Cursos especializados em jornalismo digital

Muitos procuram este site procurando informações sobre cursos relacionados ao jornalismo digital disponíveis no Brasil. Para facilitar essa busca, separamos alguns desses cursos e montamos uma breve lista – e por favor nos envie na caixa de comentários sugestões para outros que conhecem e ficaram de fora.

No lugar de colocar das descrições dos cursos, listamos algumas das disciplinas para ter uma ideia do que se trata. Algumas aulas já começaram, então é legal ficar de olho para a montagem de novas turmas.

Master em Jornalismo Digital (Pós-graduação)
www.masteremjornalismo.org.br/master/digital
Oferecido por: Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS) e Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra (Pamplona, Espanha). As aulas são em São Paulo
Preço: R$ 15 mil (para um participante). O curso tem uma opção mais em conta para empresas que levam mais de um funcionário e há bolsas de estudo
Algumas disciplinas: Planejamento estratégico de conteúdos, Veículos puros de internet, Linguagem jornalística nos meios digitais, Convergência multimídia das redações, Novos formatos e gêneros multimídia, Linguagem jornalística nos meios digitais, Tablets e Jornalismo e web semântica

Tecnologia em Produção Multimídia (Graduação) / Senac
bit.ly/qUX0sv
Oferecido por: Senac (São Paulo). Esse curso tem uma veia forte para o lado do design e da tecnologia.
Preço: O curso tem duração de dois anos, com mensalidade de R$ 534.
Algumas disciplinas: Análise e Gestão na Produção Multimídia, Áudio Digital, Desenvolvimento: Aplicações, Direito Digital, História da Arte: Mídias Analógicas e Digitais, Linguagem Audiovisual, Tecnologia Digital: Interfaces Digitais

Jornalismo Multimídia na Una (Graduação)
www.una.br/curso/graduacao/jornalismo-multimidia
Oferecido por: Centro Universitário Una (Minas Gerais)
Preço: Mensalidade de R$  728 (valor para 2011). O curso dura 7 semestres.
Algumas disciplinas: Infografia, Produção e Edição Audiovisual, Reportagem Multimídia, Produção e Edição Multimídia, Tendências do Jornalismo Multimídia

Jornalismo Multimídia na Unimep (Pós-graduação)
bit.ly/mPdYMu
Oferecido por: Unimep de Piracicaba. O curso é no Campus Taquaral
Preço: 20 parcelas de R$ 363, mas fique ligado nos ajustes a cada 12 meses
Algumas disciplinas: Concepção de Produtos Jornalísticos para Web, Cultura Digital e Convergência Midiática, Design e Infografia Aplicados ao Jornalismo, Inclusão Digital e Cidadania, Novas Mídias e Legislação, Reportagem e Narrativa Multimídia

Jornalismo Multimídia na PUC-SP (Pós-graduação)
cogeae.pucsp.br/cogeae/curso/327
Oferecido por: PUC-SP. As aulas são na Unidade Consolação
Preço: O curso faz parte de um programa de especialização da PUC. No programa, cada disciplina sai por R$ 1.550, mas é preciso conferir como isso se aplica ao curso específico de jornalismo multimídia
Algumas disciplinas: Imagens Contemporâneas: Intercâmbios e Interfaces, Informação e Tecnologia, Produção e Análise de Imagens Digitais, Design, Programação Visual e Infografia, Tecnologias de Áudio e Vídeo (Teoria)

Jornalismo Digital na PUC-RS (Pós-graduação)
bit.ly/pTC82W
Oferecido por: PUC do Rio Grande do Sul
Preço: Inscrição de R$63 e 18 parcelas de R$ 500 (para o público geral)
Algumas disciplinas: Jornalismo e sistemas de informação, Produção em hipermídia II: audiovisual, Jornalismo digital e mobilidade, Jornalismo digital e sociabilidade, Gestão de produtos digitais

Introdução à Infografia e Visualização para Jornalistas (Curso à distância)
bit.ly/rtHise
Oferecido por: Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas. As aulas são online e em português
Preço: Não especificado na página de anúncio do curso.
Algumas disciplinas: Não especificado na página do curso, mas o professor será Alberto Cairo, diretor de infografia da revista Época e um dos mais premiados infografistas do mundo.

 

Jornalismo bem planejado funciona melhor, por Celso Nucci

Por Celso Nucci*, maio de 2011

Planejar o jornalismo é exercitar a consciência de que esse ofício é, antes de tudo, um compromisso dos jornalistas com seus leitores, ouvintes ou telespectadores. Que eles estão em primeiro lugar e que suas necessidades e interesses serão respeitados. O planejamento é o momento em que se estabelece o conceito das publicações em sintonia com essas necessidades e os jornalistas amarram seu fazer ao cumprimento das metas e do compromisso definido com os leitores (vamos chamar assim todos esses cidadãos que têm direito à comunicação).

Planejar também é saber que a qualidade do jornalismo entregue ao cidadão usuário tem que ser checada e aferida periodicamente, pois desvios, voluntários ou não, podem causar danos irreversíveis à qualidade editorial e perda de leitores ou de audiência.

Em muitas publicações on-line ou impressas, em programas de tevê e de rádio percebe-se falta de amarração conceitual sobre o direcionamento editorial e a relação com o leitor. É comum, ao navegar por sites jornalísticos ou folhear publicações impressas e ler notícias, matérias, reportagens, artigos, notas, seções, o leitor ficar desnorteado com a confusão. As perguntas são inevitáveis: qual a intenção ao publicar isso? Com quem esses jornalistas estão tentando se comunicar?

Há redações que não têm uma missão para sua publicação e que param pouco para discutir os caminhos que estão trilhando, para quem estão escrevendo e para analisar a qualidade do jornalismo que entregam aos leitores. Impera um pragmatismo excessivo, marcado pela ausência de objetivos claros e de controle de qualidade no processo editorial.

É comum entre os jornalistas haver uma baixa sintonia a respeito da missão e dos objetivos de sua publicação junto aos leitores. A ausência de planejamento editorial resulta na falta de orientação clara para os envolvidos e em risco constante de desvios de foco.

A busca da qualidade editorial, base do sucesso de uma publicação, pede uma sistemática de planejamento que envolva todos os jornalistas na discussão dos seus caminhos editoriais. É nesse contexto que vamos tratar do Plano Editorial, um instrumento básico para planejar e monitorar a qualidade editorial de publicações.

