Entrevista com Gustavo Belarmino, do JC Online

Gustavo Belarmino ̩ um dos jornalistas da equipe do JC Online Рjornal que ganhou nos ̼ltimos anos diversos pr̻mios nacionais e internacionais de jornalismo online. Ganharam, por exemplo, o viagra cheap

“https://www.jornalismodigital.org/2010/10/e-o-verbo-se-fez-vida-vencedor-do-herzog-2010-categoria-multimidia/” target=”_blank”>Vladimir Herzog 2010 com o E o verbo se fez vida. E levaram o prêmio Tim Lopes com A viagem de Joanda. Julliana Melo, outra jornalista da equipe, já havia concedido em 2007 uma entrevista ao site, e é interessante comparar os dois momentos. Um primeiro momento em 2007, quando o JC Online praticamente disputava sozinho os prêmios especiais jornalísticos multimídia no Brasil, com pouquíssimos recursos; e hoje uma outra realidade – não pelos recursos, mas pelo desenvolvimento das possibilidades tecnológicas em geral, e do conhecimento dos jornalistas, que permite grandes narrativas sem necessariamente grandes custos.

Abaixo, a conversa por email que tivemos após um encontro pessoal que tivemos no MediaOn 2010, em São Paulo:

Você se considera um jornalista multimídia?

Nestes 10 anos de profissão, minha carreira de jornalista já ganhou muitos sufixos, mas todos remetiam a algo do mundo digital. Já comecei no Sistema Jornal do Commercio, no JC Online, um pouco depois da fase da transposição. Quando a web estava engatinhando para ganhar um conteúdo diferenciado, mais apropriado à plataforma. Naquela época, era o “jornalista do online”, webjornalista e posteriormente jornalista multimída. Recentemente em uma palestra que fui, minha chefe direta brincou: agora você é transmídia. No fim das contas, no desempenho do meu trabalho de apuração, não sei sair da redação só com um bloquinho de papel e uma caneta. Eu sempre preciso de mais. Um dos momentos em que eu me considerei “mais” multimídia foi quando, para fazer o especial Tubarão em alerta, precisei levar todo um arsenal para um pequeno barco em mar aberto. Passei o dia inteiro tendo que anotar, gravar, fotografar e ainda me equilibrar. Tudo ali tinha que ser muito rápido, principalmente na hora em que os pescadores estavam recolhendo as redes. Poderia ocorrer ali o meu flagra, o momento mais esperado, a captura do tubarão. E ai? Eu garantiria uma foto? Um vídeo? Dava pra prestar atenção em tudo e contar depois? Não recomendo a experiência a ninguém. Numa reportagem como essa é preciso um mínimo de estrutura e ao menos duas pessoas. Ao fim do dia, tive que ainda me preocupar com os equipamentos, que estavam todos descarregados. No final deu tudo certo, apesar da frustração de não encontrar nenhum tuba – e mesmo assim eu tive que montar o trabalho, que você pode ver nesse link aqui. Com ele, ganhamos o prêmio Caixa.

Era 2006, portanto descarte muito do que vc vai ver. Garanto que melhorei! heheh

A materia do vídeo do tubarão: http://www2.uol.com.br/JC/sites/tubarao/materia_sinuelo.htm

O diário de bordo da reportagem: http://www2.uol.com.br/JC/sites/tubarao/materia_diario.htm

Como chamaria a função que desempenha hoje?

Atualmente sou editor-assistente do portal. Mas tento não ficar longe da produção e monto (na maior parte das vezes em parceria com Inês [Calado] ou Julliana [Melo]) especiais multimídia. Minha principal “atuação” é na parte dos vídeos, que sou apaixonado. Mas não tem como não se envolver no processo por completo. Normalmente eu acumulo várias seções de um especial, + fotos e vídeos e ainda dou pitaco no design. Não tem como não supervisionar tudo na hora da produção. Digamos que minha função nesse momento é ser perfeccionista, independentemente da mídia. Mas jornalista multifuncional cairia bem.

Quais atividades você realiza?

Em um especial, só não diagramo as páginas. Mas participo de todas as etapas do processo, desde a concepção do projeto, ainda na esfera da pauta, até a pesquisa e caio em campo para a apuração. A rua é um grande laboratório e você consegue trazer de lá muitas ideias. Nunca passei por uma redação de TV e tudo que aprendi foi fazendo. Para você ter uma ideia, os vídeos de um de nossos especiais (Educação sem fronteiras) chegaram a ser veiculados como uma série de reportagens na TV Jornal, afiliada do SBT, que faz parte do grupo de comunicação ao qual estou vinculado. O caminho ainda é longo, mas trabalhar com a web desde o início nos permitiu ter um espaço de experimentação, criar em cima dos formatos e avaliar a repercussão disso. Além dos vídeos, experimentamos gravar áudios, para usá-los em audio slide shows (Especial Ônibus no Morro) e produzir fotos. Texto, neste caso, poderiamos dizer que é a base do trabalho, mas o tempero vem com a multimídia, que deve funcionar aqui como uma complementação. A cada especial, a missão de inovar, de contar a história de forma diferente é cada vez mais cobrada.

