Ajude um Repórter – uma experiência de crowdsourcing

por Noelle Marques

Gustavo Carneiro, o idealizador do projeto Ajude um Repórter, na verdade é um relações públicas e não um jornalista. Mas tudo começou como um experimento jornalístico, quando ele retornou ao Brasil após dois anos fora, testando o conceito de crowdsourcing. [Crowdsourcing trabalha com o modelo de produção que utiliza conhecimentos coletivos e voluntários para chegar a uma solução.]

O projeto
Sem verbas, a maneira mais fácil e rápida para começar foi criando uma conta no Twitter. Assim, um jornalista atrás de um personagem ou um fonte, e mesmo uma fonte atrás de alguém para contar a sua história, divulgavam o interesse na rede social. Esta por sua vez, multiplicava a visibilidade através de seus seguidores, “retwitando” o pedido.

“Trazemos ao repórter exatamente o que ele precisa, no momento em que ele precisa. (…) Chega de releases que não têm nada a ver com aquela última pauta que está para fechar!”. Criado em 5 de março de 2010, com estes argumentos, em apenas 10 meses o “Ajude um Repórter” chegou aos 9 mil seguidores e colaboradores.

Ampliando
Desde o começo, Gustavo já tinha a ideia realizar algo mais amplo do que uma conta no Twitter. “Essa já era uma ideia desde o princípio, já que é bastante complicado gerar receita para sustentar o serviço baseando tudo no Twitter, para um público de nicho.”, diz Carneiro.

Então, utilizando outro serviço de crowdsourcing, o Catarse, ele conseguiu arrecadar R$ 15 mil, além de outros R$ 20 mil do próprio bolso, para investir em uma plataforma que abre espaço para propor outras soluções de relacionamento e experimentar modelos que permitam manter o trabalho ativo.

[vimeo]http://www.vimeo.com/18840586[/vimeo]

“A administração do serviço é trabalho de uma pessoa só. Toco isso sozinho desde o princípio, mas ainda espero encontrar pessoas para compartilhar e contribuir para o crescimento.”, conta Carneiro.

Em pouco mais de um mês após a inauguração da plataforma, o “Ajude um Repórter” teve mais de 3 mil cadastrados, entre jornalistas e fontes. “Mas é preciso dar continuidade ao desenvolvimento e crescer bastante a base de usuários para que tenhamos algo sustentável”, pensa Carneiro.

O “Ajude um repórter” ainda não traz retorno financeiro para Gustavo, que toca tudo sozinho, contando apenas com serviços terceirizados na parte de tecnologia do site. “Para o futuro espero que essa nova etapa [do projeto] traga a sustentabilidade necessária para continuar entregando o resultado que os usuários esperam. Não tem como pensarmos em continuar um serviço assim, por mais útil que ele seja, se não pudermos pagar as contas no fim do mês.”, desabafa.

“O Ajude um Repórter é um projeto que nasceu no Twitter de uma forma muito simples e quase sem investimento, mas que consegue entregar valor para jornalistas e fontes todos os dias sem cobrar absolutamente nada por isso. Quando alguma coisa dá errado, os usuários percebem e reclamam. Quando falhamos, o feedback é imediato. Já estamos no ar há mais de 18 meses e sem todas as pessoas participando, nada disso seria possível. A utilidade do que fazemos é inegável e sabemos disso porque a comunidade nos diz. Contamos com todos para continuar esse trabalho.”

Gustavo Carneiro

 

 

 

 

Este texto é um trabalho para a disciplina design informacional, da pós-graduação 2011 na PUC-SP.

Ônibus 2.0

Recentemente, no Brasil, a comunidade Transparência Hacker conseguiu recolher, via financiamento colaborativo, cerca de R$ 60 mil para a compra de um “ônibus hacker”. A ideia é viajar pelo Brasil com hackers e jornalistas que irão ao mesmo tempo realizar oficinas pelas cidades e tentar colocar na informações  sobres gastos públicos desses municípios.

Fora do Brasil já existe um ônibus completamente equipado com computadores, redes sem fio e jornalistas, chamado ônibus 2.0. É um veículo da igreja católica, uma redação ambulante que garante a cobertura de eventos por toda a Europa. Abaixo, temos um relato sobre como ele funciona.

Por Fernando Geronazzo

Na noite de 20 de agosto, durante uma vigília que reuniu cerca de dois milhões de jovens com o papa Bento XVI, no aeroporto militar de “Cuatro Vientos”, em Madri, Espanha, uma forte tempestade quase cancelou o evento mais importante da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

 

Enquanto a multidão de jovens e o papa se encharcavam com a forte chuva e rajadas de vento que tomavam a área equivalente a 50 campos de futebol, um grupo de jovens comemorava, de dentro de um ônibus estacionado na lateral do aeroporto, a participação ‘virtual’ de milhares de pessoas que acompanhavam o evento pelas redes sociais.