Plano editorial: quando os jornalistas organizam suas ideias
A principal função de um plano editorial é organizar o pensamento de todos os envolvidos sobre uma publicação, seja ela impressa, on-line, televisiva ou radiofônica. O plano editorial que tem os seguintes pressupostos:

  • Representa a visão da redação sobre a publicação e sua relação com o leitor.
  • Deve ser alterado de acordo com as necessidades de uma realidade mutante.
  • Serve de insumo formal da redação para o plano de negócios.
  • Deve ser refeito no mínimo anualmente.
  • É negociado entre a redação e a direção da empresa, no caso de redações que se reportam a outros níveis hierárquicos dentro de empresas, e assim se torna a bússola da publicação.

A estrutura básica do plano editorial é composta dos seguintes pontos: missão, objetivos, o leitor, cenário, histórico da publicação, fórmula editorial e ações. Esses pontos estão indissoluvelmente ligados entre si e cada um leva ao desenvolvimento do seguinte. O conjunto é o plano editorial que expressa o pensamento organizado sobre uma publicação. Pode-se utilizar o plano editorial para criar uma nova publicação ou para administrar publicações existentes.

No início da atividade de planejamento editorial os planos editoriais produzidos podem ter qualidade bastante desigual, pois os jornalistas ainda estarão habituando-se a pensar e discutir seu fazer e isso leva algum tempo. A qualidade de um plano editorial também depende muito do envolvimento e da liderança da direção da redação – verdadeiro condutor do planejamento editorial. A qualidade do plano deixa claro quanto essa liderança está envolvida e comprometida com o processo.

A história escrita
Para as publicações que já têm uma história de vida, o plano editorial é iniciado com a construção de um histórico editorial que proporciona aos jornalistas a visão da publicação como um processo e registra o que aconteceu desde o início. É um resgate da memória que obriga os jornalistas a refletir sobre a vida da publicação e as diversas fases por que passou.

Para escrever o histórico de publicações mais antigas é preciso fazer verdadeiras reportagens para recuperar o passado, com pesquisas e entrevistas com profissionais que por ali passaram. Quando se tem um bom histórico por escrito, cada novo profissional que chega à redação tem à mão um texto que o informa sobre a trajetória percorrida até aquele momento e permite a ele atuar consciente de que a publicação é fruto de um processo e de um relacionamento mutante com os leitores que, por sua vez, também são mutantes na sociedade em contínuo desenvolvimento.

Conhecer melhor o leitor
Uma etapa importante na realização do plano é o desenho do leitor que a equipe de redação deve elaborar. Esse é um exercício para organizar a visão que os jornalistas têm sobre os seus leitores baseada na experiência e na intuição, sem a ajuda de pesquisas. O objetivo dessa prática é afinar os jornalistas para focar um leitor único. Elabora-se uma relação de pelo menos 20 características de comportamento, atitudes e valores que se imaginam serem atributos do leitor da publicação. Por meio desse conjunto de características busca-se construir uma imagem orgânica e coerente do leitor projetado.

Quando o resultado desse processo é o desenho de um leitor que pode quase ser visualizado em carne e osso, este é um sinal de que é boa a percepção do leitor pela equipe. Há casos em que o perfil resultante mostra uma mistura mal feita de ingredientes, desenha um leitor que soa falso, e isso pode ser um sinal de que a redação entende mal quem é o seu leitor. Nesse caso é preciso repetir o exercício até que a equipe chegue a uma visão coerente. Quando uma redação não consegue essa visão depois de várias tentativas, isso pode indicar falta de foco da publicação que se examina ou cuja ideia se planeja.

Depois de construído o perfil intuitivo do leitor, é preciso identificar quais são suas necessidades e como a publicação se propõe atendê-las, além de ver quais são as tendências percebidas nesses leitores e como a redação está se comunicando ou vai se comunicar com eles.

Cenário: como vai a vida lá fora
Nessa discussão a equipe identifica e registra o que está acontecendo nos cenários mundial e brasileiro, sob a ótica temática da publicação. Isso permite situar os leitores nos cenários e analisar as possíveis implicações e impactos em suas vidas. Proporciona uma visão dinâmica do país e do mundo, da inserção dos leitores nesse panorama e como a publicação pode atuar atendendo necessidades desses leitores, muitas vezes antecipando-se a eles.

Com o grande aumento da velocidade das informações, das mudanças tecnológicas e a presença imponente da Internet, o cenário tende a ser cada dia mais mutante. As publicações on-line precisam ser avaliadas com mais frequência. Para isso é indicado que a redação promova encontros sistemáticos para discutir cenário, suas mudanças e tendências. O que permitirá avaliar com mais rapidez quais os impactos das transformações do cenário, na publicação e em seus leitores e como a publicação deve responder editorialmente às mudanças contínuas.

Missão e objetivos: o que a publicação quer ser na vida
A missão de uma publicação é sua identidade, é a razão de sua existência. Se uma publicação não tem uma missão por escrito, cada jornalista da equipe tem o direito de imaginar uma missão para ela. Isso pode dar origem a muitos desencontros editoriais e à falta de foco no leitor almejado. A missão de uma publicação deve ser objeto de acordo e envolvimento de todos da equipe.

A tarefa de estabelecer a missão de uma publicação é trabalhosa. Boa parte dos jornalistas está pouco habituada a discutir conceitos sobre seu trabalho diário. Assim, durante uma primeira rodada para se fazer um plano editorial, pode-se chegar a uma missão muito longa, cheia de adjetivos, advérbios e gerúndios. Quando isso acontece é bom rever a redação do texto. Uma boa missão é concisa, precisa e construída com substantivos e verbos. Cada palavra utilizada na missão deve ter um significado claro que se transforme em objetivo da publicação. Cada missão deve ser burilada e melhorada até que haja consenso na equipe. É um trabalho às vezes demorado, mas no qual vale a pena investir, pois todo o desenvolvimento do plano editorial depende de uma boa missão. Pode também acontecer que uma missão considerada pronta pela equipe seja totalmente modificada durante as discussões.

Um bom exercício a ser feito com uma publicação que tem uma missão estabelecida e que tenta se pautar por ela é analisar a publicação que está no ar ou impressa levando em conta quatro pontos:

  1. A boa definição e a clareza da missão escrita.
  2. Até que ponto a edição ou programa ou site analisado corresponde à missão e atende a ela.
  3. Quanto a fórmula editorial, ou seja, a pauta, o equilíbrio de matérias e seções, noticiário, reportagem, imagens, sustenta a missão da publicação.
  4. Se o design, projeto gráfico e a produção da publicação são condizentes com a intenção editorial expressa na missão.