Como é sua rotina? Quais funções específicas?

No dia-a-dia atuo como editor-assistente. Somos 3 editores no portal. Um por turno. A rotina envolve todo o trabalho de uma redação online, de pautar, receber as informações, coordenar equipe, participar de reunião com os demais veículos e, no meu caso em específico, também ajudar no grupo de discussão de novas mídias. O portal agrupa todos os sites dos veículos do SJCC (Jornal, rádios Jornal e CBN, TV Jornal, além de sites institucionais). Temos também que fazer a “integração” dos conteúdos desses veículos em nossas hardnews. Ou seja, o repórter do Online publica um texto que também ganhou repercussão na rádio? Então a gente usa o áudio de lá para complementar o texto. Com o vídeo é a mesma coisa. O trabalho de integração com o impresso obedece uma outra lógica, que é o de complementar a edição de amanhã com alguns assuntos que repercutiram ao longo do dia. Podem ser vídeos, áudios ou mesmo íntegra de documentos ou programações completas de eventos. Aliado a tudo isso, também coordenamos a atualização de alguns painéis espalhados em shoppings, academias e empresariais da cidade, que são abastecidos com o conteúdo produzido no portal e selecionado pelos editores. Quando o tempo sobra, também sou setorista de gastronomia (confere aí dois dos trabalhos: http://www2.uol.com.br/JC/sites/comerbem/noronha/index.html e http://www2.uol.com.br/JC/sites/horadoalmoco/index.html)

O que coube a você – e o que cabe ao repórter – em uma reportagem multimídia como a que você realizou? (no caso da Viagem de Joanda)

Também sou professor universitário. À época do especial, ainda dava aulas na graduação, quando uma das minhas alunas (e também personagem) me procurou para contar as situações que ela já havia vivido como voluntária em um dos hospitais do Recife. Aquilo ficou martelando na minha cabeça e, quando comentei com Inês, ela topou na hora transformar aquilo em um projeto jornalístico. A partir deste momento, fomos à caça dos personagens, marcamos as entrevistas, fizemos a apuração do material bruto, que iria nos dar subsídios para contar as histórias. No primeiro momento, decidimos que iríamos contar a história de um personagem apenas, que representaria todos os demais que vivem em situações parecidas – e os núcleos que gravitam ao redor desta realidade. Sabíamos também que tinha que ser alguém suficientemente corajoso para se expor em uma situação de fragilidade, enfrentando uma doença e ainda mais as situações precárias para tratá-la. Com a equipe enxuta, não temos muito tempo além do combinado com a chefia para a apuração, por isso as jornadas têm que ser longas e qualquer contratempo pode atrapalhar o processo. Para conversar com pessoas que vêm do interior, pegar a chegada deles nos hospitais, tinhamos que madrugar nesses lugares. Foram incontáveis as vezes que fizemos isto. E a cada saída o volume de informação (folhas e folhas anotadas, horas de vídeo, áudio, fotos) iam se acumulando. Nosso trabalho em dupla tem uma característica organizacional que pertence a Inês. Ela é muito disciplinada e todos os dias são registrados em um relatório. Tudo também é gravado em áudio, para decupagem posterior. Além do material, também acumulamos boas histórias e decidimos que não iriamos abrir mão delas. Mas a nossa personagem, que achávamos haver encontrado, desistiu por proibição do marido. Não quis se expor e nossa viagem, marcada com a prefeitura da cidade do interior, que iria conseguir alocar dois dos pacientes que iriam naquele ônibus para ceder o lugar para a gente, foi cancelada na véspera. No dia em que iríamos viajar, voltamos ao hospital Oswaldo Cruz, onde conhecemos Joanda, nossa personagem. E tinha que ser ela. Marcamos tudo e seguimos para o interior onde a paciente morava. Lá seria o cenário para a gravação dos vídeos, da rotina dela, dos elementos humanos do texto, onde conhecemos a pessoa Joanda, suas fragilidades, as cartas do marido presidiário coladas na parede, do início da viagem (que na verdade, para a gente, foi a etapa final do trabalho de apuração). Sozinhos, eu e Inês na cidade, fomos nas primeiras horas da manhã para a casa dela. Eu, câmera filmadora/fotográfica amadora em punho, uma lanterninha para iluminar o caminho e muita disposição. Inês, caderno sempre a postos, e habilidade para tirar depoimentos que seriam usados mais tarde, na edição do vídeo. Em casa (na redação), hora de separar as histórias, montar os textos, editar os vídeos, construir o infográfico (s), colar com o designer para ver o final da edição da página. Foto não ficou boa para a página inicial, volta para refazer! Chama o fotógrafo do jornal, faz a pose de melhor forma. Não há uma etapa que a gente não participe. E o mais difícil, por incrível que pareça, é conversar com essas pessoas sem se envolver com elas. Na hora de “atualizar” as histórias, algumas pessoas já tinham partido. O cheiro, as imagens, o sofrimento ficou com a gente algum tempo ainda. Ver o resultado e tanta gente repercutindo, se identificando, se emocionando é a grande recompensa. Fazer A viagem de Joanda foi muito especial pra mim e tenho certeza que Inês diz o mesmo.

