Com mapa e perdido

É muito comum no jornalismo um pedido de infografia sobre um assunto qualquer e o resultado final ser muito bonito, mas pouco informativo ou prático. Este mapa do estadao.com.br, No rastro português, é um bom exemplo disso. A apresentação é linda. Ao entrar no especial, os movimentos com o mouse também impressionam, assim como todo o desenho dos boxes e do mapa. O conteúdo também é bom. É uma grande reportagem sobre a herança portuguesa nos países que tiveram sua colonização. Agora, para acessar todo este material, para navegar pelo conteúdo, você vai precisar se desdobrar um pouco.

A forma escolhida para apresentar estas nove colônias foi um mapa. Melhor escolha impossível. Aqui você consegue ver o tamanho da expansão que Portugal conseguiu. Ao clicar em cada um destes pontos abre-se um box com um pequeno texto sobre o local. Ao fim do texto, um Saiba Mais pode ser clicado para te levar para o texto completo em outra aba.

Nesta outra aba, você encontra a matéria relacionada com o ponto. Ou seja, o pequeno texto do box e mais uns poucos parágrafos. Para voltar ao especial, só trocando de aba, já que não há link algum em nenhuma das nove matérias. Em resumo, o especial é uma lista de nove links para matérias que fazem parte de uma grande reportagem.

É fácil notar que todo o material aqui veio do impresso e foi adaptado (tem até um leia mais na Página 12 na matéria de Angola). Ainda tem a matéria de apresentação da reportagem, que só pode ser acessado na tela inicial do infográfico no Saiba Mais. Se você não clicar ali, você não vai achar tão fácil este texto. Nesta matéria principal há links para os outros textos, mas somente dois, inexplicavelmente.

Devem ter gasto um bom tempo fazendo o mapa animado e os desenhos. O resultado estético ficou lindo, mas pouco prático. Nem sempre o conteúdo do papel é transposto da melhor forma para a internet e No rastro português é um exemplo disso. Para finalizar, deixo os links aqui de cada um dos nove pontos. Não é tão bonito como no mapa, mas é tão eficaz quanto.

Matéria principal

Timor Leste
Macau
Goa
Moçambique
Angola
São Tomé e Príncipe
Guiné-Bissau
Cabo Verde
Brasil

E tem mais esse, sobre os eventuais riscos antes de viajar.

 

A Viagem de Joanda: mais um especial multimídia premiado no JC Online

A equipe do JC Online leva mais um prêmio do jornalismo online brasileiro: agora, foi o especial multimídia A Viagem de Joanda que levou o Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, categoria internet.

O especial conta a história de pacientes que precisam se deslocar do interior do estado até a capital Recife para receber tratamento médico adequado, uma vez que não há hospitais capazes de tratá-los onde moram. Os repórteres Inês Calado (que acabou de ganhar o Vladimir Herzog 2010 categoria internet com outro especial, o E o Verbo se fez Vida) e Gustavo Belarmino (que junto com Inês venceu também o prêmio da Fundación FNPI na categoria Conhecimento com o trabalho Limites, Formação & Trabalho, sobre deficientes) acompanharam a viagem desses pacientes, fizeram textos, vídeos, e apresentaram uma plataforma multimídia simples, eficaz e bonita.

O jornalista Gustavo Belarmino deu uma entrevista ao Jornalismo Digital.org falando sobre seu trabalho e sobre como foi feito o especial. Fizeram também algo muito valioso e raro nesses casos: escreveram um diário sobre como a reportagem foi feita, permitindo que estudantes e outros profissionais aprendessem mais sobre o processo de produção. Belarmino nos enviou por email também um resumo disso tudo:

A sala de aula é uma fonte inesgotável de troca de informações. A gente, como professor, acha que está repassando algo. Quando, na verdade, aprendemos todos os dias. E foi dessa lição que nasceu o especial A viagem de Joanda, que conta a história da personagem Joanda Gomes, vítima da doença de Chagas, e que há anos precisa sair da cidade onde mora, no interior de Pernambuco, para vir se tratar nos hospitais de referência, na Capital. Para entender esse universo (que, embora retrate Pernambuco, é comum a muitas cidades brasileiras), eu e a repórter Inês Calado caímos em campo durante mais de um mês, madrugando nos hospitais, ouvindo histórias de gente que viaja de muito longe em condições às vezes subumanas. Essas outras histórias, carregadas de esperança, de gente que não tinha mais sonhos e de outros que encerraram a jornada permeiam a narrativa do especial multimídia, que traz ainda os satélites (casas de apoio, visão dos médicos, insegurança na estrada) que gravitam em torno do assunto. Dessa forma, a “pauta” que nos foi passada por uma estudante de jornalismo que também dedica muito do seu tempo a ajudar as pessoas como Joanda terminou virando um trabalho que recompensa, apesar do tema árido, que mexe com vida e morte.