Se a missão está clara e bem enunciada, cada palavra de seu texto desencadeia um objetivo no plano editorial. Objetivos são os pontos que sustentam a missão e permitem que ela se realize. Cada objetivo tem a função de detalhar um dos compromissos da missão e encaminhar a sua viabilização. É importante assegurar que a realização do conjunto de objetivos resulte no cumprimento da missão.

Quando temos uma boa missão, objetivos bem amarrados a ela e um desenho claro do leitor que se deseja atingir, já se sabe o que a publicação quer ser na vida. Então é preciso partir para a prática e estruturar a fórmula editorial e as ações para realizá-la.

Uma boa fórmula editorial e mão na massa
A fórmula editorial é a receita da publicação e deve ser a materialização da missão e dos objetivos dessa publicação. Seus ingredientes variam de acordo com a natureza do veículo para o qual o plano editorial está sendo feito. O ponto básico, onde tudo começa, é a estrutura física que marca os limites de espaço ou tempo da publicação, seja o número de páginas de uma publicação on-line ou de uma revista ou jornal impressos, ou o tempo, no caso de programas de rádio ou de televisão.

Detalham-se os tópicos do conteúdo jornalístico da publicação, cada um deles com seu conceito resumido. O projeto gráfico também deve ter ali seus conceitos básicos delineados e explicitada a ligação entre a identidade visual e as seções de conteúdo.

A seguir devem ser registradas todas as ações necessárias para a execução da fórmula editorial. Cada ação deve ser acompanhada de seu custo, duração e prazo para realização.

De posse de uma fórmula editorial bem estruturada, equilibrada e harmônica pode-se lançar uma publicação com boa chance de sucesso. Do contrário, a probabilidade de dar cabeçadas é grande. A história de lançamentos de publicações que não foram aceitas e fecharam rápido é abundante em bons exemplos. A análise de um port-fólio de fracassos (os lançamentos que não deram certo) pode ser muito rica nesse sentido.

A importante revisão anual
A revisão anual do plano editorial de uma publicação tem a função de analisar a qualidade editorial da publicação que está sendo entregue aos leitores e as questões internas da redação. Essa revisão avalia também a relação direta entre a qualidade da publicação e a qualidade dos profissionais que a fazem. Ao analisar a qualidade da publicação, a redação revisa o seu trabalho e identifica os pontos fortes e fracos de seu desempenho. A partir daí estabelece os caminhos para melhorar ainda mais os pontos fortes e eliminar os pontos fracos.

São discutidos pontos como imagem, foco no leitor, identidade, pauta, reportagem, texto, edição, correção gramatical, fotografia, ilustração, imagem, projeto visual, fluxo de produção, monitoramento da qualidade. A análise cobre todas as etapas do processo de produção jornalística e editorial da publicação. Dessa discussão surgem as oportunidades e os riscos a que está sujeita a publicação. E as soluções para aproveitar as oportunidades e minimizar os riscos.

A análise aborda as necessidades da redação em relação a seus profissionais, uma visão do quadro salarial, do plano de carreiras dos jornalistas, designers e fotógrafos e sua relação com as necessidades práticas da redação. São identificadas as necessidades de treinamento e desenvolvimento da equipe. Isso permite montar um plano de desenvolvimento de profissionais. Em prazo mais longo, possibilita estabelecer a relação direta entre qualidade da publicação e o desenvolvimento dos profissionais que a fazem.

Fluxo de trabalho, informática, administração e controle de custos são temas práticos que influem diretamente na qualidade da publicação. A discussão torna mais clara a relação entre qualidade editorial e custos; trabalha-se a dinâmica entre tecnologia e fluxo redacional.

Esse encadeamento de raciocínios constitui um conjunto orgânico da atividade editorial e operacional para fazer a publicação. Pede aos jornalistas que passem seu radar pelo mundo e pelo Brasil, que revisem sua relação com os leitores, que critiquem sua publicação e que apontem caminhos para melhorar. Propicia uma análise consistente da publicação, de seus jornalistas e de suas necessidades. E desemboca nas ações necessárias para levar a publicação a bom termo nos próximos tempos.

Planejar o jornalismo é um aprendizado contínuo
É bom que o planejamento editorial se realize no segundo semestre e que sejam estabelecidas metas para o ano seguinte. O formato básico do plano editorial é sempre o mesmo, mas deve-se dar ênfase no tratamento às questões mais importantes do momento, principalmente a pontos fracos como, por exemplo, foco no leitor, projeto gráfico envelhecido, problemas de pauta, reportagem, texto e edição.

O processo se inicia com reuniões entre os jornalistas para discutir a publicação, a qualidade do jornalismo que está sendo praticado e os tópicos do plano editorial. O envolvimento de toda a redação é muito importante. O chefe de redação, de posse do material produzido nos encontros com a equipe, escreve o plano editorial, que depois será revisto pela equipe e discutido com a direção da empresa, no caso de a redação estar inserida em uma empresa. Depois de negociado com essa direção, ele se transforma na bússola da redação e dos rumos da publicação.

O processo de planejamento editorial é uma atividade contínua que se aperfeiçoa com o tempo. Na fase inicial pode-se levar um tempo maior para discutir a missão da publicação. Quando ela já está clara e bem definida o tempo pode ser usado de forma mais equilibrada. A discussão do plano editorial depende do grau de maturidade da equipe, da qualidade do material apresentado e da saúde da publicação. Uma publicação com problemas pede uma discussão aberta e direta desses problemas nas reuniões do plano editorial.

Com o tempo, os jornalistas se habituam ao planejamento editorial. Muitos passam a contar com esse momento importante no calendário da redação para uma sintonia fina em torno do leitor e da publicação. Pensar o seu fazer vai se tornando uma atividade familiar aos jornalistas. Há um importante crescimento desses profissionais durante o processo.

A atividade de planejamento editorial não é apreciada unanimemente pelos jornalistas. Alguns preferem continuar atuando de forma pragmática. Mas para quem já experimentou a atividade de estruturar um plano editorial é difícil pensar a atividade jornalística sem a ancoragem sólida em um bom planejamento.

