Um manifesto pós-jornalístico

Artigo escrito por Bernardo Gutiérrez (@bernardosampa), CEO e Founder de Futura Media, onde este post foi publicado originalmente. 

(Imagem de Julian Assange por Ben Heine) 

N.E: Publicamos em 2010 o texto A Linguagem Libertada, também um diálogo com o manifesto de Gutiérrez. Também todo o estudo Novos Jornalistas do Brasil fala sobre isso e sobre, inclusive, este termo, o pós-jornalismo. Este é um blog essencialmente sobre pós-jornalismo, como seus editores já se identificam aliás. O texto de Gutiérrez vem em boa hora. Boa leitura.


Para alguns, os jornais de papel estão marcados para morrer. Ross Dawson criou um cronograma com a data exata da morte dos jornais em cada país. Em 2017 terminará o último jornal nos Estados Unidos. Em 2031, não haverá nenhum jornal impresso no Japão. Por volta de 2040 a África ficará sem jornais. Para muitos, a comparação é inevitável: se os jornais desaparecem, o jornalismo também. Os pessimistas usam todas as informações ou relatórios para confirmar a crônica de uma morte anunciada. A indústria da mídia é a que mais rapidamente diminui nos EUA. A mídia afunda na Espanha: os ingresos da publicidade caem 20%. Sem papel não tem jornalismo, pensam os que fazem notícias como sempre fizeram.

Os presságios mortais contra a mídia - ou contra o jornalismo – vêm de longe. O prestigioso pensador Jean Baudrillard, em seu clássico Requiem for the media, de 1972, atacou o sistema de meios de comunicação “unilateral e vertical”. Entendemos que a comunicação - Baudrillard escreveu - como mais do que uma “simples transmissão-recepção da mensagem”. Informar não é comunicar. Mas a maior parte dos meios de comunicação continuou na idade da Internet com a transmissão-recepção clássica da mensagem. O meio é a mensagem, como diria Marshall McLuhan. O papel / tela é tudo. Substitui a mensagem.

Em 2005, Bruce Sterling, um dos escritores mais influentes do cyberpunk, observando a inércia do antigo regime da comunicação, escreveu o Dead media manifiesto (manifesto da mídia morta), “um guia para os paleontólogos da mídia”. Bruce (@bruces no Twitter),  vislumbrou então o suicídio da mídia: “Precisamos de um livro sobre as falhas da mídia, sobre o colapso dos meios de comunicação, um livro que detalhe os terríveis erros cometidos para não repeti-los”. Seu manifesto, em essência, não era muito diferente ao requiem midiático de Baudrillard: “A verdadeira mídia é a transmissão imediata, dada e recebida, falada e respondida, móvel no mesmo espaço e tempo, recíproca e antagônica.”

Confesso que este post não existiria sem o maravilhoso texto Por um manifesto posfotográfico de Joan Fontcuberta, em que o fotógrafo catalão demole os fundamentos da fotografia antiga com uma facilidade surpreendente. Fontcuberta imagina como funciona a “radical criação posfotográfica” em um mundo no qual ”o artista se confunde com o curador, o coletor, o professor, o historiador de arte, o teórico”. “Já não se trata de produzir obras”, ele diz, “mas de prescrever sentidos”. A circulação e a gestão da imagem predomina, diz, ”sobre o conteúdo da imagem”.

Depois de várias re-leituras do texto de Fontcuberta, após mais de quinze anos na profissão, eu troquei a palavra ”jornalista” no meu perfil no Twitter por “pós-jornalista”. E isso que eu tenho muito claro que o jornalismo não vai morrer.Estamos lidando com uma verdadeira mudança semântica do termo. A definição clássica de jornalismo não é mais útil. Pode sobreviver, enriquecida por uma nova definição de “pós-jornalismo”. A redefinição descreve outra realidade, outra prática,outros hábitos. E como é que funciona a criação radical do pós-jornalismo? Tentei imaginar como seria um hardware pós-jornalístico em um decálogo aberto, remixável e claramente melhorável coletivamente. Já está no wiki de movimento Fora do Eixo. Qualquer pessoa pode participar melhorando o manifesto.

1) A informação torna-se um processo compartilhado. Os produtores de informação incluem os leitores no desenvolvimento do conteúdo. Compartilhar em blogs, plataformas de vídeo ou sites os detalhes de como eles têm desenvolvido o trabalho informativo é tão importante quanto o resultado final. O conteúdo irá tornar-se um making of em tempo real.

2) A definição do conteúdo evolui, cresce, se expande. Discutir a notícia, espalhá-la com valor acrescentado (mais conteúdo), remixá-la, é criar conteúdo. A adesão (clickar no “Eu curti” em uma rede social) é uma nova mutação do conteúdo. A edição será considerada uma forma de autoria.