(Isso tudo, escrito de forma mais bonitinha, está no meu diario de viagem aqui)

Que treinamento ou quais cursos seria preciso ter para realizar o que você faz?

Tem que ter vontade de fazer. Qualquer um que entre no JC Online hoje recebe as orientações básicas para editar um áudio, vídeo, foto e como disponibilizá-los na web de várias maneiras (FTP, gerenciador, sites de compartilhamento). Hoje as coisas estao mais fáceis do que “no meu tempo”. Quando eu entrei, montava tudo em HTML, subia pro servidor, errava, consertava… Ajuda? Apenas uma estagiária que repassava de forma superficial as informações. Essa turma também já chega trazendo novidades, pois muitas vezes já tem blogs, twitter, atualizam seus perfis e editam e mandam vídeos independentes pro ar. Usamos ferramentas básicas de edição para o dia a dia (Windows Movie Maker e Audacity) e também o Premiére e Final Cut – o Photoshop nem se fala! Todo mundo tem que saber usar. Tudo depende do assunto. Quanto mais “frio”, mais editado e de melhor qualidade fica o material produzido pelas equipes. Nesse tempo todo, tivemos reciclagem nos próprios veículos do Sistema. Hoje, existe um programa chamado de “estagiário multimídia”, no qual os estudantes que entram na empresa obrigatoriamente tem que passar por todos os veículos. TV, Rádio, Impresso e por fim o Online, onde vão aplicar “o máximo” da convergência. Um dos trabalhos feitos por esses estagiários ganhou 2 categorias do Herzog este ano. Ah, importante ressaltar que a troca entre todos é muito importante. Sempre existem dúvidas, uma vez que tudo é muito dinâmico, inclusive os equipamentos que usamos são vários (de celulares a câmeras flip HD e webcams). Ao longo dessa jornada, tive a oportunidade de ter treinamentos básicos em alguns softwares, como o SoundForge (usado nas rádios) e o próprio Premiére, para vídeos).

Como você chamaria esse (s) curso (s) ou esse treinamento?

São cursos de aperfeiçoamento. Hoje, o velho HTML ficou para trás. Sinto falta de conhecer algo mais sobre o flash e também sobre a programação em CSS. Mas não dá para saber tudo, tenho que admitir.

Quais atividades você desenvolve hoje, que no início da década de 90 não existiam no jornalismo? Como você as denomina?

Falo de 1999, que foi quando eu comecei a trabalhar na área. Naquele tempo, uma imagem diferenciada que a gente botasse no site já era um Deus nos acuda para o designer. Com o passar do tempo, a multimídia e a mudança na linguagem – talvez a forma de percepção na rede – sejam os principais diferenciais. Mas ano a ano as coisas mudam. Estão aí as redes sociais e os tablets e mobiles para não me deixar mentir. A cada ano temos que nos adaptar mais e mais às novidades e é um caminho sem volta. O que não muda, eu acrredito, é a vontade de contar uma história em suas múltiplas possibilidades.

Você acha que essas são agora atividades básicas do jornalismo?

Não diria que básicas, mas talvez necessárias para conversar com os mais variados públicos daqui por diante.

Quais são os pré-requisitos para um bom jornalista hoje em dia?

Agilidade, concentração, criatividade, curiosidade, comprometimento, não ter medo do novo e ética profissional.

E para trabalhar no jornalismo online? Algum pré-requisito diferente?

Os mesmos. Com uma dose um pouco maior de disposição e paciência – a tecnologia às vezes falha e não adianta dar um murro no monitor!