Infografia interativa de código aberto

Fizemos aqui na Casa da Cultura Digital (CCD, daqui pra frente) uma infografia interativa que merece algumas linhas. Primeiro, trata-se de um trabalho do nascente grupo que chamamos de Núcleo de Infografia e Visualização de Dados da CCD.

Havíamos realizado alguns trabalhos já antes, para a revista Teoria e Debate e outros jobs. Dessa vez, unimos a agência de jornalismo Pública (Natália Viana, Ana Aranha, Fabiano Angélico), a equipe de design e desenvolvimento da Cardume, e com ajuda dos jornalistas da Scarlett (eu e Felipe Lavignatti) chegamos num modelo inovador, em que os dados todos da infografia são públicos, o código da infografia é aberto, e tudo foi usado de maneira criativa, com mapas livres, e tecnologia desenvolvida na CCD.

Com a palavra, Miguel Peixe, desenvolvedor da Cardume:

A navegação pelos dados do infográfico usa como base de dados uma planilha do Google Docs, interpretada em CSV e transformada dinamicamente em JSON para processamento em JavaScript. Ou seja, mesmo que não seja o caso de o infográfico ser atualizado, ao modificar a planilha do Google Docs, o infográfico interpreta automaticamente. Isso pode ser replicado para outros infográficos, basta estabelecer uma estrutura de cabeçalho para a planilha e alterar o código para interpretá-la corretamente.
Para cada categoria de irregularidade (cidade, programa do governo e tipo de irregularidade) fora criada uma outra planilha. Utilizando o recurso de Pivot Table do Google Docs isso foi feito automaticamente, sem precisar caçar quais são e escrever uma a uma. Dessa forma pudemos trabalhar com diferentes taxonomias dentro das irregularidades sem tomar muito recurso do sistema.
Falando especificamente da criação da planilha de cidades pude acrescentar valores que permitiram a geolocalização dentro dos mapas. A mesma planilha servindo como taxonomia de irregularidade e informação geolocalizada. Eu tinha apenas o nome da cidade e o estado, valores insuficientes para uma geolocalização, que precisa de latitude e longitude. Para resolver isso encontrei uma solução desenvolvida pelo pessoal da MapBox, um script que intepreta uma coluna, busca através de uma API pelos valores de lat-long da cidade e cria duas novas colunas preenchidas com esses valores. De forma simples e rápida tive minhas cidades mapeadas e prontas para serem usadas.
O mesmo script utilizado para geolocalizar as cidades também me permite exportar os dados em formato GeoJSON, interpretado pela tecnologia de visualização de mapas Modest Maps (com a extensão Wax e Markers.js) e pelo TileMill, software utilizado para fazer o design dos mapas.
Como eu gosto de fuçar nas coisas e gastar pouco com isso, me aventurei em fazer o nosso próprio servidor de mapas ao invés de utilizar o serviço que o MapBox oferece. Talvez isso seja história para outro relato.
Em breve, a Casa da Cultura Digital deve lançar uma oficina de mapas e usos de tecnologias livres. Se alguém tiver interesse, por favor deixe um comentário e email de contato.

Duelo das misses

Jogo criado pelo UOL na cobertura especial de Miss Brasil
por Cintia Baio
A cobertura de concursos de misses é algo tradicional no UOL e acontece desde 2003. Todos os anos, a editoria de Tabloide acompanha os eventos do tipo e produz conteúdo em texto, vídeo, foto e ferramentas interativas — como o “Monte sua Miss ideal”, que permite juntar partes do rosto de diferentes candidatas e criar a miss perfeita.

Em 2011, o portal decidiu replicar o famoso jogo do “Super Trunfo” na cobertura especial de Miss Brasil. Seguindo as regras do jogo real, a ideia era apresentar as candidatas e, ao mesmo tempo, divertir o leitor. Obviamente, cada uma das misses representaria uma carta. O coringa (carta trunfo) seria a vencedora do concurso de 2010, uma vez que ela possui todas as atribuições que a fizeram vencer o concurso.

A primeira dúvida foi decidir o que usar como itens de disputa nas cartas. Dados do Estado que cada uma representa? Notas dadas pelo editor do UOL Tabloide? Notas a atributos como simpatia, beleza podiam ser interessantes, mas acabariam gerando discussões por serem subjetivas demais.