*Celso Nucci é jornalista, fez carreira na Editora Abril (1972-2000) e foi secretário editorial e diretor de desenvolvimento editorial durante dez anos. Participou da direção editorial e desenvolveu um original programa de planejamento e de qualidade editorial para as revistas. Foi assessor da presidência da Radiobrás (2003-2007) para qualidade editorial, conduziu o planejamento e implantou programa de qualidade editorial para três emissoras de TV, quatro emissoras de rádio e uma agência de notícias. Organizou e editou o Manual de Jornalismo da Radiobrás.

PARA SABER MAIS:

Manual de Jornalismo da Radiobrás (2006, pdf)

Plano editorial da Agência Brasil (2006, pdf)

Plano editorial da Voz do Brasil (2004, pdf)

Plano editorial da Rádio Nacional da Amazônia (2004, pdf)

 

Fundamentos do jornalismo online: curso da pós-graduação na Unimep

Nos meses de abril e maio de 2011 estou com a disciplina Fundamentos do jornalismo online na Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), parte do curso da pós-gradua

ção em jornalismo multimídia (cinco aulas, 20 horas no total).

Dividimos a sala em 5 grupos, que ficaram responsáveis por aprender, praticar e desenvolver um produto e um breve manual sobre cinco temas, escolhidos por eles: vídeos online, podcasts, mapas, fotografias e redes sociais.

Abaixo, publico alguns links de coisas que estamos vendo nas aulas, a ementa e a bibliografia do curso. O resultado do trabalho dos alunos será publicado assim que estiver revisado.

Ementa: A partir de discussões que evidenciem as particularidades da multimídia, aplicadas ao Jornalismo Digital, a disciplina busca analisar as transformações tecnológicas dos meios de comunicação e o papel da hipermídia na construção de narrativas não-lineares baseadas em hiperlinks de áudio, vídeo, texto e animação.

Datas: 2/4 , 9/4, 30/4, 7/5 e 14/5

Aula 1

Da Contracultura à Cibercultura
O princípio da Web – como tudo começou
Internet e Web são coisas diferentes (a discussão sobre o fim da Web)
Web is dead. Long Live the internet

How stuff works:
Internet versus Web

Mais: http://computer.howstuffworks.com/internet/basics/internet-versus-world-wide-web.htm

Como a Web funciona?
Domínios: Registro.br
Whois – como saber de quem é um site? Aqui tem o endereço e o telefone dos responsáveis.

Controle e Anonimato na rede
O governo pode desligar a Web?

Mapa dos Backbones brasileiros: http://www.rnp.br/backbone/

Juiz manda desligar YouTube no Brasil

Na China.

O governo pode te achar? Todo mundo pode te achar?

Vanish: Evan Ratliff desaparece na Wired
Podcast
reportagem

Repórteres Sem Fronteiras: Handbook for cyber dissidents
(ou, como publicar de maneira anônima)
http://en.rsf.org/spip.php?page=article&id_article=33844

Artigo do professor Sergio Amadeu
Redes cibernéticas e tecnologias do anonimato

Electronic Frontier Foundation
http://www.eff.org/issues/bloggers

Por fim: Lei Azeredo pode ter revival?

Aula 2
Ferramentas para produção de jornalismo online
Guia de Proficiência do Repórter Multimídia, por Mindy McAdams

RGMP – Reporters Guide to Multimedia Proficiency book

Os mini-manuais serão produzidos segundo o modelo do livro de Mindy McAdams, acima. Também poderá ajudar o Manual de Laboratório de Jornalismo na Internet, feito na UFBA pelo Marcos Palacios e Beatriz Ribas, do Gjol.

Em seguida, algumas referências que poderão auxiliar os grupos. Ainda aumentarei a quantidade de links e sugestões de sites, mas já é possível começar os trabalhos por aí.

Fotografia

Ag̻ncia Brasil Рfotos licenciadas em Creative Commons, inclusive para uso comercial

Stock X Change – banco de imagens profissional a partir de U$ 1 dólar

Flickr Рop̤̣o de busca por fotos licenciadas em Creative Commons

MorgueFile – fotos liberadas inclusive para uso comercial

Vídeos

UStream

Livestream

VideoSurf: Mecanismo de busca que lê imagens e entende as falas dentro dos vídeos

Para entender mais: Guia do Vídeo Online

Podcasts

Digg CC Mixter Рm̼sicas liberadas em Creative Commons

Jamendo Рm̼sicas com download gratuito

Bird Song Рsite israelense de m̼sica livre

Mapas

Umapper: ferramenta bem simples para construir mapas

Google maps: o mais usado sistema para criar informações em mapas. Aqui tem um manual de uso
mapa mancha de óleo

Ativação e Gestão de Redes Sociais

Atualmente, o jornalismo online também se faz e/ou se propaga a partir da conversa com seu público. Entender e usar bem as redes sociais é fundamental. Cerca de 30% do acesso de grandes sites de notícias já vem de Twitter ou Facebook. Aprenda a usar para os devidos fins.

Abaixo, um manual interessante de uso destas redes, que pode ter conteúdos interessantes para quem se interessa em ativação das redes.

Tactical Technology Collective
(guias para transformar informação em ação: destaque para mapas e redes sociais)
http://www.tacticaltech.org/

EM CONSTRUÇÃO: o post será atualizado conforme as aulas evoluem. Ao final, o conteúdo das aulas estará disponível aqui.

Se você tiver alguma dica útil de ferramentas ou sites interessantes, por favor deixe um comentário.

Daniela Silva, jornalismo e transparência de dados públicos

Daniela Silva é jornalista, trabalha na Esfera, empresa que faz parte da Casa da Cultura Digital. Além deste vídeo, que fiz para uma aula com os alunos da pós-graduação da Universidade Metodista d

e Piracicaba (Unimep), a Daniela também deu uma entrevista para o projeto do jornalista Mateus Rodrigues. Foi uma conversa bastante longa, mas alguns trechos publicamos aqui:

Mateus: Daniela, conte um pouco sobre sua formação, tanto acadêmica quanto profissional.

