dados abertos no estadão: o basômetro

O Estadão sai na frente dos jornais brasileiros ao seguir uma lógica já aplicada em alguns dos maiores jornais do mundo, como o Guardian ou o New York Times: jornalismo em bases de dados abertas. O site lançou uma ferramenta interativa que permite cruzar dados públicos, antes de difícil acesso, em separado, e inacessíveis até então da maneira visual como o Estadão apresenta em seu site: é o basômetro, que apresenta quais parlamentares votam mais de acordo com o governo ou com a oposição; ou seja, mede a taxa de governismo dos deputados (quem é mais base de governo ou não).

Mas não apenas foi gerada uma ferramenta de visualização complexa e de utilidade incontestável – o que já seria um avanço em relação ao jornalismo interativo praticado na internet -, mas toda a programação está aberta, disponível a quem quiser avançar pelos códigos em outras searas.

A equipe do Estadão Dados explica:

Os códigos e os dados no Basômetro estão disponíveis no Github e no Google Docs ( votos deputados em 2012 , votos deputados em 2011 , lista de votações na Câmara , votos senadores (2011 e 2012) , votações Senado ).

O Basômetro se inspirou no projeto Camaraws, de Leonardo Leite e Saulo Trento (PoliGNU – Grupo de Estudos de Software Livre da Poli-USP), que usou os resultados de votações na Câmara dos Deputados para avaliar o grau de semelhança entre os partidos (veja aqui).

O Estadão Dados é uma equipe formada por jornalistas, programadores e designers: José Roberto de Toledo, Daniel Bramatti, Eduardo Malpeli e Amanda Rossi. No projeto do Basômetro, colaboraram também Carlos Lemos, Bruno Lupion e Ricardo Periago. O Basômetro também recebeu valiosas contribuições de Fabio Sales, diretor de Arte do Grupo Estado.

A equipe também nos enviou um breve texto detalhando o processo de criação, e explicando a façanha. Atenção para uma opção já comum entre os maiores desenvolvedores, mas no Brasil pouco explorada, que é a opção por códigos alternativos ao Action Script (Flash), que rodem também em ipads, iphones, e demais equipamentos móveis.

Quando o Basômetro começou a ser criado, os resultados das votações nominais do Congresso estavam disponíveis nos sites da Câmara e do Senado apenas como arquivos isolados – um para cada votação. Não havia ainda uma visão agregada de todas as votações. Por isso, uma das primeiras etapas do trabalho foi selecionar os dados, organizá-los e limpá-los – só na Câmara, trabalhamos com mais de 50 mil linhas de dados. Todas as ferramentas que utilizamos neste processo são livres e gratuitas, como o Open Office e o Google Refine.

Ao mesmo tempo, a equipe começou a desenhar e a testar formas visuais de apresentar a informação, que permitissem ao usuário tirar conclusões rápidas, mas também possibilitasse que ele aplicasse diversos tipos de filtros para realizar análises pessoais. Por exemplo, escolher o período de tempo analisado, o partido, o estado ou o parlamentar. A ferramenta foi escrita em Javascript. A escolha da linguagem objetivou deixar a tecnologia acessível aos desenvolvedores de web. Além disso, o Javascript permite que a ferramenta rode em todas as plataformas computadores, tablets, smartphones.

Um dos princípios do Estadão Dados é a transparência. Por isso, todos os dados e códigos estão disponíveis (no Google Docs e no GitHub) e podem ser reutilizados livremente.

Com mapa e perdido

É muito comum no jornalismo um pedido de infografia sobre um assunto qualquer e o resultado final ser muito bonito, mas pouco informativo ou prático. Este mapa do estadao.com.br, No rastro português, é um bom exemplo disso. A apresentação é linda. Ao entrar no especial, os movimentos com o mouse também impressionam, assim como todo o desenho dos boxes e do mapa. O conteúdo também é bom. É uma grande reportagem sobre a herança portuguesa nos países que tiveram sua colonização. Agora, para acessar todo este material, para navegar pelo conteúdo, você vai precisar se desdobrar um pouco.

A forma escolhida para apresentar estas nove colônias foi um mapa. Melhor escolha impossível. Aqui você consegue ver o tamanho da expansão que Portugal conseguiu. Ao clicar em cada um destes pontos abre-se um box com um pequeno texto sobre o local. Ao fim do texto, um Saiba Mais pode ser clicado para te levar para o texto completo em outra aba.

