu só queria ver como era um set numa das mais interessantes produtoras do mundo!

Eu já tinha me esquecido disso, quando me chamaram para participar hoje de uma entrevista. O que eu não sabia era que eu teria que responder tudo em francês. Falar sobre tudo que nos faz vivos já é bastante complicado na língua que nascemos sabendo, mas em um idioma que você conjuga basicamente (e por basicamente entenda-se: sujeito + verbo em qualquer tempo + objeto) faz qualquer um parecer um Neandertal.

Eu até agora não sei bem o que eu falei quando me perguntaram por que eu quis ser cineasta. E acho que nem o Champoux, nem ninguém da equipe entendeu. Mas se eu tivesse tido um pouquinho mais de tempo para articular minha resposta eu diria algo como “para sonhar livremente”. Não que o Direito não liberte. [N.E.: Camila é formada em Direito, e é também cineasta formada pela Escola de Cine e TV de Cuba] Em muitos casos é a única ferramenta de libertação, mas o cinema (talvez melhor dito, o audiovisual) permite algo que o Direito raramente permite: experimentar impunemente. (ou quase!)

Talvez por isso, a conversa semi-gutural desta manhã me fez pensar nos documentários interativos que estão tão na moda atualmente e sobre os quais tenho pensado muito desde o Festival Internacional da Cultura Digital.Br quando levamos para o Rio de Janeiro o Hugues Sweeney, principal produtor de conteúdos interativos da NFB.

O Au Suivant será um documentário convencional. Talvez um dos últimos que a NFB vai produzir já que a instituição está sofrendo com os cortes de verbas do governo conservador do Canadá. Espera-se para o segundo semestre uma reformulação que centrará os esforços de produção nas chamadas novas mídias, sobretudo nos conteúdos ditos interativos.  (E quem não tem nem ideia do que seja um documentário interativo terá nos próximos parágrafos uma lista de links para navegar e explorar essa nova linguagem audiovisual.)

Tenho participado de fóruns sobre o “futuro do cinema” e parece haver um certo consenso de que a interação é a bola da vez. Esse pelo menos era o tom dominante no último Hot Docs, em Toronto, no mês passado, onde conheci vários projetos muito interessantes como o Mapping Main Street: projeto colaborativo sobre as diversas “Main Street” (algo como Ruas 7 de setembro no Brasil!) espalhadas por todo o território dos Estados Unidos.

Os desenvolvedores desta plataforma estão agora criando uma ferramenta de curadoria e remix muito interessante o Zeega Project, que permite jogar com material recoletado em Youtube, Flickr, Vimeo, Sound Cloud etc.

No Hot Docs também estava o pessoal da Secret Location, agência multipremiada de produção de conteúdo interativo responsável por projetos como o grandioso D-Day to Victory, documentário interativo que faz uma reconstrução impressionante dos cenários da 2ª Guerra Mundial para revelar as memórias dos veteranos de guerra que ainda estão vivos no Canadá.

A agência apresentou ainda uma campanha bem humorada para arrecadar recursos para tratamento de um paciente com câncer no testículo: o Stanfield’s: The Guy At Home In His Underwear. Uma mistura de Big Brother com Facebook que rendeu ao paciente U$ 25 mil dólares em 7 dias!!

Vindo do outro lado do mundo, mais especificamente da Austrália, John Mac Farlane apresentou os projetos da SBS Documentary: Africa do Australia, sobre imigração africana para aquele país, Goa Hippy Tribe, sobre o movimento hippie e o The Block: stories from a melting place. Este último dedicado a “recuperar” a história de um bairro de Sidney tradicionalmente indígena que atualmente é uma das áreas mais violentas da cidade. Para isso, eles armaram uma visualização 360 graus do bairro, tipo Google Maps, e estão permitindo que os moradores do bairro insiram suas histórias, georreferenciando no mapa criado. O interessante disso é que segundo o Mac Farlane, essa iniciativa já teve um impacto positivo no nível de criminalidade na área em um interessante processo de reconhecimento dos moradores como pertencentes àquela localidade. Ideia boa para o pessoal do Baixo Centro em São Paulo.