Assim, ficou decidido que atributos físicos seriam os itens. O internauta deveria escolher um deles (cintura, busto, quadril e simpatia) e venceria quem tivesse o maior. No caso da cintura, menor (claro!). O único subjetivo seria “simpatia”. A nota foi dada pelo editor do UOL Tabloide, que passou um dia todo com as candidatas.

Primeiro layout
Depois de definido como o jogo seria feito, o designer começou a fazer o desenho usando Photoshop e Ilustrator. A ideia era ter uma tela inicial, que abrigasse o resumo do jogo, regras e a possibilidade de ver todas as cartas. O visual deveria combinar com as imagens das misses e ter uma navegação simples. Nessa parte, foram 5 dias de trabalho.

O resultado mostrou que o jogo seria muito comum e sem muitas diferenças em relação a outros modelos de Super Trunfo já feitos. A partir daí, foi decidido criar vídeozinhos das cartas, em um esquema “Harry Potter”, para dar mais diversão e movimento ao jogo.

A possibilidade de gravar cada uma das misses para a produção dos vídeos só foi confirmada pouco mais de uma semana antes da publicação (mesmo a decisão ter sido tomada dois meses antes). As misses se reuniram em um hotel em Angra dos Reis (SP) uma semana antes do evento e a reportagem teria apenas um dia para, além de fazer os vídeos para o jogo, gravar para outras matérias e produzir mais conteúdo para reportagens e álbum de fotos.

Além de não saber se a reportagem teria tempo hábil para capturar as imagens, a equipe de vídeo tinha um desafio técnico: as imagens seriam gravadas dentro de um quarto de hotel, com um cromaqui, e não era possível saber com antecedência se haveria ou não luz suficiente no local.

Por conta de problemas técnicos também, só foi possível gravar as imagens com meio corpo. Filmar o corpo todo ficou impossível por conta do espaço disponível, que não dava conta de um cromaqui maior e de comportar mais equipamentos de iluminação.

Apuração dos dados
Conseguir as medidas das misses foi um desafio inesperado. A ideia inicial era entrar em contato com a organização do concurso e pedir as informações. No entanto, a assessoria de imprensa respondeu que não poderia fornecer os dados por uma decisão do concurso, que acredita que quesitos como simpatia e inteligência são mais determinantes na escolha da miss do que medidas físicas.

A saída foi pesquisar o telefone das assessoras de todas as misses, ligar e pedir os dados. O trabalho foi feito por um jornalista, que estava focado na cobertura, e levou, aproximadamente, dois dias para terminar.

A nota para o quesito simpatia foi dada pelo editor do UOL Tabloide, que já acompanhou vários concursos e passou um dia inteiro com as misses. A “metodologia” usada para a nota foi especificada na sessão de ajuda do jogo.

Produção dos vídeos
Após a confirmação de que era possível gravar e a luz era suficiente, dois técnicos fizeram as imagens, com o cuidado de que o movimento fosse rápido, começando e terminando da mesma maneira para garantir um looping correto no jogo — ou seja, se a miss começasse o vídeo com a mão na cintura, deveria terminar assim.

Os vídeos foram editados em dois dias usando After Efects. Basicamente, o fundo de cada um foi recortado e exportado para ser usado com o background do infográfico. A opção foi salvá-los com uma resolução mais baixa para garantir que mais pessoas pudessem vê-los, por conta da velocidade de banda de cada um. A decisão fez com que as imagens perdessem resolução.

Programação
A programação do jogo levou 25 dias para ser feita, usando Flash e Flash Builder, com efeitos 3D. Segundo o programador, Rodrigo França, um das preocupações é se ele ficaria lento, já que carregava 27 pequenos vídeos e usuários com internet de apenas 1MB talvez não conseguissem abrir.

Abaixo, designer e programador contam um pouco da experiência de montar o Duelo das Misses:

Hugo Luigi, designer

1. Qual programa vc usou para desenhar o jogo?
Adobe Illustrator e Photoshop
2. Quanto tempo levou para fazer?
Foram três dias para as primeiras telas e mais uns dois para ajustes finais depois que o layout foi apresentado
3. O que você achou mais complicado de fazer?
Manter a essência das Misses dentro de um jogo de cartas
4. O que você achou mais legal no info?
Poder conhecer melhor as candidatas, além de vê-las em movimento. Gostei muito do ‘tchauzinho’ delas
5. O que você achou do resultado?
Ficou bem legal. O efeito 3d que o França usou no flash deu a cara de jogo que tanto queriamos.