Trata-se do Ônibus 2.0, de onde as redes sociais oficiais da JMJ eram monitoradas durante todo o evento, conectando milhões de jovens do mundo inteiro ao evento em Madri.

Planejado pela Alegria-Activity, a unidade móvel foi desenvolvida em um veículo de 13,80 metros. Com a lateral ampliável e removível, o espaço interior chega a quase 45 metros quadrados. Uma parede de vidro grante à sala uma iluminação natural e permite que os voluntários observem de dentro os acontecimentos externos, ao mesmo tempo que atrai os olhares de quem passa por perto. Além disso, para acompanhar a transmissão de outras mídias, há uma tela grande e um sintonizador de rádio ligado aos altofalantes do veículo.

O Bus 2.0 pode acomodar até 30 pessoas trabalhando, com 21 equipamentos instalados e capacidade de conexão para outros equipamentos portáteis com ligação à internet através de linhas ADSL e outras 3 UMTS preparadas para resolver eventuais falhas de rede. Isso garantiu a transmissão minuto a minuto de cada atividade da jornada.

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O Bus 2.0 da JMJ começou seu trabalho nas cidades Albacete e Ávila, informando sobre as atividades da juventude na preparação da jornada. Em Madri, o veículo marcou presença sobretudo nos chamados atos centrais da JMJ, como a acolhida do papa na Praça de Cibeles e a Via Crucis pelas ruas da capital espanhola.

Dentro do veículo, 60 voluntários se revezam para atualizar os perfis em 21 idiomas nas principais redes sociais: Facebook, Twitter, Myspace, Flickr, YouTube.

Bus 2.0Entre estes voluntários estava o jovem Lucas Monteiro, de São Luís do Maranhão, que desde fevereiro estava trabalhando na equipe das redes sociais da JMJ. Ele contou que o uso das redes sociais foi pensado desde o início da organização do evento “como um importante meio para que a proposta da jornada chegasse àquelas pessoas que não poderiam vir à Espanha”.

Ainda de acordo com Lucas, os jovens que acompanhavam as redes sociais da jornada se sentiam mais participantes do evento. Os peregrinos também interagiam muito com as redes sociais. “Muitos tiram dúvidas sobre a cidade de Madri, sobre as atividades culturais”.

Durante os dias da JMJ foram mais de 350 mil pessoas que seguiram os perfis das redes sociais em diferentes idiomas. Para não mencionar todos aqueles que visitaram a webTV, com conteúdo específico para a jornada, a página aberta no Flickr e o canal no YouTube, com mais de um milhão de assinantes .

Como Lucas, outros voluntários gerenciavam os diferentes perfis da JMJ nas redes sociais. O jovem croata Ana Curkovic, professor de espanhol, traduzia para seu idioma nativo todas as notícias do site oficial do evento, enquanto Liana Randazzo, dos EUA, também professora, fazia o mesmo com aqueles em Inglês.

“Os voluntários passaram dois anos trabalhando juntos”, diz Carlos Gutierrez, um dos responsáveis pela gestão do Twitter espanhol. Ele acrescenta: “Se é cansativo? Quando você faz algo que você gosta e acredita, não. E se um dia você tem menos energia, o seu parceiro lhe dá a mão”. Multiculturalismo, valores, aprendendo a cada dia da troca … “Você vê que, quando há milhares e milhares de pessoas compartilhando fotos, vídeos, conteúdo… No final não há muitas diferenças entre nós, mas um interesse comum: nós podemos ajudar a construir um mundo melhor “.

Mais fotos

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Este texto é um trabalho para a disciplina design informacional, da pós-graduação 2011 na PUC-SP.

Um relato do Newscamp 2010

Foto: Coletivo UARA (buy cialis online

hotos/flimultimidia” target=”_blank”>mais fotos aqui)

A edição de 2010 do Newscamp atraiu muito mais do que apenas jornalistas para discutir jornalismo na internet. Advogados, músicos, acadêmicos, graduandos e graduados, blogueiros, além dos próprios jornalistas e vários profissionais de várias outras áreas da comunicação participaram durante dois dias da desconferência que aconteceu durante o Fórum da Cultura Digital Brasileira. Todos compartilharam experiências e deram início a alguns projetos coletivos.