Um monte de coisa legal, mas todo mundo só falava mesmo do último projeto interativo da NFB: o Bear 71 que parece ter causado frisson com uma mega instalação multimídia na última edição de Sundance. O grande diferencial é que a plataforma desenvolvida por aqui conecta os diferentes “usuários” e os expõe tal qual uma câmera de vigilância, invertendo a lógica de “bicho de zoológico” onde espectador passa a ser também objeto de interesse dos demais usuários da rede. A Point of View, revista dedicada só a documentários e que não está disponível na web, dedicou uma ampla reportagem sobre a experiência de navegar no projeto.

No vídeo a seguir, de 2 minutos, dá para entender um pouco melhor como é este projeto:

Além disso tudo, os participantes do Hot Docs elegeram seus documentários interativos favoritos e além do próprio Bear 71, Pine Point,  God’s Lake Narrow eTake This Lollipop, que não é exatamente um documentário,  foram os mais citados.

Tudo muito bonito, bem feito e “entretenido” (para usar uma expressão chilena). Mas devo confessar que nada disso realmente me parece “o futuro do documentário”. Pelo menos não para o tipo de espectador que eu sou. Por uma questão crucial: como é que eu tenho paciência para ver um filme de 3 horas e praticamente não consigo deter minha atenção por mais de 10 minutos em nenhum desses projetos? Ainda que muitos toquem em temas que me são caros: revitalização dos centros urbanos, preservação ambiental, história ou sentido de comunidade…

Acho que a grande questão aqui tem a ver com o formato. Todos esses projetos são norteados por uma apresentação descritiva da realidade onde alguém conta para você, espectador, da forma mais didática possível, o que está acontecendo. E no meio do caminho há um leque de opções que te dão mais e mais informação, numa lógica de expansão de conteúdo muito parecida com a própria navegação na rede. Exigindo, inclusive, cliques para avançar na narrativa. A diferença aqui é que alguém, no caso os autores do projeto, te pega pela mão e te conduz nessa estranha viagem que é compreender o mundo à sua volta. O que não deixa de ser um paradoxo já que o legal da rede, e por rede aqui digo internet, é que cada um é livre para ir onde quiser num universo de possibilidades infinitas.

Fico aqui pensando qual a diferença, em termos de conteúdo, com os documentários que me levam até o cinema. Ou seja, aqueles que me fazem sair de casa, pegar um ônibus/metrô, pegar fila, pagar e sentar para não fazer nada mais que observar.

Eu não sei. Mas talvez seja exatamente isso: liberdade. Os filmes que eu vou assistir me provocam, mas ao mesmo tempo me deixam livres para pensar o que eu quiser, do jeito que eu quiser, na hora que eu quiser, sem tentar me explicar muito o que está acontecendo.  São esses filmes que muitas vezes não saem da minha cabeça por anos e anos depois de terminada a sessão. Como esses dois aí embaixo:

Obs. No Hot Docs conheci uma pesquisadora do Open Doculab do MIT, a Katie Edgerton, que publicou recentemente um post com reflexões sobre o futuro dos documentários.

Obs.2: Se você quiser saber mais do Hot Doc, aqui dá para acompanhar as conferências do ano passado!

N.E.: Este texto foi publicado originalmente no novíssimo blog da Camila, o Eu Quero uma Vida Lazer.

dados abertos no estadão: o basômetro

O Estadão sai na frente dos jornais brasileiros ao seguir uma lógica já aplicada em alguns dos maiores jornais do mundo, como o Guardian ou o New York Times: jornalismo em bases de dados abertas. O site lançou uma ferramenta interativa que permite cruzar dados públicos, antes de difícil acesso, em separado, e inacessíveis até então da maneira visual como o Estadão apresenta em seu site: é o basômetro, que apresenta quais parlamentares votam mais de acordo com o governo ou com a oposição; ou seja, mede a taxa de governismo dos deputados (quem é mais base de governo ou não).

Mas não apenas foi gerada uma ferramenta de visualização complexa e de utilidade incontestável – o que já seria um avanço em relação ao jornalismo interativo praticado na internet -, mas toda a programação está aberta, disponível a quem quiser avançar pelos códigos em outras searas.

A equipe do Estadão Dados explica:

Os códigos e os dados no Basômetro estão disponíveis no Github e no Google Docs ( votos deputados em 2012 , votos deputados em 2011 , lista de votações na Câmara , votos senadores (2011 e 2012) , votações Senado ).