Rodrigo França, desenvolvedor

1. Qual programa vc usou para programar? Flash + Flash Builder

2. Quanto tempo levou para fazer?
25 dias (5 semanas)

3. O que você achou mais complicado de fazer?
A lógica do jogo é bastante complexa. Minha maior dificuldade foi entender todas as regras do jogo físico e depois aplicar no virtual.

4. O que você achou mais legal no info?
Os vídeos das misses integrados ao uso de 3D dentro do flash.

5. O que você achou do resultado?
Achei o resultado bem acima do esperado. O jogo corria o risco de ficar super pesado, mas na última semana do projeto consegui otimizá-lo alcançando um ótimo desempenho.

 

Este texto é um trabalho para a disciplina design informacional, da pós-graduação 2011 na PUC-SP.

As infografias brasileiras sobre a tragédia no Japão

Primeiro o terremoto, depois o tsunami. Como se não bastasse, o risco de contaminação nuclear também vira preocupação para os japoneses. No jornalismo, a explicação para eventos dessa grandeza são quase sempre feitas por meio de infografias. Afinal,

é melhor mostrar em um mapa a área de contaminação radioativa de um lugar do que falar, apenas e genericamente, “um raio de 30 km”. Praticamente todos os sites de notícia brasileiros usaram algum tipo infografia para mostrar o tamanho do problema enfrentado pelo Japão. Vejamos quem fez o que:

Folha.com


O site traz uma imagem feita por computador da usina nuclear de Fukushima Daiichi. Nela aparecem uns círculos vermelhos em cima de cada reator. Quando o você passa o mouse em cima, ele te dá a informação sobre cada um. Não sou muito fã do conteúdo principal estar em MouseOver (o mouse sobre o item). Imagina se fosse no jornal impresso: cada texto correspondente é pequeno o suficiente para estar visível, num box, sem necessidade de clique ou passar mouse.

A outra arte que a Folha.com fez (logo abaixo na matéria) sobre o acidente é mais didática, seguindo a linha do passo-a-passo. A navegação peca já no início, com o 1 e 2 na primeira aba. Tem uma seta logo ali, que te faz crer que levará (como deveria) para o segundo item. Porém, isso não acontece. Para navegar, só clicando nos itens. Mesmo assim, é uma infografia que oferece uma explicação simples e direta para o perigo das usinas.

iG

O iG foi quem mais produziu infografias sobre o tema. Até o momento, foram oito.

A mais simples é uma imagem mostrando como funciona o sistema de alerta de tsunami. É basicamente uma arte de impresso, sem nenhum diferencial para o online.

A infografia sobre como funciona uma usina nuclear também foi bem modesta, apenas uma ilustração explicativa. O mesmo para uma sobre como se forma um tsunami. Mas nesta última, pelo menos, usa-se a possibilidade de animação e interação com clique.

O trabalho sobre os danos na usina nuclear se assemelha muito ao material sendo publicado lá fora, usando mapas para mostrar a área atingida. A imagem de satélite funciona bem melhor que uma arte, pois dá para ver o estado em que ficaram os reatores após o tsunami.

A do círculo de fogo é interessante por mostrar pontos com os locais dos 12 terremotos mais intensos já registrados no mundo. Notem que destes, somente 2 não estão no que é chamado círculo de fogo. Eu só colocaria o ano e número de mortos visível no box da esquerda. E uma questão: por que este do Japão aparece com o número 4, mas o texto diz ser o sétimo mais forte da história?

Este mostra um mapa do Google e as cidades atingidas por terremotos e tsunamis. Ao clicar em uma das cidades da lista ou nos pontos, abre uma caixa com opções de fotos, informações e links. Simples, porém não dá para saber quais cidades sofreram mais se não clicar em algumas delas e descobrir sozinho, o que torna a navegação pouco informativa.

A dos prédios resistentes a terremotos é simples, mas eficiente. Uma animação mostra como um prédio se comporta em uma situação de tremor e um texto do lado explica. Básico e direto.

Uma que explica como ocorrem os terremotos é antiga, mas foi atualizada com os maiores abalos. Didática.

Estadão

Apesar de não ter feito o mais bonito ou extravagante infográfico, o Estadão fez o mais completo sobre o acidente nuclear do Japão.