Jornalismo Digital.org: Você se considera um jornalista multimídia?

Gustavo Belarmino: Nestes 10 anos de profissão, minha carreira de jornalista já ganhou muitos sufixos, mas todos que remetiam a algo do mundo digital. Já comecei no Sistema Jornal do Commercio no JC Online, um pouco depois da fase da transposição. Quando a web estava engatinhando para ganhar um conteúdo diferenciado, mais apropriado à plataforma. Naquela época, era o “jornalista do online”, webjornalista e posteriormente jornalista multimída. Recentemente em uma palestra que fui, minha chefe direta brincou: agora você é transmídia. No fim das contas, no desempenho do meu trabalho de apuração, não sei sair da redação só com um bloquinho de papel e uma caneta. Eu sempre preciso de mais. Um dos momentos em que eu me considerei “mais” multimídia foi quando, para fazer o especial Tubarão em alerta, precisei levar todo um arsenal para um pequeno barco em mar aberto. Passei o dia inteiro tendo que anotar, gravar, fotografar e ainda me equilibrar. Tudo ali tinha que ser muito rápido, principalmente na hora em que os pescadores estavam recolhento as redes. Poderia ocorrer ali o meu flagra, o momento mais esperado, a captura do tubarão. E ai? Eu garantiria uma foto? Um vídeo? Dava pra prestar atenção em tudo e contar depois? Não recomendo a experiência a ninguém (risos). Numa reportagem como essa é preciso um mínimo de estrutura e ao menos duas pessoas. Ao fim do dia, tive que ainda me preocupar com os equipamentos, que estavam todos descarregados. No final deu tudo certo, apesar da frustração de não encontrar nenhum tuba – e mesmo assim eu tive que montar o trabalho, que vc pode ver no link abaixo, Com ele, ganhamos o prêmio Caixa.

Era 2006, portanto descarte muito do que vc vai ver. Garanto que melhorei!

A matéria do video

O diário de bordo

Como chamaria a função que desempenha hoje?
Atualmente sou editor-assistente do portal. Mas tento não ficar longe da produção e monto (na maior parte das vezes em parceria com Inês ou Julliana) especiais multimídia. Minha principal “atuação” é na parte dos vídeos, que sou apaixonado. Mas não tem como não se envolver no processo por completo. Normalmente eu acumulo várias seções de um especial, + fotos e vídeos e ainda dou pitaco no design. Não tem como não supervisionar tudo na hora da produção. Digamos que minha função nesse momento é ser perfeccionista, independentemente da mídia. Mas jornalista multifuncional cairia bem. 🙂
Quais atividades você realiza?
Em um especial, só não diagramo as páginas. Mas participo de todas as etapas do processo, desde a concepção do projeto, ainda na esfera da pauta, até a pesquisa e caio em campo para a apuração. A rua é um grande laboratório e você consegue trazer de lá muitas ideias. Nunca passei por uma redação de TV e tudo que aprendi foi fazendo. Para você ter uma ideia, os vídeos de um de nossos especiais (Educação sem fronteiras) chegaram a ser veiculados como uma série de reportagens na TV Jornal, afiliada do SBT, que faz parte do grupo de comunicação  ao qual estou vinculado. O caminho ainda é longo, mas trabalhar com a web desde o início nos permitiu ter um espaço de experimentação, criar em cima dos formatos e avaliar a repercussão disso. Além dos vídeos, experimentamos gravar áudios, para usá-los em audio slide shows (Especial Ônibus no Morro) e produzir fotos. Texto, neste caso, poderiamos dizer que é a base do trabalho, mas o tempero vem com a multimídia, que deve funcionar aqui como uma complementação. A cada especial, a missão de inovar, de contar a história de forma diferente é cada vez mais cobrada.
Como é sua rotina? Quais funções específicas?
No dia a dia atuo como editor-assistente. Somos 3 editores no portal. Um por turno. A rotina envolve todo o trabalho de uma redação online, de pautar, receber as informações, coordenar equipe, participar de reunião com os demais veículos e, no meu caso em específico, também ajudar no grupo de discussão de novas mídias. O portal agrupa todos os sites dos veículos do SJCC (Jornal, rádios Jornal e CBN, TV Jornal, além de sites institucionais). Temos também que fazer a “integração” dos conteúdos desses veículos em nossas hard news. Ou seja, o repórter do Online publica um texto que também ganhou repercussão na rádio? Então a gente usa o áudio de lá para complementar o texto. Com o vídeo é a mesma coisa. O trabalho de integração com o impresso obedece uma outra lógica, que é o de complementar a edição de amanhã com alguns assuntos que repercutiram ao longo do dia. Podem ser vídeos, audios ou mesmo íntegra de documentos ou programações completas de eventos. Aliado a tudo isso, também coordenamos a atualização de alguns paineis espalhados em shoppings, academias e empresariais da cidade, que são abastecidos com o conteúdo produzido no portal e selecionado pelos editores.