Daniela: Eu sou jornalista. Fiz graduação em jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Trabalhei na Editora Abril, na Editora Moderna já um pouco mais afastada da área, trabalhando com conteúdo educacional. Fiz pouquíssimo, se fiz, trabalho com reportagem tradicional. Todos os veículos que eu trabalhei eram de internet, então eu já comecei trabalhando na web. Eu, na verdade, tive uma desilusão com jornalismo em algum momento bem no comecinho do curso e voltei a querer fazer jornalismo porque descobri a possibilidade de trabalhar com a internet. Descobri que tinha áreas onde era possível fazer alguma inovação. Eu sentia muita falta de trabalho criativo no jornalismo. Nunca imaginei que fosse ser assim, mas eu comecei a fazer e saquei que tinha essa coisa meio “fórmula”, meio “receita de bolo”.

Aí acabei indo estudar fora um tempo, fui estudar na Universidade do Texas, fazer um intercâmbio de um ano para dar uma pensada. E lá eu fui trabalhar no Knight Center, que é um centro de pesquisa em jornalismo na América Latina; é o Knight Center for the Journalism in the Americas, e fiz um curso de jornalismo multimídia. E aí minha cabeça explodiu: falei “é isso”, porque entendi que tinha ali um espaço de inovação e de formato. Mesmo assim ainda não fiquei investindo muito em jornalismo multimídia não. Não encontrei caminho pra isso quando cheguei no Brasil, lembro de ter conversado com alguns profissionais que me indicaram a empresa pública, por exemplo, a Agência Brasil, que na época estava fazendo muita inovação em multimídia, mas no mercado, pra estagiária, estava um pouco difícil em 2005, 2006.

Então acabei, na verdade, fazendo um pouco de jornalismo de internet normal, mas muito numa via já de criação de projetos. Então eu trabalhei no Universia, por exemplo. Lá eu fazia uns pacotes multimídias de passeios virtuais em museus; trabalhei na Abril, no Planeta Sustentável, trabalhei na criação do site, então trabalhei um pouquinho com arquitetura da informação, ajudava a coordenar a equipe de tecnologia que era externa ao site. Hoje eu trabalho com transparência pública e com dados públicos e formas de resignificar esses dados na Rede. Falo que eu sou jornalista porque eu confio numa extensão do sentido dessa palavra; eu acho que ser comunicador significa muito mais do que apenas ser repórter, mas tenho certeza de que eu não trabalho mais com reportagem tradicional, que eu sou uma jornalista tradicional. Não defendo nenhum corporativismo em volta desse termo, e eu acho que hoje meu papel de comunicadora é, na verdade, explorar e criar os caminhos para que mais pessoas possam se apropriar da comunicação como uma ferramenta de transformar as coisas.

Acho a profissão do jornalista em geral, pelo que eu escuto falar dos meus amigos, se aproximou muito da internet. Na época que eu estava na faculdade, eu acho que o pessoal tinha um pouco de birra e ranço – isso foi entre 2003 a 2007. Hoje, agora, eu acho que tem uma proximidade um pouco maior, tem uma ligação um pouco mais íntima no processo de fazer e eu acho que as pessoas, todas, em geral, estão mais próximas da tecnologia. Mas, na época, eu lembro claramente de ser uma das poucas que não me apavorava com aquilo, muito pelo contrário, eu achava que era o máximo e que a verdade estava ali em algum lugar.

Mateus: Você foi cofundadora da Esfera. Começou quando?

Daniela: A Esfera começou em outubro de 2009. Na verdade, ela começou um pouco antes, o planejamento dela começou em junho do mesmo ano, junho de 2009, mas acho que a primeira ação concreta que a gente realizou com ela foi em outubro de 2009, foi o primeiro Transparência Hack Day.

Eu estava pesquisando a transparência e a internet, como a transparência foi impactada pela internet, uma viagem que começou muito por essa forma de digitalização de governos. Então, eu estava querendo entender, por exemplo, experiências como a do SETI@home, experiências de grid computing, então várias pessoas montam um computador virtual que processa dados e eu pensava: “será que esses dados não vão ser muito mais nossos se começarmos a montar estruturas assim? Se, de repente, eles não estiverem parados nos servidores dos governos e estiverem sob controle real das pessoas, porque o digital permite isso. E meio que nessa piração, eu encontrei um movimento mundial consagrado já que estava se preocupando com essas questões, que era o movimento dos dados abertos, que acho que começa mais ou menos em 2007. Isso eu comecei a pesquisar em 2009 e ainda tinha muito pouca literatura sobre isso no Brasil. Tava ali, escrevendo uma pesquisa bem introdutória sobre possibilidades de abrir dados na Rede e possibilidades de reutilizá-los enquanto sociedade. Então, como a transparência se impacta com essas possibilidades novas abertas pelo digital e pela Rede. Tava pensando um pouco no fato de que tinha acabado de ser aprovada uma lei no Brasil, que é a Lei Capiberibe, uma extensão da lei de transparência que fala de dados orçamentários divulgados em tempo real na internet… Primeiro, eu pensava que ia ter uma enxurrada de dados de prefeituras e governos na internet e não ia poder servir pra nada, primeiro por causa do formato, que esses dados são divulgados que dificultam muito, tradicionalmente, a utilização deles.

E aí, em janeiro de 2009, eu e o Pedro Markun – que é meu sócio – começamos a desenhar o que ia ser a Esfera muito “perifericamente” ainda. Em outubro, a primeira ação da Esfera aconteceu, que foi o Transparência Hack Day. Antes disso ainda teve o clone do blog do Planalto, que foi na verdade o estopim de tudo. Foi uma brincadeira, foi uma ideia de fazer uma provocação para a internet, que tava reclamando e chorando porque o tal blog do Planalto não tinha comentário, mas tinha um monte de possibilidades de interação e a gente estava querendo mostrar que “olha, de repente a gente tem possibilidades de ação aqui que não são só verbais, que não é só falar, que não é só ‘expressar o nosso descontentamento’. Aqui tem uma possibilidade de criar debates em torno de como essas tecnologias funcionam”. Daí saiu o clone, do clone saiu uma mobilização política, de fato, em relação a esse tema. Então a gente conseguiu daqui, da Casa de Cultura Digital, onde eu estou, ter uma reposta do Planalto sobre uma decisão que, com certeza, eles passaram cinco meses pensando e articulando, se vai ter comentários ou não vai ter comentários. Sabia-se sim do impacto de opinião pública que isso poderia ter, mas essa discussão foi desmontada em quinze minutos de trabalho aqui na Casa de Cultura Digital, a ponto do Planalto ter que se manifestar e se manifestar em prol da liberdade na internet, falar que a internet é um espaço… é um terreno livre, que as pessoas podem fazer o que elas quiserem com a informação, como estava caracterizado no site por uma licença Creative Commons, que permitia quer isso fosse feito.