O Basômetro se inspirou no projeto Camaraws, de Leonardo Leite e Saulo Trento (PoliGNU – Grupo de Estudos de Software Livre da Poli-USP), que usou os resultados de votações na Câmara dos Deputados para avaliar o grau de semelhança entre os partidos (veja aqui).

O Estadão Dados é uma equipe formada por jornalistas, programadores e designers: José Roberto de Toledo, Daniel Bramatti, Eduardo Malpeli e Amanda Rossi. No projeto do Basômetro, colaboraram também Carlos Lemos, Bruno Lupion e Ricardo Periago. O Basômetro também recebeu valiosas contribuições de Fabio Sales, diretor de Arte do Grupo Estado.

A equipe também nos enviou um breve texto detalhando o processo de criação, e explicando a façanha. Atenção para uma opção já comum entre os maiores desenvolvedores, mas no Brasil pouco explorada, que é a opção por códigos alternativos ao Action Script (Flash), que rodem também em ipads, iphones, e demais equipamentos móveis.

Quando o Basômetro começou a ser criado, os resultados das votações nominais do Congresso estavam disponíveis nos sites da Câmara e do Senado apenas como arquivos isolados – um para cada votação. Não havia ainda uma visão agregada de todas as votações. Por isso, uma das primeiras etapas do trabalho foi selecionar os dados, organizá-los e limpá-los – só na Câmara, trabalhamos com mais de 50 mil linhas de dados. Todas as ferramentas que utilizamos neste processo são livres e gratuitas, como o Open Office e o Google Refine.

Ao mesmo tempo, a equipe começou a desenhar e a testar formas visuais de apresentar a informação, que permitissem ao usuário tirar conclusões rápidas, mas também possibilitasse que ele aplicasse diversos tipos de filtros para realizar análises pessoais. Por exemplo, escolher o período de tempo analisado, o partido, o estado ou o parlamentar. A ferramenta foi escrita em Javascript. A escolha da linguagem objetivou deixar a tecnologia acessível aos desenvolvedores de web. Além disso, o Javascript permite que a ferramenta rode em todas as plataformas computadores, tablets, smartphones.

Um dos princípios do Estadão Dados é a transparência. Por isso, todos os dados e códigos estão disponíveis (no Google Docs e no GitHub) e podem ser reutilizados livremente.

G1 e o especial sobre o Facebook

O G1 lançou uma reportagem especial interativa sobre o Facebook, agora que suas ações estão abertas na bolsa e a empresa está ainda mais valiosa, e seus acionistas mais ricos. A reportagem entra como um dos grandes exemplos recentes de trabalhos criativos, com opções interativas bastantes atrativas.

Não é o primeiro trabalho que explora o HTML5 no Brasil como narrativa jornalística. O próprio G1 já tinha lançado um especial sobre o Corinthians, no final de 2011, outro no dias das mães (não estou mais achando o link, quem me passa?), e o UOL andou explorando a linguagem num especial sobre o terremoto do Japão. Todos testam o que vimos chamando de sites-reportagem, uma linha bem pouco explorada, em geral, no jornalismo brasileiro, mas muito bem executada em outros países.

A ideia do G1 foi utilizar o formato da linha do tempo do próprio Facebook como moldura para seu conteúdo. Ficou interessante, bem executado, especialmente as brincadeiras com a linguagem do próprio FB, como os “curtiu”, e memes que circulam por lá. Seria legal também ter feito, além do site-reportagem, uma timeline como fez o New York Times, usando o próprio timeline do Facebook para contar uma história. O NYT contou ali sua própria história, mas o G1 poderia ter brincado com a meta-linguagem da coisa e contar a história do Facebook no Facebook – o que permitiria aumentar os acessos à página oficial do G1 naquela rede. O NYT tem 2 milhões de “curtiu” na sua página.

Um detalhe sobre a estrutura do HTML5: seria perfeito se, ao rolar a página pra baixo, os anos fossem mudando automaticamente. Como está, os anos ficam marcados independente da navegação pela rolagem.

Muito boas as interações com notícias do G1 e a rádio com músicas do Roberto Carlos.

Abaixo, Amanda Demetrio, repórter deste especial do G1, conta como foi o processo de criação:

A ideia de criar um infográfico tipo “Linha do Tempo” sobre a história do Facebook veio logo no começo de fevereiro, quando o Facebook apresentou os documentos para realizar o IPO. Sabíamos que teríamos que preparar um material longo sobre o assunto   e que teríamos que contar a história da rede social de algum jeito. Importante frisar que a ideia não foi minha, e sim do outro repórter que trabalha aqui, o Gustavo Petró (@gustavopetro).