É o único a reunir informações sobre contaminação, sobre as localizações das usinas japonesas e o funcionamento da usina de Fukushima e seu atual problema. Aliás, detalhe para o níveis de acidentes, que coloca em escala com outros do passado.

G1

O G1 tinha um histórico bom de infografias em seu começo, mas hoje parece ter perdido o fôlego (inclusive, a página de infografias não é atualizada desde dezembro). A única arte que achei no site é estática, de um mapa mostrando os pontos dos locais atingidos e as placas tectônicas. Por que o G1 não tem outros infográficos?

R7 e Uol

Ambos estão usando muitos vídeos de infografias feitas pela AFP, como esta do R7 . De material próprio, somente o Uol, que fez um trabalho de mapeamento das cidades, parecido com o do iG, mas com uma navegação mais agradável, deixando um espaço na lateral direito somente para as fotos e texto dos locais atingidos.

Outros materias próprios não foram tão eficientes, como este mapa de países que receberam alerta de tsunami. Poderia muito bem ser somente um mapa pintado dentro de uma matéria, não uma infografia animada com mouseover.

Este outro é mais interessante, mostrando como funciona um reator, mapeando as usinas e os reatores que estão com problema em Fukushima. Na parte de usinas nucleares dá vontade de clicar em uma que está marcada como Estado de Emergência (Fukushima 2) -porém, não é clicável…

MAIS: O site 10,000 words – where journalism and technology meet fez um post com os melhores infográficos para entender a crise no Japão. Vale a pena.

No comando de uma escola de samba (virtual)

Imagine que você é um produtor musical, com uma mesa de som na sua frente. A faixa gravada você controla da forma que achar melhor. Aumenta a bateria, deixa mais grave o som do baixo, duplica o vocal. Tudo pela internet. Isso aind

a não foi feito, mas o iG chegou perto já, fazendo com que o usuário comando os sons de uma escola de samba. O princípio é simples, e a execução foi muito bem feita: é possível escolher deixar só o repique, a caixa e a cuíca tocando na avenida. Ou apenas um, ou tudo junto. Com informação visual sobre a área onde cada um se localiza na avenida, durante o desfile.

No infográfico Veja como funciona a bateria da Grande Rio, o iG chamou membros da escola de samba Grande Rio para reproduzir no estúdio alguns instrumentos usados durante um desfile. Cada faixa foi separada e montada em um especial no site, onde você pode controlar os músicos, uma interatividade que agrada mesmo quem não gosta de carnaval.

Controlar um instrumento com um botão é um caminho interessante para infografias que lidem com música. No YouTube é possível achar faixas separadas de músicas famosas (experimentem ouvir Helter Skelter dos Beatles somente com os vocais da música). A grande maioria é tirada de jogos como Guitar Hero e Rock Band, que emulam o ato de tocar bateria, baixo, guitarra e vocal em uma banda. Estas faixas originais dos artistas estão no software do jogo com os instrumentos separados para garantir a jogabilidade.

Além da experiência interativa, o infográfico do iG ainda traz vídeos da gravação com os músicos e um esquema mostrando como é a movimentação da bateria durante o desfile. Este conteúdo é muito mais um making of, até desnecessário para o especial – mas em algumas partes ajuda a entender como o jornalismo interativo multimídia é produzido. O fato dos autores da infografia não estarem creditados na arte é uma falha (só dá para saber quem fez direto na página de infografias do portal).

O iG, aliás, é dos veículos que mais produz boas infografias no Brasil.

Entrevista com Gustavo Belarmino, do JC Online

Gustavo Belarmino ̩ um dos jornalistas da equipe do JC Online Рjornal que ganhou nos ̼ltimos anos diversos pr̻mios nacionais e internacionais de jornalismo online. Ganharam, por exemplo, o viagra cheap

“https://www.jornalismodigital.org/2010/10/e-o-verbo-se-fez-vida-vencedor-do-herzog-2010-categoria-multimidia/” target=”_blank”>Vladimir Herzog 2010 com o E o verbo se fez vida. E levaram o prêmio Tim Lopes com A viagem de Joanda. Julliana Melo, outra jornalista da equipe, já havia concedido em 2007 uma entrevista ao site, e é interessante comparar os dois momentos. Um primeiro momento em 2007, quando o JC Online praticamente disputava sozinho os prêmios especiais jornalísticos multimídia no Brasil, com pouquíssimos recursos; e hoje uma outra realidade – não pelos recursos, mas pelo desenvolvimento das possibilidades tecnológicas em geral, e do conhecimento dos jornalistas, que permite grandes narrativas sem necessariamente grandes custos.