Mateus: A gente tá falando basicamente de dados governamentais e a gente falou muito de dados governamentais abertos. O que é isso? O que que define um dado governamental como aberto?

Daniela: Dado governamental aberto é aquele que vem a público com o compromisso de ser compartilhado pela sociedade, de ser apropriado pela sociedade. Essa, eu acho é a minha interpretação. Então, tem um texto que circula pela internet feito por sete ativistas do governo aberto em 2007, no fim de 2007, não é nada muito estruturado, são oito princípios que saíram dessa conversa que falam que os dados governamentais, para serem abertos tem que ser, por exemplo, primários. Então, me interessa menos relatório de governo já com a opinião do governo embutida ali, de certa forma já com recorte e mais dado do jeito que ele veio da fonte, mais próximo da fonte que ele puder estar. Fala-se, por exemplo, de formato aberto. Eu não devo ser obrigada a comprar ou adquirir nenhuma tecnologia para poder abrir esse dado. Então, isso acontece, por exemplo, quando você recebe um arquivo na sua mão que é .doc. Eu sou obrigada a comprar um software X, de uma tecnologia específica que abre esse arquivo, quando existem opções de você não ser obrigado a estar “ligado” a corporação nenhuma. A gente acha que (esse) é um princípio importante para o governo.

Fala-se dos dados serem legíveis por máquinas e não apenas legíveis por pessoas – e acho que essa é uma diferença central. A gente pensou em transparência como uma coisa que, por exemplo, seria mediada pela mídia. Por muito tempo, o Portal da Transparência do governo federal é um portal premiado. A gente tem um programa orçamentário de transparência no Brasil que é reconhecido pelo mundo e, de fato, com conquistas muito importantes. Mas, até muito pouco tempo, esse portal se preparava muito para ter essa intermediação da mídia. Então, não é que qualquer cidadão é capaz de entrar e acessar um milhão de planilhas e conseguir fazer essas análises, ele tá pronto para um jornalista interessado, que tem um tempo que normalmente não se tem na redação, de mergulhar nesse site, abrir planilha por planilha e conseguir fazer uma compreensão mais complexa das coisas que estão lá. Hoje, a gente espera que isso possa ser feito por um programa de computador. Então, um desenvolvedor consegue às vezes fazer um software que faz o que um jornalista faria em dois meses em cinco dias e com isso… Tem formas muito fáceis e ferramentas abertas na internet surgindo para fazer esse mesmo tipo de interpretação para leigos. Então, a gente pensa que cada vez mais essa multiplicidade de olhares vai vir não só de uma pequena mídia ali, que tinha especialização de fazer isso, mas de qualquer pessoa que tenha acesso a essas ferramentas, que a gente acredita que é algo exponencial, potencialmente maior a cada vez, porque mais gente tá sendo inserida nesse discurso e nessas possibilidades.

Mateus: você acha que o papel de trabalhar esses dados, interpretar esses dados, é um papel da sociedade em geral. Agora, (isso) muda o papel do jornalista?

Daniela: Acho que eu não queria dizer que muda a forma que o jornalista tem que encarar isso, porque para ser bastante sincera, acho que isso devia ter mudado faz muito tempo [risos]. Acho que não é a questão dos dados que tem que mudar a forma como o jornalista “funciona”, acho que o jornalismo não está funcionando muito bem na forma como ele se configura hoje. O que eu acho que acontece, na verdade, é que hoje você tem meios para ficar mais próximo daquilo, que é essa a proposta que tem o jornalismo, de criar olhares sobre fatos e apurar o que acontece no mundo e passar para as pessoas o que acontece no mundo; você tem hoje mais ferramentas para isso, de um jeito muito mais completo e mais interessante e mais próximo da objetividade. E eu acho que isso é o que você tem que buscar desde o começo. Então, se por um lado, o jeito bom de fazer isso antes era conversar com múltiplas fontes, que podem te passar olhares diferentes com muito mais facilidade do que com uma fonte só; se isso era o caminho, hoje você tem essa massa de dados gigantesca que pode, na verdade, fazer a mesma coisa. Então assim, quando vem um release de governo na sua mão, eu sempre acho que seria muito mais interessante que, ao invés de um release, você tivesse dados brutos sobre as políticas. Pouco me interessa saber das políticas com uma narrativa já marcada pelo governo, porque a gente sabe que é um mundo de interesses.

Acho interessante e ótimo que todo mundo tenha a oportunidade de se comunicar contando a sua versão da história de acordo com seu entorno de interesses próprios, não acho que isso é um problema. Mas, pra quem é jornalista, na hora de você contar a história toda, quanto mais próximo você estiver do fato real, melhor. E eu acho que, nessa quantidade de dados gigantesca que vem de governos – que ainda não vem, mas que virá sim – eu acho que potencialmente, dessa transição para entender a política como uma coisa mais próxima do digital, tá ali a possibilidade de reprocessar as narrativas, entendeu? De saber “olha, então… de fato, o que está acontecendo na segurança?”. Então, tem uma história ótima, por exemplo, da Secretaria de Segurança do Rio Grande do Sul. Segurança é um tema que é atacado pela mídia a todo o momento, porque interessa muito pouco o dado complexo da segurança, interessa o caso sangrento, né? E mesmo que não seja o sangrento, mas assim, os casos de violência; “morreram ‘tantas’ pessoas”, “morreram ‘x’ pessoas”, “morreram mais quinze pessoas em ‘tal’ lugar”; toda essa informação é um pouco compartimentada. A secretaria de segurança pública do rio grande do sul publica dados abertos sobre ocorrências de crime. E publicando dados abertos, eles conseguiram implacar matérias na mídia que falam que a situação melhorou na segurança, porque finalmente tinha ali… tem áreas que aumentou, tem áreas que diminuiu, mas você conseguia entender ali, no contexto que a questão de segurança pública estava avançando e não se retraindo. Então, depois de uma série de manchetes negativas, finalmente alguém olha para o dado complexo e consegue fazer um cenário melhor e entender: “olha, de fato, aqui no total a situação está melhor”. Isso, a verdade, é a história que a gente leva para o governo para incentivar que eles abram os seus dados, né? Tem muita gente não interessada nisso, tem muita gente que se preocupa em como isso pode desestabilizar o jeito como a política funciona, com como isso desmonta um pouco o centro de poder. Mas tem muita gente que tem muito interesse nessa história, de de fato poder influenciar um discurso público mais fundamentado nas coisas que realmente aconteceram, mais fundamentado nas informações brutas sobre as políticas, e não apenas nos olhares. E acho que é mais ou menos por aí que a função do jornalista tem que se reconfigurar no meio dessa história.