Quando o tempo sobra, também sou setorista de gastronomia (confere aí dois dos trabalhos: http://www2.uol.com.br/JC/sites/comerbem/noronha/index.html e http://www2.uol.com.br/JC/sites/horadoalmoco/index.html )
O que coube a você – e o que cabe ao repórter – em uma reportagem multimídia como a que você realizou? (no caso da Viagem de Joanda)
Também sou professor universitário. À época do especial, ainda dava aulas na graduação, quando uma das minhas alunas (e também personagem) me procurou para contar as situações que ela já havia vivido como voluntária em um dos hospitais do Recife. Aquilo ficou martelando na minha cabeça e, quando comentei com Inês, ela topou na hora transformar aquilo em um projeto jornalístico. A partir deste momento, fomos à caça dos personagens, marcamos as entrevistas, fizemos a apuração do material bruto, que iria nos dar subsídios para contar as histórias.

No primeiro momento, decidimos que iríamos contar a história de um personagem apenas, que representaria todos os demais que vivem em situações parecidas – e os núcleos que gravitam ao redor desta realidade. Sabíamos também que tinha que ser alguém suficientemente corajoso para se expor em uma situação de fragilidade, enfrentando uma doença e ainda mais as situações precárias para tratá-la. Com a equipe enxuta, não temos muito tempo além do combinado com a chefia para a apuração, por isso as jornadas têm que ser longas e qualquer contratempo pode atrapalhar o processo. Para conversar com pessoas que vêm do interior, pegar a chegada deles nos hospitais, tinhamos que madrugar nesses lugares. Foram incontáveis as vezes que fizemos isto. E a cada saída o volume de informação (folhas e folhas anotadas, horas de vídeo, áudio, fotos) iam se acumulando.

Nosso trabalho em dupla tem uma característica organizacional que pertence a Inês. Ela é muito disciplinada e todos os dias são registrados em um relatório. Tudo também é gravado em áudio, para decupagem posterior. Além do material, também acumulamos boas histórias e decidimos que não iriamos abrir mão delas. Mas a nossa personagem, que achávamos haver encontrado, desistiu por proibição do marido. Não quis se expor e nossa viagem, marcada com a prefeitura da cidade do interior, que iria conseguir alocar dois dos pacientes que iriam naquele ônibus para ceder o lugar para a gente, foi cancelada na véspera.

No dia em que iríamos viajar, voltamos ao hospital Oswaldo Cruz, onde conhecemos Joanda, nossa personagem. E tinha que ser ela. Marcamos tudo e seguimos para o interior onde a paciente morava. Lá seria o cenário para a gravação dos vídeos, da rotina dela, dos elementos humanos do texto, onde conhecemos a pessoa Joanda, suas fragilidades, as cartas do marido presidiário coladas na parede, do início da viagem (que na verdade, para a gente, foi a etapa final do trabalho de apuração).  Sozinhos, eu e Inês na cidade, fomos nas primeiras horas da manhã para a casa dela. Eu, câmera filmadora/fotográfica amadora em punho, uma lanterninha para iluminar o caminho e muita disposição. Inês, caderno sempre a postos, e habilidade para tirar depoimentos que seriam usados mais tarde, na edição do vídeo. Em casa (na redação), hora de separar as histórias, montar os textos, editar os vídeos, construir o infográfico (s), colar com o designer para ver o final da edição da página. Foto não ficou boa para a página inicial, volta para refazer! Chama o fotógrafo do jornal, faz a pose de melhor forma. Não há uma etapa que a gente não participe.