Nesta outra aba, você encontra a matéria relacionada com o ponto. Ou seja, o pequeno texto do box e mais uns poucos parágrafos. Para voltar ao especial, só trocando de aba, já que não há link algum em nenhuma das nove matérias. Em resumo, o especial é uma lista de nove links para matérias que fazem parte de uma grande reportagem.

É fácil notar que todo o material aqui veio do impresso e foi adaptado (tem até um leia mais na Página 12 na matéria de Angola). Ainda tem a matéria de apresentação da reportagem, que só pode ser acessado na tela inicial do infográfico no Saiba Mais. Se você não clicar ali, você não vai achar tão fácil este texto. Nesta matéria principal há links para os outros textos, mas somente dois, inexplicavelmente.

Devem ter gasto um bom tempo fazendo o mapa animado e os desenhos. O resultado estético ficou lindo, mas pouco prático. Nem sempre o conteúdo do papel é transposto da melhor forma para a internet e No rastro português é um exemplo disso. Para finalizar, deixo os links aqui de cada um dos nove pontos. Não é tão bonito como no mapa, mas é tão eficaz quanto.

Matéria principal

Timor Leste
Macau
Goa
Moçambique
Angola
São Tomé e Príncipe
Guiné-Bissau
Cabo Verde
Brasil

E tem mais esse, sobre os eventuais riscos antes de viajar.

 

Entrevista: Equipe do estadao.com.br comenta o ouro inédito no Malofiej 2011

Na semana passada a equipe do estadao.com.br conseguiu um feito inédito na América Latina: ganhar viagra tablets

m” target=”_blank”>uma medalha de ouro no Malofiej 2011, que premia as melhores infografias do mundo. Além de levar este ouro, a equipe ainda conseguiu uma prata, levando duas medalhas pelos seus três trabalhos inscritos na premiação. Abaixo, uma pequena entrevista com Carlos T. Lemos e Daniel Lima da equipe de infografias do estadao.com.br.

Como foram feitas as pautas?

Daniel Lima – No caso do dinossauro, era uma apuração de mais de um ano do repórter Herton Escobar que também já vinha sendo trabalhada pela arte do impresso, aos poucos, ao longo de meses. Entramos na conversa em torno de um mês antes da publicação e discutimos o que ficaria interessante de migrar para o online de forma interessante.

No caso dos jogadores da Copa, tive a ideia da pauta no final de 2009. Pensei: não é só o Brasil que deve ter boa parte de seus jogadores de seleção jogando fora do país. Como será nos outros lugares? Inicialmente imaginei algo mais “clássico”, digamos, a partir de mapa etc. Mas o volume de dados tornaria isso muito difícil. Daí, discutindo com o Carlão, fomos desenvolvendo esse formato de visualização de dados.

Carlos T. Lemos – Foi uma investigação feita pelo pessoal do jornal (detalhes podem me fugir, até porque esse processo foi feito mais no boca a boca, então não tenho nenhum e-mail sobre o processo). Era um uma reportagem do Herton Escobar, e ele acompanhou a pesquisa por quase dois anos (http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/cabeca-dinossauro/). Eu tinha acabado de retornar de férias e estava certo que faríamos uma adaptação do caderno especial que planejavam no impresso.

Originalmente a história da descoberta do fóssil seria publicada no online, mas era uma história difícil de apurar. Tinha um lance com um procurador entrengando uma intimação por crime de assassinato, e viu que o acusado tinha um osso enorme na sala. Era alguma coisa assim, mas acabou caindo.

As ilustrações partiram do impresso ou foi produção online?

Daniel Lima – Todas as ilustrações do info dos Dinos partiram do impresso. Mas o design e produção da interatividade partiu do online, o que criou uma camada adicional de informação (como o raio-x e a ferramenta de comparação de tamanhos dos dinos). O info em si, também premiado na versão impressa, ganhou bastante com esse desenvolvimento específico para a web.

Carlos T. Lemos РAs ilustra̵̤es partiram do impresso. O processo incluiu a contrata̤̣o de um paleoartista (Leandro Sanches) para trabalhar com um ilustrador da casa (Farrel).

O material saiu no jornal antes ou foi discutido em conjunto com a equipe do impresso?