3) O pós-jornalista confunde-se com o curador. Selecionar o conteúdo relevante na infosfera da superabundância será uma das suas principais tarefas. Filtrar conteúdo será uma das funções do pós-jornalista.

4) Temos que entender o pós-jornalismo como uma estrutura de código aberto em constante desenvolvimento. Ninguém é dono do jornalismo.Qualquer um pode usá-lo. Qualquer um pode melhorá-lo. Qualquer um pode hackeá-lo.

5) A notícia - que não vai desaparecer- não é mais a unidade básica do pós-jornalismo. O fluxo, um fluxo constante de fatos, dados e declarações, torna-se a espinha dorsal do pós-jornalista. O fragmento torna-se a unidade básica da informação. A informação torna-se um rio compartilhado que incorpora fragmentos distribuídos produzidos por jornalistas e leitores. O rio vai coexistir com uma estructura de informação descentralizada (arquivo em beta) inspirado na Wikipedia. Alguns, caminho sugerido pela Fundação P2P, vão preferir adicionar informações ao wikicorpo da sua marca que ao rio compartilhado.

6) A informação não é mais um produto: é uma comunidade. Às vezes, as comunidades vão viver ao redor do conteúdo gerado pelos pós-jornalistas. Em outras ocasiões, elas próprias desenvolverão seus próprios conteúdos. A mídia, com conteúdo próprio ou alheio, tem que tentar ser uma plataforma de interações.

7) O imediato será considerado como um simples plug in ou aplicativo de algo maior. Sem um sistema operacional, sem um gestor de conteúdo, o plug in ou aplicativo de software é inútil. O imediato, ainda que importante, já não é o epicentro do pós-jornalismo. A inteligência coletiva de uma população armada de telefones inteligentes será o melhor amigo (não inimigo) do pós-jornalismo para compreender e cubrir o imediato. Grande parte das fontes clássicas serão devoradas por essa inteligência coletiva em tempo real.

8) O pós-jornalismo dá sentido aos fatos já conhecidos. O leitor vai encontrar menos notícias nas marcas informativas. Vai entender depois de consultar as marcas informativas os fragmentos já conhecidos. Portanto, não basta informar. Se comunicar com os leitores não é suficiente. Explicar, analisar e contextualizar são características que irão se diluindo em todos os gêneros narrativos.

9) Sobre a definição de narração: as histórias estarão construídas com peças de diferentes tipos, com peças sobrepostas, com partes modificáveis​​. As histórias vão adotar novos e imprevisíveis formatos híbridos construídos com peças aparentemente desconexas.

10) Sobre o eco da mensagem: agora prevalece a importância da circulação e do compartilhado. A mensagem será coral, distribuída, enriquecida e retroalimentada durante todo o ciclo da comunicação. O eco - uma nova narração coletiva – se confunde com a mensagem.

Our Choice, o jornalismo interativo na versão livro-app de Ipad

Por Ana Ikeda

Elegante, imersivo e bonito (muito bonito). São essas as palavras mais usadas nas resenhas e críticas na imprensa sobre “Our Choice: A Plan to Solve the Climate Crisis”, livro-aplicativo desenvolvido pela Push Pop Press, startup criada por ex-engenheiros da Apple, para um cliente notório: Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e prêmio Nobel da Paz em 2007. Mais impactante que o lançamento do próprio livro multimídia foi o anúncio de Mike Matas, 25, cofundador da desenvolvedora, de que se tratava apenas de um embrião para um projeto ainda maior, o de uma plataforma de publicação que permitiria a qualquer pessoa criar livros tão sensacionais quanto aquele feito para Al Gore. Mas a “revolução editorial” alardeada pela Push Pop Press acabou em menos de cinco meses. A empresa foi comprada pelo Facebook.

Não é à toa que Mark Zuckerberg se interessou pelo trabalho dos jovens desenvolvedores. É difícil definir o que é “Our Choice”: não é parecido com os e-books disponíveis no mercado; também não tem paralelo com pulicações digitais, como o “The Daily”, jornal exclusivo para iPad. Livro-aplicativo parece ser o termo mais honesto para nos referirmos a esse produto, que até o momento parece uma das soluções mais eficientes para a transição da leitura em papel à digital.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=LV-RvzXGH2Y[/youtube]

Ao mesmo tempo em que possui uma navegação extremamente simples, com pouquíssimos botões, ele oferece uma nova forma de construção da narrativa por meio dos seus recursos multimídia. O texto, apesar de ainda importante, não é mais protagonista. Vários vídeos (cerca de uma hora de documentário segmentado em diferentes páginas), fotos (ao menos 400) e infográficos interativos tem peso igual na leitura.