E o mais difícil, por incrível que pareça, é conversar com essas pessoas sem se envolver com elas. Na hora de “atualizar” as histórias, algumas pessoas já tinham partido. O cheiro, as imagens, o sofrimento ficou com a gente algum tempo ainda. Ver o resultado e tanta gente repercutindo, se identificando, se emocionando é a grande recompensa. Fazer A viagem de Joanda foi muito especial pra mim e tenho certeza que Inês diz o mesmo.

Que treinamento ou quais cursos seria preciso ter para realizar o que você faz?
Tem que ter vontade de fazer. Qualquer um que entre no JC Online hoje recebe as orientações básicas para editar um áudio, vídeo, foto e como disponibilizá-los na web de várias maneiras (FTP, gerenciador, sites de compartilhamento). Hoje as coisas estao mais fáceis do que “no meu tempo”. Quando eu entrei, montava tudo em HTML, subia pro servidor, errava, consertava… Ajuda? Apenas uma estagiária que repassava de forma superficial as informações. Essa turma também já chega trazendo novidades, pois muitas vezes já tem blogs, twitter, atualizam seus perfis e editam e mandam vídeos independentes pro ar. Usamos ferramentas básicas de edição para o dia a dia (Windows Movie Maker e Audacity) e também o Premiére e Final Cut – o Photoshop nem se fala! Todo mundo tem que saber usar. Tudo depende do assunto. Quanto mais “frio”, mais editado e de melhor qualidade fica o material produzido pelas equipes.

Nesse tempo todo, tivemos reciclagem nos próprios veículos do Sistema. Hoje, existe um programa chamado de “estagiário multimídia”, no qual os estudantes que entram na empresa obrigatoriamente tem que passar por todos os veículos. TV, Rádio, Impresso e por fim o Online, onde vão aplicar “o máximo” da convergência. Um dos trabalhos feitos por esses estagiários ganhou 2 categorias do Herzog este ano. Ah, importante ressaltar que a troca entre todos é muito importante. Sempre existem dúvidas, uma vez que tudo é muito dinâmico, inclusive os equipamentos que usamos são vários (de celulares a câmeras flip HD e webcams). Ao longo dessa jornada, tive a oportunidade de ter treinamentos básicos em alguns softwares, como o SoundForge (usado nas rádios) e o próprio Premiére, para vídeos).

Como você chamaria esse (s) curso (s) ou esse treinamento?
São cursos de aperfeiçoamento. Hoje, o velho HTML ficou para trás. Sinto falta de conhecer algo mais sobre o flash e também sobre a programação em CSS. Mas não dá para saber tudo, tenho que admitir.

Quais atividades você desenvolve hoje, que na década de 90 não existiam no jornalismo? Como você as chama?
Falo de 99, que foi quando eu comecei a trabalhar na área. Naquele tempo, uma imagem diferenciada que a gente botasse no site já era um Deus nos acuda para o designer. Com o passar do tempo, a multimídia e a mudança na linguagem – talvez a forma de percepção na rede – sejam os principais diferenciais. Mas ano a ano as coisas mudam. Estão aí as redes sociais e os tablets e mobiles para não me deixar mentir. A cada ano temos que nos adaptar mais e mais às novidades e é um caminho sem volta. O que não muda, eu acrredito, é a vontade de contar uma história em suas múltiplas possibilidades.

Você acha que essas são agora atividades básicas do jornalismo?
Não diria que básicas, mas talvez necessárias para conversar com os mais variados públicos daqui por diante.

Quais são os pré-requisitos para um bom jornalista hoje em dia?
Agilidade, concentração, criatividade, curiosidade, comprometimento, não ter medo do novo e ética profissional.

E para trabalhar no jornalismo online? Algum pré-requisito diferente?
Os mesmos. Com uma dose um pouco maior de disposição e paciência – a tecnologia às vezes falha e não adianta dar um murro no monitor!

A Linguagem Libertada

“A busca de uma realidade exige uma linguagem capaz de captá-la” (Marcos Faerman)

O jornalista Marcos Faerman publicou um texto na revista Versus, nos anos 70. Chama-se Palavras Aprisionadas. Faerman desacorrentou palavras em seus anos de vida e jornalismo. Era um repórter. Ainda é possível ser repórter hoje em dia? Ou melhor, a reportagem ainda é uma necessidade?

Faerman sabia que a reportagem é mais uma forma de olhar a realidade e menos um gênero jornalístico. É filha da perplexidade e se orienta pelo contato direto com as forças transformadoras do mundo. Nasce do corpo-a-corpo com a vida, como queria João Antonio, outro repórter.