 

Como o Petró é mais focado em games e eu já tinha lido um livro sobre o Facebook e feito um especial sobre o assunto, decidimos que eu ia ficar mais focada nisso, mas todos ajudaram muito, inclusive a Daniela Braun, nossa editora (@dani_braun), e a Laura Brentano (@laurabrentano), também repórter da editoria.

 

Pegamos muito material envolvendo as origens da empresa no “Bilionários Acidentais”, do Ben Mezrich, e no “Efeito Facebook”, do David Kirkpatrick. Além disso, usamos informações das fontes que vemos todos os dias para fazer uma ronda por aqui: blogs de tecnologia e os grandes jornais. Montei um texto grande e enviamos pro pessoal da arte.

 

Na arte, o Gustavo Miller (@gustavomiller) coordenou todo o processo e deu ideias ótimas para deixar tudo mais interativo. Também teve a equipe de arte: Dalton Soares, Daniel Roda, Elvis Martuchelli, Leo Aragão e Rafael Soares. A pesquisa de vídeos foi da Flavia Rodrigues.

 

Depois que enviamos o texto pra lá, rolou essa ideia de fazer uma coisa mais interativa, com itens que poderiam ser clicados pelas pessoas –no infográfico dá, por exemplo, pra você ouvir a música “Eu quero apenas”, do Roberto Carlos, na Rádio Globo. A ideia também era incorporar no infográfico algumas das principais “brincadeiras” que são feitas dentro do Facebook. Temos um “Keep Calm”, uma frase falsa da Clarice Lispector e um “Como as pessoas me veem”, por exemplo.

 

Em termos de linguagem, pensamos em usar muito do que acontece dentro do Facebook para contar algumas partes da história. Usamos muito o “cutucar” e o “curtir”. No post do filme sobre o Facebook, colocamos, por exemplo, que “A Academia curtiu”.

 

Houve uma longa pesquisa de vídeos para ilustrar certos momentos da história do Facebook também.

Com mapa e perdido

É muito comum no jornalismo um pedido de infografia sobre um assunto qualquer e o resultado final ser muito bonito, mas pouco informativo ou prático. Este mapa do estadao.com.br, No rastro português, é um bom exemplo disso. A apresentação é linda. Ao entrar no especial, os movimentos com o mouse também impressionam, assim como todo o desenho dos boxes e do mapa. O conteúdo também é bom. É uma grande reportagem sobre a herança portuguesa nos países que tiveram sua colonização. Agora, para acessar todo este material, para navegar pelo conteúdo, você vai precisar se desdobrar um pouco.

A forma escolhida para apresentar estas nove colônias foi um mapa. Melhor escolha impossível. Aqui você consegue ver o tamanho da expansão que Portugal conseguiu. Ao clicar em cada um destes pontos abre-se um box com um pequeno texto sobre o local. Ao fim do texto, um Saiba Mais pode ser clicado para te levar para o texto completo em outra aba.

Nesta outra aba, você encontra a matéria relacionada com o ponto. Ou seja, o pequeno texto do box e mais uns poucos parágrafos. Para voltar ao especial, só trocando de aba, já que não há link algum em nenhuma das nove matérias. Em resumo, o especial é uma lista de nove links para matérias que fazem parte de uma grande reportagem.

É fácil notar que todo o material aqui veio do impresso e foi adaptado (tem até um leia mais na Página 12 na matéria de Angola). Ainda tem a matéria de apresentação da reportagem, que só pode ser acessado na tela inicial do infográfico no Saiba Mais. Se você não clicar ali, você não vai achar tão fácil este texto. Nesta matéria principal há links para os outros textos, mas somente dois, inexplicavelmente.

Devem ter gasto um bom tempo fazendo o mapa animado e os desenhos. O resultado estético ficou lindo, mas pouco prático. Nem sempre o conteúdo do papel é transposto da melhor forma para a internet e No rastro português é um exemplo disso. Para finalizar, deixo os links aqui de cada um dos nove pontos. Não é tão bonito como no mapa, mas é tão eficaz quanto.

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E tem mais esse, sobre os eventuais riscos antes de viajar.