Mateus: Aqui no Brasil, a gente tem determinados níveis de dados que são disponibilizados. No caso da Suécia, por exemplo, em que – se não me engano – as leis de transparência são de antes do século XIX; e eles tem o conteúdo de comunicações, por exemplo, entre os parlamentares (que) são abertos. O que tem que ser aberto e o que tem que ser fechado?

Daniela: Achei interessante, porque você começou falando sobre o caso da Suécia, você falou das leis de transparência da Suécia serem muito antigas. Você já está falando de lei de transparência falando de lei de acesso à informação. A gente vem de um histórico, aqui no Brasil, de entender lei de transparência como lei de responsabilidade fiscal, lei de transparência orçamentária. Não estamos tratando apenas de dados de orçamento, que dados de processos são importantes; eu diria mais importantes. Então, eu me preocupo menos com ter dados disponíveis para fazer controle social e mais dados disponíveis para fazer participação política. Então, me interessa bastante, por exemplo, saber dados da saúde, dados da educação, dados de serviço público; porque dessa forma eu posso não apenas fiscalizar como esse serviço funciona, mas atuar de um jeito mais estratégico enquanto cidadão, por exemplo.

Então, um caso que a gente sempre cita é os dados do Serviço de Atendimento ao Cidadão, da cidade de São Paulo, por exemplo – e esse serviço tem o mesmo nome em vários lugares. O que acontece: se eu sei que tem alguém que já reclamou pra poder a mesma árvore da minha rua, de repente eu… eu poderia ter um sistema – construído pela sociedade, nem é papel de governo isso… Se eu sei que tem alguém que já reclamou, eu poderia de repente só reforçar esse pedido e não criar cinco mil pedidos diferentes para podar a mesma árvore, porque isso atrapalha a gestão. Então, a gente tá falando de uma forma também de compartilhar certas responsabilidades na hora de fazer a gestão pública acontecer, principalmente nos problemas de gestão que são claramente informacionais – esse é um deles. Então, a gente já conversou com os gestores aqui em São Paulo e sabe, por exemplo, que o sistema do Serviço de Atendimento ao Cidadão não reconhece redundância; então, o mesmo buraco da rua: se eu reclamar, você reclamar, ele reclamar, vai ter três reclamações ali; isso é um problema. Isso é um problema porque o subprefeito não sabe quantos buracos fechar e quantas árvores podar todos os dias. Então, como você vai gerir uma cidade numa situação como essa? Então, isso eu acho que é uma coisa que tem que ser dita.

Fora isso, é importante dizer que a nossa briga do momento não é para abrir nada que não seja público. A gente tá falando do caráter público das informações e eu acho que a gente tem que virar um pouco a chave: não é o que tem que ser aberto, é o que não pode ser aberto e isso tem a ver com a segurança do cidadão. Quanto à segurança do Estado, em sistemas democráticos, a situação de segurança nacional tem que ser exceção. E é uma exceção muito bem justificada e ela é muito mínima no jeito que o sistema funciona. Porque a democracia é o governo das pessoas, a gente tem que ter noção do que está acontecendo em relação àquela representação que a gente escolheu. Para mim, quase não existe desculpa. Casos, por exemplo, de relação internacional e soberania de países, ainda assim eu acho que é muito relativo.

Eu participei de uma discussão semana passada e alguém me apresentou o fato de que, quando o Wikileaks abriu informações de Estado do governo norte-americano, isso podia ter causado um genocídio. Se você tivesse uma informação sobre genocídio, se fosse do governo, na sua mão, você acha que isso deveria ser publicado? Eu não sei se informações que podem causar um genocídio estão seguras na mão do governo americano. A gente já viu isso no passado. Eu ainda acho que isso estar exposto para controle da sociedade, se você tem um alerta na sociedade, se você sabe que tem uma população a ser massacrada numa região do globo, eu prefiro isso sob controle social do que sobre controle de governo, de uma forma que isso pode ser usada como moeda política a qualquer momento. Assim, a responsabilidade é gigantesca de se portar dessa forma, porque a gente vai ter que ficar de olho; só que, ao mesmo tempo, eu não acho que é uma responsabilidade que dá pra terceirizar, porque historicamente terceirizar não resolveu. Então sim, eu acho que mesmo as informações sobre genocídios tinham que vir a público.

Mateus: Como o jornalista precisa se preparar para efetivamente trabalhar bem e tirar uma informação efetiva de dados públicos?

Daniela: Acho que o jornalista tem sim que se preocupar com isso de um jeito especial, no momento. Isso não mora na formação tradicional do jornalista, não acho que pode morar. Eu acho que é muito importante, se você é jornalista, que você entenda a informação como matéria-prima do seu trabalho; você tem que estar na Rede, você tem que estar na internet, não interessa se é TV, não interessa se é jornal, se é internet. Você tem que estar atuando na rede ativamente, você tem que entender quais são as ferramentas, quais são as possibilidades. E acho que é daí que vai vir o conhecimento de como retrabalhar todas essas informações, muito mais do que poderia vir da faculdade, muito mais do que poderia vir do mercado, acho que vai vir da vivência na Rede, da vivência nas comunidades, na vivência nas listas; o aprendizado e a capacidade mesmo de fazer.

Eu tenho um exemplo: tem uma organização norte-americana que chama ProPublica que muito recentemente lançou um grande trabalho com os dados que as empresas farmacêuticas norte-americanas foram obrigadas a liberar por meio do Ato de Acesso à Informação a respeito de médicos com quem elas tem contrato. Então, contrata ali aquele médico como consultor e começou a se desconfiar que isso dirigia as prescrições, então favorecimentos à indústria farmacêutica. A ProPublica conseguiu montar uma grande base de dados onde informações de diferentes formatos… É claro, as indústrias vieram à internet e publicaram isso na internet num formato infernal, quase tudo PDF e tem até aplicativo em Flash… Não podia estar mais fechado para você conseguir descobrir quais são os médicos para os quais aquela empresa manda dinheiro. A ProPublica fez um trabalho de jornalista, tipo, eles são jornalistas, eles entendem isso como uma função do jornalismo, de tirar os dados desses diferentes formatos, montar uma base em que você digita o nome do médico e sabe de que empresa farmacêutica ele está recebendo dinheiro, por que serviço. Então, o contrato tá ali, tá numa base muito útil para a sociedade. Isso é papel, pra mim, de mídia de jornalismo sim; também de um monte de gente, porque hoje acho que a gente tem que extender um pouco esses limites. Esse limite não é corporativo, esse limite é o limite de quem decidiu trabalhar com informação.