Estamos na era digital. O repórter escreve um texto imenso e ninguém lê. Mas quem lê? Quem, quando, leu alguma coisa extensa? Reclama o repórter da falta de leitores – rende-se a um discurso conservador. As técnicas do repórter? O papel, a caneta Bic, o gravador. Essas eram as técnicas do repórter. Foram. Há muito não são.

O repórter Marcos Faerman, nos anos 80, descobriu a televisão. Defendeu a televisão. O repórter Marcos Faerman estimulava reportagens em quadrinhos, reportagens feitas apenas de fotos, reportagens nos muros da metrópole, estimulava as muitas formas de se contar uma história.

O repórter e sua perplexidade. O repórter é um ser em disponibilidade. Esta é quase que sua essência. Ele está à disposição dos ‘chefes’, do jornal em que trabalha. Cumpre horários, ordens. Num dia qualquer, uma hora qualquer é mandado para um lugar qualquer. É sempre assim. Ele poderá ter diante de si este homem ajoelhado no barro, olhando para um rio. O repórter olha para este homem. Procura saber sua história. Não existe mais reportagem em jornais. Existe a rede. O repórter tem diante de si a rede, com suas veias abertas, pulsantes.

Estamos na era digital. Euforia com as novas mídias. O mercado quer abocanhar as novas mídias. Quer submetê-las, essas filhas da anarquia. O repórter não se rende ao mercado. O repórter fiscaliza o mercado, o estado, o governo, em nome do cidadão. Na era digital, o repórter é o cidadão. O olhar do repórter, dos leitores, que também são repórteres. Todos os olhares. O profissional e o amador. De braços dados, para contar histórias. Múltiplos olhares. Todos os ângulos de abordagem. Interação.

O repórter e sua perplexidade. O repórter em busca da realidade. Com a sua sensibilidade. Com a sua insensibilidade. Ouvindo histórias das vidas dos outros. Sugando dos outros a única coisa que eles têm, além do corpo nu: uma história, a sua vida, a sua perplexidade, as suas próprias dúvidas e pequenas verdades (e separa grande medo). E o que ele ouviu que era ‘jornalismo’. E uma linguagem que lhe disseram que era jornalística. Nada disso lhe permite mostrar a verdade. O bom e velho jornalismo já não é capaz de ofertar a verdade. A verdade não interessa aos donos do poder. A verdade não dá dinheiro, e os conglomerados de mídia gerem um negócio. Mercadoria. Informação não é mercadoria. E é preciso coragem para dizer a verdade.

Estamos na era digital. Imagem estática. Imagem em movimento. Sons. Links. Interações tridimensionais. A verdade não precisa mais ser construída unilateralmente, mono-midiaticamente, linearmente. O repórter segura o controle do vídeo-game. É preciso jogar vídeo-game para explicar a realidade.

O repórter e sua perplexidade. “O que significa fazer jornalismo literário na era do interativo e multimídia?”, pergunta Kim Pearson, jornalista norte-americana. E responde:

“Nos últimos anos, os progressos da tecnologia e das teorias narrativas do vídeo-game sugerem a possibilidade de ferramentas que permitem aos jornalistas criar multi-encadeadas narrativas de não-ficção. Com essas ferramentas, um John Hersey dos dias de hoje poderia permitir aos leitores encontrarem seus próprios caminhos por meio das histórias dos protagonistas de um conto complexo como Hiroshima em meio a um dinâmico mosaico de lugares, sons e contexto sobre a cidade e sobre a bomba atômica que a atingiu. Não estou falando de navegar por um website – estou falando de histórias completas, com personagens desenvolvidos e uma narrativa clara, envolvente”.

Estamos na era digital. O repórter descobre a hipermídia. O repórter se rende às possibilidades. O repórter encontra o olhar daquele homem ajoelhado à beira do rio. Não dá para esquecer. Um homem de roupas rasgadas, um pescador. O homem fala com uma linguagem confusa como o vento que bate na água. Uma canoa parada no rio e uma rede. O repórter filma aquele olhar, aquela canoa, aquele rio, conversa com o homem, grava tudo, e interliga a história daquele homem com a história de outros homens iguais a ele – iguais ao repórter – que tentam entender o mundo da beira de um rio. Reporta.

De volta aos anos 60. Tom Wolfe escreve:

“Eu tinha a sensação, certa ou errada, de fazer coisas que ninguém havia feito antes no jornalismo. (…) Depois, li que o crítico inglês John Bayley sonhava com uma era em que os escritores tivessem a atitude de Puchkin de “lançar um olhar fresco às coisas”, como se fosse pela primeira vez, sem a obrigação permanente de ter consciência do que os outros escritores já haviam feito”.

