Projeto Chrome: The Web is What You Make of It

Por Ismara Antunes Cardoso

As campanhas publicitárias estão cada vez mais conceituais, engajadas e inovadoras. Mas até que ponto a ideia deixa de ser uma simples publicidade e se torna uma campanha que agrega informações válidas e traz interatividade com seus usuários? O Google Chrome aposta nisso e começa um projeto que chama a atenção do mundo inteiro: “The Web is What You Make of It”.

O Google Creative Lab – para quem não conhece, é o departamento do Google responsável por captar e desenvolver plataformas emergentes – lançou o projeto que consiste em focar e reunir todas as possibilidades que o browser permite. Programas como Youtube, Blogger, Gmail, Google Maps, Picasa, Google Talk, iGoogle, e muitos outros do pacote, são abordados de forma interativa e até poética, digamos assim.

O primeiro projeto da série, ligado à campanha “The Web is What You Make of It”, foi criado como uma forma de dar informações e apoio a todos os jovens homossexuais. Com um elevado índice de adolescentes suicidas nos EUA, o projeto “It Gets Better” vem para lembrar a comunidade LGBT que eles não estão sozinhos.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=7skPnJOZYdA[/youtube]

Iniciado em setembro de 2010, o projeto conta hoje com vídeos enviados por pessoas do mundo inteiro, incluindo o presidente Barack Obama, celebridades, ativistas, políticos e funcionários de grandes organizações, como Pixar e Apple. Para eles “cada vídeo modifica uma vida, não importa quem o fez”. O site itgetsbetter.org, ainda recebe vídeos e muitas visitas, onde jovens podem contar com todo o suporte de pessoas que passaram pela mesma situação, e palavras de conforto de quem admiram.

A cantora Lady Gaga também participou da campanha com um vídeo especial, onde incentiva e encoraja todos os seus fãs, conhecidos como littlemonsters, sejam eles homossexuais ou heterossexuais. No clipe, a cantora aparece completamente conectada ao público, enviando mensagens do tipo “Vocês todos são super stars”, “Vocês me inspiram” enquanto observa vídeos e fotos enviados pelos fãs. No final, Lady Gaga encerra com a mensagem “Sejam fortes, little monsters”. O vídeo já teve mais de 4 milhões de visualizações.

Até que ponto seria possível encarar vídeos e campanhas online como modelos de apreensão de informação? A disseminação da informação se torna algo involuntário, simples e diferente. Contagia as pessoas a fazerem parte daquilo e a interagirem. Um simples vídeo enviado por um ativista homossexual chega a milhares de pessoas e se transforma em um grande projeto em prol da aceitação da diversificação humana.

Sempre com o intuito de aprimorar e facilitar a vida das pessoas, os vídeos da campanha do Chrome apostam em multinarrativas que mostram as possibilidades dos serviços Google, cada um para finalidades e situações diferentes, a fim de identificar o que melhor se adapta em cada caso. No vídeo “Frank Restaurant” um jovem casal descreve suas dificuldades e aflições de abrir seu próprio restaurante. A falta de verba, estrutura, divulgação e o medo de não conseguir voltar atrás, caso não dê certo. O vídeo começa com a elaboração de uma planilha de custos, seguido da geolocalização via satélite do restaurante, o primeiro dia de funcionamento e enfim, as críticas e sugestões de clientes, que começam a repercutir na internet (exaltando os serviços de blog, reviews, fotos, Google+ e Google 1+).

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=1Fki1SJ17kQ[/youtube]

A partir daí fica claro para o internauta como um negócio, ou uma ideia, pode ser divulgada através de simples serviços e estratégias que podem ser elaboradas online, e melhor ainda, gratuitamente. Prestando um ótimo serviço, Jenn e Daniel conseguiram sua divulgação com os excelentes comentários que surgiram na rede social Google+ e blogs sobre seu restaurante. Além de colaborarem postando fotos e notícias sobre o local.

Um pai decide compartilhar com a filha, através da internet, todas as suas memórias, desde o nascimento. Foi o caso do vídeo “Dear Sophie”. Com fotos, vídeos, desenhos, tudo através de uma conta criada no Gmail, que quando crescer a menina poderá acessar. Um jovem músico decide usar a internet para se tornar um fenômeno mundial, é o que mostra o vídeo de Justin Bieber para a campanha. Postando singelos vídeos caseiros desde a infância do garoto, abordando a repercussão e os compartilhamentos de cada vídeo, até o rapaz se tornar o “cantor” mais aclamado pelas adolescentes do mundo inteiro. A notícia virtualmente disseminada possui uma narrativa diferente que contamina outras formas midiáticas de massa e público, além das tradicionais, conseguindo atingir nesse caso a geração Z, dos “hiperconectados”.