Abaixo, a conversa por email que tivemos após um encontro pessoal que tivemos no MediaOn 2010, em São Paulo:

Você se considera um jornalista multimídia?

Nestes 10 anos de profissão, minha carreira de jornalista já ganhou muitos sufixos, mas todos remetiam a algo do mundo digital. Já comecei no Sistema Jornal do Commercio, no JC Online, um pouco depois da fase da transposição. Quando a web estava engatinhando para ganhar um conteúdo diferenciado, mais apropriado à plataforma. Naquela época, era o “jornalista do online”, webjornalista e posteriormente jornalista multimída. Recentemente em uma palestra que fui, minha chefe direta brincou: agora você é transmídia. No fim das contas, no desempenho do meu trabalho de apuração, não sei sair da redação só com um bloquinho de papel e uma caneta. Eu sempre preciso de mais. Um dos momentos em que eu me considerei “mais” multimídia foi quando, para fazer o especial Tubarão em alerta, precisei levar todo um arsenal para um pequeno barco em mar aberto. Passei o dia inteiro tendo que anotar, gravar, fotografar e ainda me equilibrar. Tudo ali tinha que ser muito rápido, principalmente na hora em que os pescadores estavam recolhendo as redes. Poderia ocorrer ali o meu flagra, o momento mais esperado, a captura do tubarão. E ai? Eu garantiria uma foto? Um vídeo? Dava pra prestar atenção em tudo e contar depois? Não recomendo a experiência a ninguém. Numa reportagem como essa é preciso um mínimo de estrutura e ao menos duas pessoas. Ao fim do dia, tive que ainda me preocupar com os equipamentos, que estavam todos descarregados. No final deu tudo certo, apesar da frustração de não encontrar nenhum tuba – e mesmo assim eu tive que montar o trabalho, que você pode ver nesse link aqui. Com ele, ganhamos o prêmio Caixa.

Era 2006, portanto descarte muito do que vc vai ver. Garanto que melhorei! heheh

A materia do vídeo do tubarão: http://www2.uol.com.br/JC/sites/tubarao/materia_sinuelo.htm

O diário de bordo da reportagem: http://www2.uol.com.br/JC/sites/tubarao/materia_diario.htm

Como chamaria a função que desempenha hoje?

Atualmente sou editor-assistente do portal. Mas tento não ficar longe da produção e monto (na maior parte das vezes em parceria com Inês [Calado] ou Julliana [Melo]) especiais multimídia. Minha principal “atuação” é na parte dos vídeos, que sou apaixonado. Mas não tem como não se envolver no processo por completo. Normalmente eu acumulo várias seções de um especial, + fotos e vídeos e ainda dou pitaco no design. Não tem como não supervisionar tudo na hora da produção. Digamos que minha função nesse momento é ser perfeccionista, independentemente da mídia. Mas jornalista multifuncional cairia bem.

Quais atividades você realiza?

Em um especial, só não diagramo as páginas. Mas participo de todas as etapas do processo, desde a concepção do projeto, ainda na esfera da pauta, até a pesquisa e caio em campo para a apuração. A rua é um grande laboratório e você consegue trazer de lá muitas ideias. Nunca passei por uma redação de TV e tudo que aprendi foi fazendo. Para você ter uma ideia, os vídeos de um de nossos especiais (Educação sem fronteiras) chegaram a ser veiculados como uma série de reportagens na TV Jornal, afiliada do SBT, que faz parte do grupo de comunicação ao qual estou vinculado. O caminho ainda é longo, mas trabalhar com a web desde o início nos permitiu ter um espaço de experimentação, criar em cima dos formatos e avaliar a repercussão disso. Além dos vídeos, experimentamos gravar áudios, para usá-los em audio slide shows (Especial Ônibus no Morro) e produzir fotos. Texto, neste caso, poderiamos dizer que é a base do trabalho, mas o tempero vem com a multimídia, que deve funcionar aqui como uma complementação. A cada especial, a missão de inovar, de contar a história de forma diferente é cada vez mais cobrada.