Eles fizeram um super tutorial, muito interessante, que é quase um backstage do projeto. Tá ali, é uma fonte excelentíssima para quem quer aprender a tirar dados de PDF e transformar isso em informação concreta na Rede. E eles fazem pra leigo, né? Então, tá escrito: “sou um jornalista, sentei no computador. Como eu resolvo isso? Quais são as ferramentas abertas da Rede que eu posso usar, gratuitas e não gratuitas? Então, se você usar isso aqui, você pode obter esse resultado; se você usar isso, pode conseguir esse.” Tem ali um passo a passo. Eu não sou desenvolvedora. Eu não sei escrever código. Eu trabalho com todas essas questões do lado da comunicação e sei que não é fácil. Tenho um monte de dificuldade para aprender um monte de coisas. Mas hoje eu me sinto minimamente empoderada em relação ao meio. O que eu não sei fazer, eu sei onde eu posso perguntar, eu sei que eu posso trazer para trabalhar junto comigo. Acredito muito na interdisciplinariedade dos dois mundos. Acho que não é trazer desenvolvedor para a redação para ficar desenvolvedores e jornalistas, acho que isso funciona muito pouco.

Mas, às vezes, ter uma “mini-célula terrorista” de um monte de jornalista que é meio “tech-savy”, que gosta de internet com desenvolvedores e começar a criar uma cultura de fazer projetos mais bacanas, de inspirar a redação por meo disso, pode ser um caminho legal. Tem redações do mundo que fizeram isso e que tá dando super certo.

Mas, às vezes, ter uma “mini-célula terrorista” de um monte de jornalista que é meio “tech-savy”, que gosta de internet com desenvolvedores e começar a criar uma cultura de fazer projetos mais bacanas, de inspirar a redação por meo disso, pode ser um caminho legal. Tem redações do mundo que fizeram isso e que tá dando super certo. E, ao mesmo tempo, acho que os próprios repórteres fazerem o papel deles de descobrir essas novas ferramentas.

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Oficina de documentários interativos na USP

ntent/uploads/2011/03/economia-criativa.jpg” alt=”” width=”640″ height=”346″ />Nesta quarta-feira (23 de março), a documentarias Nina Simões vai ministrar a oficina Documentários Interativos na Era da Convergência.

Documentários Interativos na Era da Convergência
Oficina dirigida a documentaristas e artistas das novas mídias, estudantes, jornalistas, video-makers e todos aqueles interessados em narrativas interativas.

A aula será interativa, com apresentação de Nina Simões de conceitos teóricos e análise sobre as mais recentes produções de documentários interativos produzidos em nível internacional. Uma série de trailers ilustrará o nível de interação e o formato de distribuição de cada projeto. Andre Deak apresentará as mais recentes produções brasileiras e abordará também o tema das plataformas de distribuição de documentários interativos no Brasil.

A oficina manterá um ambiente de conversa com o público, e seguirá também os rumos de interesse dos presentes, podendo abordar modelos colaborativos de financiamento, ética e estética na produção audiovisual interativa e qualquer outro assunto que surja.

Haverá ainda uma intervenção organizada pela pesquisadora Tamara Ka, que investiga a diferença entre a realidade e o 2D: como podemos mascarar ou ampliar sensações através do uso da câmera? Com isso dominado, o quanto a internet pode nos auxiliar na troca e no intercâmbio de emoções e expressões?

Onde e quando
Quarta-feira (23 de março), no Paço das Artes, na USP.
Inscrições e mais informações aqui (as oficinas são pagas, veja o formulário de pré-inscrição)
Veja aqui outras oficinas (pdf)

A oficina de documentários interativos faz parte do “Mesh” com moedas criativas, que procura gerar inovação na economia do audiovisual.

Numa sociedade globalizada em que faz a diferença quem é capaz de inovar usando tecnologias de informação e comunicação, os mercados digitais abrem novas oportunidades e a economia criativa vem para primeiro plano. Esse é o ponto de partida das oficinas, debates e conferências que a Cidade do Conhecimento da USP organiza entre 22 e 26 de março com a presença de empreendedores, pesquisadores e investidores no ciclo “Mesh com Moedas Criativas – Fronteiras do Valor na Economia do Conhecimento”, patrocinado do BNDES e da Mozilla.

Quanto vale uma ideia? Há convergências entre cultura e mercado? Quais as estratégias empresariais para garantir lugar ao sol na fronteira da inovação dominada por novas interfaces audiovisuais? Como a sociedade pode criar moedas comunitárias para

estimular o desenvolvimento local? Há limites para a propriedade privada na economia da cultura digital? Quais as relações entre tecnologias de informação e comunicação (TICs) e o meio-ambiente? Quais as políticas públicas necessárias para inserir o Brasil

nessa economia do conhecimento marcada por interfaces audiovisuais cada vez mais sofisticadas, móveis e ubíquas que vão do celular à TV digital, passando por tablets, murais interativos e uso crescente de videogames na educação?

Essas são algumas das questões em pauta no ciclo da USP em que será lançado o livro “Mesh – O Futuro dos Negócios é Compartilhar”, da autora Lisa Gansky, uma proeminente empreendedora e guru da nova economia digital no Vale do Silício. “Um novo capitalismo surge no século XXI animado por uma redução radical nos custos de coordenação numa variedade impressionante de atividades humanas. A colaboração no mercado chegará a níveis inéditos, privilegiando o acesso compartilhado em detrimento da propriedade pura e simples.No centro dessa nova formação social e econômica está a “mesh”, um tipo de colaboração que se torna viável e ganha potência por meio da rede digital”, afirma Gilson Schwartz, coordenador do evento e líder do grupo de pesquisa Cidade do Conhecimento (www.cidade.usp.br).

Mais informações: cidade@usp.br