Mas um grande exemplo do potencial narrativo foi o projeto criado em homenagem ao cantor Johnny Cash, “The Johnny Cash Project”, uma forma de, coletivamente, criar um último videoclipe ao músico. A idéia é simples e encantadora: fãs do mundo inteiro se reúnem através da internet para criar um clipe para a música “Ain’t No Grave”. Cada frame é um desenho criado através do site interativo thejohnnycashproject.com, formando um vídeo com mais de 250 mil desenhos. Dessa forma, a notícia ganha novos contornos de acordo com a mídia para qual foi produzida, gerando uma divulgação espontânea, maior interatividade e abrangência de público. O projeto recebe desenhos até hoje e, devido ao grande sucesso, consegue conquistar novos fãs que nunca tinham ouvido a música do lendário “Man in Black”, como era conhecido.
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=3lp3RpC-60U[/youtube]

Vemos a criação de uma nova era da comunicação, em que o público está cada vez mais em contato direto com a informação. A linguagem unilateral não é mais eficaz, uma vez que os receptores querem participar e compartilhar suas opiniões. O monopólio da fala entre os meios de comunicação hostiliza o público e estereotipa a mídia como algo blasé. Agregando informação ao entretenimento, à comunicação, e principalmente à publicidade, pode-se notar um resultado maior de divulgação e interação no mercado. Quebramos as barreiras entre o real e o virtual, explorando ao máximo as novas possibilidades. Informar, agora é um desafio.

Este texto é um trabalho para a disciplina design informacional, da pós-graduação 2011 na PUC-SP.

Arcade Fire e as narrativas interativas

Por Felipe Lavignatti

Quando o Arcade Fire lançou seu clipe para a música que dava título ao seu segundo álbum, Neon Bible, um novo formato de divulgação musical surgia, o videoclipe

interativo. É impossível transpor esta experiência para qualquer MTV do mundo. A TV digital não chegou ainda a esta sofisticação, mas é possível imaginarmos num futuro mais clipes neste formato não só vistos em browsers, mas também em tevês, celulares, etc.


O primeiro clipe interativo da banda

O primeiro vídeo de divulgação do segundo álbum não era bem um vídeo. Neon Bible tem uma navegação simples, interativa e sem muitas mudanças. Por mais que a experiência mude dependendo de seus cliques, o vídeo não dá muitas opções. Na última experiêmncia da banda, essa limitação não existe mais.

We Used to Wait, do mais recente álbum, The Suburbs, foi a música usada para a uma experiência em HTML5. No site http://www.thewildernessdowntown.com, feito em conjunto com a equipe do Google Chrome, o Arcade Fire te leva em uma viagem com pássaros e um corredor solitário no endereço que você escolher. Assim que carregar a página (somente no navegador Google Chrome funciona, importante notar), o site te pede para colocar o endereço de onde você nasceu. A ideia é levar a história para este lugar, mas não precisa ser necessariamente ali, claro. Um endereço com Google Street View torna a experiência ainda mais legal, mas não é necessário.


Interatividade no HTML5

Carregado o site já com o endereço, é só observar e assistir um vídeo de um homem correndo por uma rua genérica, mas que pretende ser a sua. Para passar essa impressão, uma das janelas abertas carrega o Google Maps com o endereço que você indicou. Uma outra janela abre Google Street View do mesmo ponto. Conforme o protagonista vira, a visão vai alterando nestas outras duas janelas.

No meio da música, abre-se uma nova janela para vocês escrever o que quiser ou desenhar ali. A fonte e os traços ganham contornos de árvores e seus galhos recebem logo após isso a visita dos pássaros que te acompanham durante todo o vídeo. Dali eles passam para o endereço onde o protagonista voltou a correr. No Maps, no vídeo do corredor e no Street View, os pássaros vão caindo no chão e se transformando em árvores.

Esta experiência interativa chama a atenção mesmo com endereços que não tem o menor valor sentimental (só achei lugares com Street View fora do país, nenhum com relação a algum fato marcante da minha vida). Para quem der sorte de achar um lugar já coberto pelo Street View, com certeza o impacto deve ser outro.

Nos anos 80 a MTV foi acusada de matar as estrelas do rádio (a música que representou este período é Video killed the radio star dos Buggles, de 1979). Claro que o rádio não morreu após a TV, nem a TV vai desaparecer com a internet. Mas clipes como estes do Arcade Fire apontam um caminho para a evolução – só nos resta saber quando chegará.


Um recado no clipe da música D.A.N.C.E. dos franceses do Justice