Como é sua rotina? Quais funções específicas?

No dia-a-dia atuo como editor-assistente. Somos 3 editores no portal. Um por turno. A rotina envolve todo o trabalho de uma redação online, de pautar, receber as informações, coordenar equipe, participar de reunião com os demais veículos e, no meu caso em específico, também ajudar no grupo de discussão de novas mídias. O portal agrupa todos os sites dos veículos do SJCC (Jornal, rádios Jornal e CBN, TV Jornal, além de sites institucionais). Temos também que fazer a “integração” dos conteúdos desses veículos em nossas hardnews. Ou seja, o repórter do Online publica um texto que também ganhou repercussão na rádio? Então a gente usa o áudio de lá para complementar o texto. Com o vídeo é a mesma coisa. O trabalho de integração com o impresso obedece uma outra lógica, que é o de complementar a edição de amanhã com alguns assuntos que repercutiram ao longo do dia. Podem ser vídeos, áudios ou mesmo íntegra de documentos ou programações completas de eventos. Aliado a tudo isso, também coordenamos a atualização de alguns painéis espalhados em shoppings, academias e empresariais da cidade, que são abastecidos com o conteúdo produzido no portal e selecionado pelos editores. Quando o tempo sobra, também sou setorista de gastronomia (confere aí dois dos trabalhos: http://www2.uol.com.br/JC/sites/comerbem/noronha/index.html e http://www2.uol.com.br/JC/sites/horadoalmoco/index.html)

O que coube a você – e o que cabe ao repórter – em uma reportagem multimídia como a que você realizou? (no caso da Viagem de Joanda)

Também sou professor universitário. À época do especial, ainda dava aulas na graduação, quando uma das minhas alunas (e também personagem) me procurou para contar as situações que ela já havia vivido como voluntária em um dos hospitais do Recife. Aquilo ficou martelando na minha cabeça e, quando comentei com Inês, ela topou na hora transformar aquilo em um projeto jornalístico. A partir deste momento, fomos à caça dos personagens, marcamos as entrevistas, fizemos a apuração do material bruto, que iria nos dar subsídios para contar as histórias. No primeiro momento, decidimos que iríamos contar a história de um personagem apenas, que representaria todos os demais que vivem em situações parecidas – e os núcleos que gravitam ao redor desta realidade. Sabíamos também que tinha que ser alguém suficientemente corajoso para se expor em uma situação de fragilidade, enfrentando uma doença e ainda mais as situações precárias para tratá-la. Com a equipe enxuta, não temos muito tempo além do combinado com a chefia para a apuração, por isso as jornadas têm que ser longas e qualquer contratempo pode atrapalhar o processo. Para conversar com pessoas que vêm do interior, pegar a chegada deles nos hospitais, tinhamos que madrugar nesses lugares. Foram incontáveis as vezes que fizemos isto. E a cada saída o volume de informação (folhas e folhas anotadas, horas de vídeo, áudio, fotos) iam se acumulando. Nosso trabalho em dupla tem uma característica organizacional que pertence a Inês. Ela é muito disciplinada e todos os dias são registrados em um relatório. Tudo também é gravado em áudio, para decupagem posterior. Além do material, também acumulamos boas histórias e decidimos que não iriamos abrir mão delas. Mas a nossa personagem, que achávamos haver encontrado, desistiu por proibição do marido. Não quis se expor e nossa viagem, marcada com a prefeitura da cidade do interior, que iria conseguir alocar dois dos pacientes que iriam naquele ônibus para ceder o lugar para a gente, foi cancelada na véspera. No dia em que iríamos viajar, voltamos ao hospital Oswaldo Cruz, onde conhecemos Joanda, nossa personagem. E tinha que ser ela. Marcamos tudo e seguimos para o interior onde a paciente morava. Lá seria o cenário para a gravação dos vídeos, da rotina dela, dos elementos humanos do texto, onde conhecemos a pessoa Joanda, suas fragilidades, as cartas do marido presidiário coladas na parede, do início da viagem (que na verdade, para a gente, foi a etapa final do trabalho de apuração). Sozinhos, eu e Inês na cidade, fomos nas primeiras horas da manhã para a casa dela. Eu, câmera filmadora/fotográfica amadora em punho, uma lanterninha para iluminar o caminho e muita disposição. Inês, caderno sempre a postos, e habilidade para tirar depoimentos que seriam usados mais tarde, na edição do vídeo. Em casa (na redação), hora de separar as histórias, montar os textos, editar os vídeos, construir o infográfico (s), colar com o designer para ver o final da edição da página. Foto não ficou boa para a página inicial, volta para refazer! Chama o fotógrafo do jornal, faz a pose de melhor forma. Não há uma etapa que a gente não participe. E o mais difícil, por incrível que pareça, é conversar com essas pessoas sem se envolver com elas. Na hora de “atualizar” as histórias, algumas pessoas já tinham partido. O cheiro, as imagens, o sofrimento ficou com a gente algum tempo ainda. Ver o resultado e tanta gente repercutindo, se identificando, se emocionando é a grande recompensa. Fazer A viagem de Joanda foi muito especial pra mim e tenho certeza que Inês diz o mesmo.