O modelo de desconferência é permitir mais do que simples apresentações de uma mesa e debates: é um encontro aberto, onde todas as pessoas falam e participam com ideias que não morrem no evento. Para acompanhar um pouco do que foi discutido e apresentado, listamos abaixo algumas das conversas.

Formação, financiamento do jornalismo online e outros assuntos foram os primeiros a entrar na discussão, logo na manhã de segunda-feira. Aqui tem alguns depoimentos sobre.

Jornalismo colaborativo

Há controvérsias sobre como nomear o jornalismo em que o público participa de alguma maneira: colaborativo, participativo, cidadão, grassroots. O Rafael Sbarai (Veja), colocou no blog De Repente a apresentação que acabou não fazendo, mas que tem muito do debate que foi feito. A Ana Brambilla também falou sobre isso, grande pesquisadora do tema que é. Mas para além do debate semântico, também há quem diz fazer jornalismo colaborativo e apenas abre uma caixa de comentários numa reportagem. Há quem vá mais longe e discuta a pauta com o público, ou tente realizar reportagens com ajuda do cidadão na apuração.

Ana Brambilla conversou com o fundador do OhMyNews, que deixou de ser um veículo colaborativo em setembro, depois de 10 anos de experiências nesse sentido. Muitos viram isso com preocupação, de que o modelo estaria em decadência. Ana contou que o argumento deles é que não havia um público bem definido para o veículo colaborativo internacional, já que a tentativa era cobrir o mundo todo. Sem isso, o financiamento também ficava prejudicado. A avaliação é que o colaborativo funciona, mas principalmente para notícias locais.

Data driven journalism

O debate sobre jornalismo em base de dados também começou com polêmicas sobre o próprio nome da discussão. Seria todo jornalismo digital um jornalismo feito sobre base de dados, uma vez que os bits estão organizados assim?, argumentava a pesquisadora Caru Schwingel. Para ela, seria melhor falar em webjornalismo.

Pedro Valente, do Yahoo! (ouça entrevista dele aqui), contou que começou a investigar programação como jornalista porque queria ele mesmo tentar subir suas páginas para a internet. Hoje ele é um jornalista que entende de programação e que não gosta de rótulos. As fronteiras entre funções e profissões andam cada vez menos claras.

Durante o NewsCamp, Pedro Markun e Daniela Silva, da Esfera, empresa que faz parte da Casa da Cultura Digital, fizeram uma oferta de uma microbolsa de R$ 2 mil para projetos que trabalhem a abertura de dados. “Pode ser qualquer coisa, desde um curso para que jornalistas aprendam programação, até projetos que contratem um designer, ou um programador, para ajudar a realizar um trabalho”. Mais infos sobre a microbolsa, aqui.

Também surgiu ali uma proposta mais concreta: o jornalista Marcelo Soares (MTV), especialista em RAC (reportagem com com auxílio do computador, outro nome que gerou polêmica), organizou uma planilha com todas as obras do PAC. A ideia seria tentar construir o que já foi feito nos EUA, que é uma interface colaborativa de acompanhamento das obras do governo. Nenhuma redação tem capacidade para investigar todas as 2.600 obras, mas os cidadãos poderiam. Cada um poderia ser uma uma espécie de fiscal do PAC. A Esfera de um lado (Markun e Dani Silva), a FLi Multimídia de outro (Andre Deak e Felipe Lavignatti), que são algumas das empresas integrantes da Casa da Cultura Digital que estavam no NewsCamp, decidiram que vão levar adiante o projeto e integrá-lo a rede Transparência HackDay. Quem quiser participar desse projeto, junte-se à rede aqui.

Link do grupo de discussão, a rede ThackDay.

Link do site do projeto Transparência Hacker.

Abaixo, a Rede Brasil Atual fez um resumo do resultado do Newscamp:

http://www.redebrasilatual.com.br/radio/programas/jornal-brasil-atual/jornalismo_era_digital.mp3/view

E aqui tem um videozinho do que rolou: http://www.vimeo.com/16856964

E eis também alguns dos que acompanharam o #newscamp pelo Twitter (quem quiser indicar o site ou o blog, avise na caixa de comentários):

@alzimar
@anabrambilla (Terra)
@andredeak (Jornalismo Digital.org)
@caru (Cásper Líbero)
@ceila (Desabafo de Mãe)
@danielabsilva (Esfera)
@diegocasaes (Global Voices)
@emiliomoreno
@fabiomalini
@gilmar_
@juba7
@lavignatti (Jornalismo Digital.org)
@lucianosb
@lueba
@magalyprado (Cásper Líbero)
@markun (Esfera)
@nannirios
@pedrovalente (Yahoo!)
@rafaelsbarai (Veja.com)
@tsavkko