Daniel Lima РFoi discutido em conjunto e saiu simultaneamente com o impresso. O das sele̵̤es foi 100% online. Estudou-se uma adapta̤̣o posterior para o impresso, mas ela acabou ṇo ocorrendo.

Carlos T. Lemos – O material saiu quase ao mesmo tempo. Na verdade o infográfico foi publicado a meia-noite (0h03) do dia que saiu o jornal, então saiu um pouco antes. Ele foi amplamente discutido por ambas as equipes (a editora de arte do online é a Gabriela Allegro), e o tempo todo o Glauco Lara (que fez a edição e a pesquisa do info no impresso), Rubens Paiva e William Marioto (coordenadores de arte do impresso) participaram das discussões e da evolução do projeto online.

O grande objetivo era que ele tivesse vida própria, fazê-lo tão relevante online quanto o que saíria no impresso.

Vocês apostavam mais nesta ou achavam que a das seleções tinha mais chance?

Daniel Lima – Eu pessoalmente apostava mais no das Seleções pelo simples fato de que ele, até onde pude saber, teve mais repercussão internacional, tanto em blogs quanto no twitter. Encontramos menções em japonês, inglês, espanhol, russo etc. Por isso imaginei que o apelo dele fosse mais universal e, por isso, tivesse mais chances. Mas sabíamos que ambos os trabalhos tinham qualidade.

Carlos T. Lemos – Sinceramente, acho as ilustrações e a reportagem incríveis, mas era um info de ciência e achei que a competição era muito dura. Apesar de nunca ter participado da competição e não ter ideia dos critérios de julgamento, o pessoal do NYT e da NatGeo tem muita coisa boa, além dos recursos tecnológicos. Achei que era digno de prêmio (tanto que inscrevemos), mas não achava que era ouro.

O info das seleções rodou o mundo, fez parte de muitos tópicos de discussão internacionais. Era visualização de dados e de um assunto muito simples. Dava pra entender mesmo sem falar português. Na minha cabeça era o que tínhamos de melhor na competição. Mas foi um assunto que todos os jornais deram e acho que, no fim das contas, o que fizemos foi apresentar o assunto melhor que os outros. Isso sem falar que a categoria “reportagem de esportes” foi toda dominada pelo NYT. Ganhou prata pelo design, e foi o prêmio mais alto dado a esta categoria.

No fim das contas, o resultado me surpreendeu positivamente, pois venceu a notícia como um todo.

Foi inscrito algum outro trabalho de vocês?

Carlos T. Lemos – Outros 3:
O Brasil nas Copas, jogo a jogo
Mapa da votação para presidente nos municípios (A versão impressa desse levou bronze, mas também foi um trabalho de sinergia)
A população e as capitais dos Estados


Qual foi o tempo de execução e o papel de cada um no desenvolvimento de cada uma dessas infografias?

Daniel Lima – No info dos Dinos, apenas ajudei a fazer a ponte com o impresso e sugerir formas de aproveitar o material. No das seleções, pautei e apurei. A concepção foi trabalho conjunto com o Carlão, que cuidou da trabalhosa programação. Em relação ao prazo: é uma pergunta difícil. Em ambos os casos, por serem trabalhos extensos, dividimos atenção com outras demandas do dia e das outras editorias. O trabalho, então, nunca é exclusivo.

Carlos T. Lemos – “Os 736…” foram duas semanas. Meu trabalho foi fazer a arte e o programação. Mas acho que dizer assim é meio simplista. O processo criativo visual foi todo discutido em conjunto, e chegamos a várias conclusões juntos. A ideia inicial do info é do próprio Lima. O resultado visual final pode sair da minha mão, mas o processo conceitual e visual não é exclusivo meu. O mesmo vale para o Tapuiassauro (2 semanas no online, alguns meses no impresso).

Dito isto vale lembrar que uma série de pessoas ajudaram no processo. Nossa editora (Gabriela Allegro) também faz parte do processo intelectual de todos os infos. Existiam restrições técnicas que ela foi até as últimas para derrubar e tornar possível a realização.

A equipe de arte do estadao.com.br hoje conta (além de mim e do Lima) com 2 programadores/webmasters (Ricardo Periago e Éder Freire), 2 designers (Cyntia Ueda, Renata Aguiar), 1 ilustrador (Pedro Bottino) e mais 2 jornalistas (Bia Rodrigues e Camila Matos).

MAIS: Veja os medalhistas de ouro do Malofiej 2011