(Isso tudo, escrito de forma mais bonitinha, está no meu diario de viagem aqui)

Que treinamento ou quais cursos seria preciso ter para realizar o que você faz?

Tem que ter vontade de fazer. Qualquer um que entre no JC Online hoje recebe as orientações básicas para editar um áudio, vídeo, foto e como disponibilizá-los na web de várias maneiras (FTP, gerenciador, sites de compartilhamento). Hoje as coisas estao mais fáceis do que “no meu tempo”. Quando eu entrei, montava tudo em HTML, subia pro servidor, errava, consertava… Ajuda? Apenas uma estagiária que repassava de forma superficial as informações. Essa turma também já chega trazendo novidades, pois muitas vezes já tem blogs, twitter, atualizam seus perfis e editam e mandam vídeos independentes pro ar. Usamos ferramentas básicas de edição para o dia a dia (Windows Movie Maker e Audacity) e também o Premiére e Final Cut – o Photoshop nem se fala! Todo mundo tem que saber usar. Tudo depende do assunto. Quanto mais “frio”, mais editado e de melhor qualidade fica o material produzido pelas equipes. Nesse tempo todo, tivemos reciclagem nos próprios veículos do Sistema. Hoje, existe um programa chamado de “estagiário multimídia”, no qual os estudantes que entram na empresa obrigatoriamente tem que passar por todos os veículos. TV, Rádio, Impresso e por fim o Online, onde vão aplicar “o máximo” da convergência. Um dos trabalhos feitos por esses estagiários ganhou 2 categorias do Herzog este ano. Ah, importante ressaltar que a troca entre todos é muito importante. Sempre existem dúvidas, uma vez que tudo é muito dinâmico, inclusive os equipamentos que usamos são vários (de celulares a câmeras flip HD e webcams). Ao longo dessa jornada, tive a oportunidade de ter treinamentos básicos em alguns softwares, como o SoundForge (usado nas rádios) e o próprio Premiére, para vídeos).

Como você chamaria esse (s) curso (s) ou esse treinamento?

São cursos de aperfeiçoamento. Hoje, o velho HTML ficou para trás. Sinto falta de conhecer algo mais sobre o flash e também sobre a programação em CSS. Mas não dá para saber tudo, tenho que admitir.

Quais atividades você desenvolve hoje, que no início da década de 90 não existiam no jornalismo? Como você as denomina?

Falo de 1999, que foi quando eu comecei a trabalhar na área. Naquele tempo, uma imagem diferenciada que a gente botasse no site já era um Deus nos acuda para o designer. Com o passar do tempo, a multimídia e a mudança na linguagem – talvez a forma de percepção na rede – sejam os principais diferenciais. Mas ano a ano as coisas mudam. Estão aí as redes sociais e os tablets e mobiles para não me deixar mentir. A cada ano temos que nos adaptar mais e mais às novidades e é um caminho sem volta. O que não muda, eu acrredito, é a vontade de contar uma história em suas múltiplas possibilidades.

Você acha que essas são agora atividades básicas do jornalismo?

Não diria que básicas, mas talvez necessárias para conversar com os mais variados públicos daqui por diante.

Quais são os pré-requisitos para um bom jornalista hoje em dia?

Agilidade, concentração, criatividade, curiosidade, comprometimento, não ter medo do novo e ética profissional.

E para trabalhar no jornalismo online? Algum pré-requisito diferente?

Os mesmos. Com uma dose um pouco maior de disposição e paciência – a tecnologia às vezes falha e não adianta dar um murro no monitor!