A melhor forma de entender como essa mudança é significativa é conferir o aplicativo (disponível via iTunes para iPad, iPhone e iPod por US$ 4,99) ou simplesmente acompanhar o vídeo em que Matas o apresenta. “Nada de barras de ferramenta, botões de voltar, nós queremos justamente que o conteúdo preencha a tela para que você possa mergulhar nele. Acho que isso resulta numa experiência para o usuário que é muito próxima a de um livro físico, no qual você pode simplesmente viajar no conteúdo e não ser constantemente jogado para fora por ter de lidar com a tecnologia por trás dela”, explicou Matas em um fórum de participantes do TED, que realiza conferências ao redor do mundo para disseminar ideias sobre tecnologia, entretenimento e design.

Ao usar o livro-aplicativo, fica clara a preocupação da Push Pop Press em evitar um erro comum cometido pelas publicações que passam do papel aos tablets, que é simplesmente imitar o “folhear das páginas”. Segundo Matas, essa é uma das principais barreiras entre os dois meios de publicação. “Na transição do impresso para o digital, não podemos perder a habilidade de mergulharmos no conteúdo”, disse no TED. Para cumprir essa meta, houve a preocupação em fazer com que cada página tivesse um tempo de navegação semelhante, o que Matas chama de “livro estável”. Sempre há um pedaço da página anterior na próxima página, para que a pessoa saiba que está avançando pela história. “Quando você segura um livro impresso, pode ver o final dele e tem uma ideia aproximada de que ponto está e para onde está indo. Em uma tela, se você não pensa numa forma diferente de mostrar isso, a experiência de leitura parece realmente descontinuada”, explicou no fórum.

Da parte ao todo

Para desenvolver esse projeto para Al Gore, que foi iniciado em setembro de 2009 e lançado em abril deste ano, a Push Pop Press precisou criar uma plataforma completamente diferente do que existia no mercado, dominado principalmente pelas ferramentas da Adobe. Depois de tanto tempo gasto em seu desenvolvimento, por que não aproveitá-la comercialmente?

Além de Matas, designer de interface, participaram do projeto Kimon Tsinteris, arquiteto de software, Austin Sarner, engenheiro de software e Bret Victor, designer de infográficos. A principal diferença dessa plataforma seria a eliminação de alguns “intermediários” entre o autor e o seu livro: os programadores e designers. Então, mesmo sem grandes conhecimentos em linguagem de programação ou softwares de edição de imagens, qualquer pessoa seria capaz de produzir um livro-aplicativo, com direito à interatividade e impacto visual. Para jornalistas, por exemplo, seria uma tremenda ferramenta: liberdade em relação aos conglomerados de mídia e editoração, aliada à publicação de conteúdo especial (e visualmente atrativo) para o mercado crescente de usuários de tablets.

[vimeo]http://www.vimeo.com/22872218[/vimeo]

Matas evitou ao máximo dar detalhes da tecnologia por detrás da ferramenta de publicação, reiterando sempre que o objetivo era que “a plataforma fosse amplamente disponível”. Ainda na discussão do fórum do TED, respondeu apenas que usou uma linguagem de programação chamada Quartz Composer, encontrada em computadores Mac (o que demonstra a atitude deles em ignorar completamente a plataforma Android, do Google), principalmente para criar os elementos de animação e interatividade.

A empolgação e o burburinho gerados foi tanta que um editor da Wired chegou a dizer que a novidade, se projetada com sucesso, “poderia facilmente se tornar no meio mais rápido e fácil para editores e artistas independentes transformarem seus conteúdos em aplicativos para iPhone e iPad e ‘tomar uma pancada’ de dinheiro na App Store.”

Mas não foi bem assim que a história terminou.

Devorado pelo Facebook

Poucos meses após o lançamento de “Our Choice”, em agosto deste ano, o Facebook anunciou a compra da Push Pop Press, bem discretamente, sem informar quanto pagou pela startup. Em um post, a desenvolvedora de Matas apenas revelou que, apesar da rede social não ter planos de publicar livros digitais, “as ideias e a tecnologia por trás da Push Pop Press seriam integradas ao Facebook”. Mas como?

O jornalista Ilie Mitaru, em uma análise publicada na PC World, especulou que o Facebook poderia criar uma rival para a eBookstore do Google. Assim como a gigante de internet, a rede social tentaria mobilizar alguns dos seus quase 800 milhões de usuários para utilizar uma ferramenta que iria além da mera loja de livros digitais.

Outro palpite do colunista foi o de que a tecnologia da Push Pop Press ajudaria no lançamento do aplicativo oficial do Facebook para iPad, aguardado há meses e uma deficiência grave na rede social de Zuckerberg. Essa última opção soa muito mais provável: basta lembrar que Matas e sua equipe eram da Apple.

Embora a tão sonhada “revolução editorial” da Push Pop Press tenha sido “engolida” pelo Facebook, nada impede que outros desenvolvedores de aplicativos para tablets se inspirem nessa ideia. Quem sabe para a plataforma Android, até.

 

Este texto é um trabalho para a disciplina design informacional, da pós-graduação 2011 na PUC-SP.