A hora é agora, como foi ontem. É hora de lançar um olhar fresco às coisas. Utilizar as novas tecnologias para construir novas formas de interpretar e (re)conhecer o mundo.

O repórter e sua perplexidade. Sempre haverá gente disposta a ouvir histórias. Sempre haverá necessidade de entender o que ocorre ao redor, do outro lado da ponte, naquela região em que rio se alarga engolindo casas e sonhos. Sempre haverá gente disposta a fazer e narrar a história. A reportagem capta a realidade, faz da história de um a de muitos. Mostra para um que a realidade de muitos também é a dele.

Estamos na era digital. A reportagem na era digital não é diferente da reportagem na era analógica. Reportagem é contar histórias. E explorar novas possibilidades – infinitas – para retratar aquela mesma realidade que um dia foi descrita em texto, publicada em jornal, depois de produzida por mãos suadas, uma caneta bic e um caderno. Daí que o repórter precisa dominar as técnicas das novas mídias. Precisa manejar uma câmera, um gravador, um celular, um microfone, precisa saber como funcionam os softwares de edição de vídeo, áudio, de edição multimídia. Acima de tudo, precisa pensar multimídia.

Qual o melhor recurso para contar essa história? Um texto? Uma foto? Um vídeo? Um áudio? Um gráfico? Um jogo?

O repórter e os desafios da reportagem. A reportagem, não a notícia, não o fetiche do tempo-real. O homem no barro, no rio, é notícia? A quem interessa saber do homem no rio? Saber a história do homem? Quem vai comprar a história do homem do rio? A história do homem? E da mulher?

Saindo da Abstração. Jane Stevens, da Universidade Californiana de Berkley, é uma jornalista multimídia. Repórter e professora. Para ela, há dois tipos básicos de história multimídia (multimedia storytelling dizem eles por lá): 1. A dirigida pelo repórter; 2. A dirigida pelo produtor-editor.

1. O repórter no comando. “A história é geralmente um batidão do dia-a-dia ou o trecho de uma série investigativa ou de matéria especial. O repórter – às vezes chamado de “jornalista backpack” – vai a campo e usa sua câmera digital como um bloco de notas multimídia. Ele recolhe vídeos, dos quais pode extrair fotos, áudios e toda a informação que ele irá utilizar nos textos e gráficos. A história está em sua cabeça, e ela toma as decisões básicas para juntar as peças que constituem o todo”.

2. O editor no comando. “Geralmente estamos falando de breaking news (notícias de última hora) ou projetos especiais. O editor arregimenta indivíduos para produzir as peças do quebra-cabeça breaking news, como no caso de uma cidade ameaçada por tornados. Ele pede fotos ao fotógrafo, ao repórter para ir a campo fazer entrevistas, ao câmera para ir a campo e filmar a destruição, a outro repórter pede para recolher informações por telefone e a um artista que produza mapas e ilustrações. A história está em sua cabeça, e ela tomas as decisões básicas para juntas as peças que constituem o todo”.

O repórter e os desafios da reportagem. Como seria a produção de uma reportagem digital hipermídia? Labirinto cartesiano. Um rascunho de caminho:

1. Começamos na pauta, como sempre. Da ética e da pauta. Pauta é como jornalista chama o assunto. Esse assunto rende uma boa história? Interessa ao cidadão? Qual o enfoque? O ângulo? É preciso muita apuração para se chegar a uma boa pauta.

2. Partimos para a pré-produção (nesta fase é preciso começar a identificar os recursos multimídia – qual parte da história pode ser melhor contada por qual mídia? o que vou levar para a rua? com quem vou? como vou?)

3. Ganhamos, então a rua. Partimos para o corpo-a-corpo com a realidade. É preciso estar preparado. A realidade, quando se jogar na nossa cara, precisa ser capturada. Não basta apenas sentir, para depois, num átimo de inspiração e fúria, despejar as emoções no papel. Fosse assim, mandariam-se poetas, não repórteres. O repórter é um pouco poeta. É preciso registrar a realidade em bits (A verdade: 01000100101101010100010).

4. Ainda na rua, já começamos a elaborar a narrativa. É hora de pensar nos recursos que são aplicáveis, um texto que cola com um vídeo, que abre numa infografia, que pode carregar consigo um áudio e uma foto.

5. De volta da rua. É a fase de checar o que foi feito, desenhar o storyboard e iniciar o processo de edição do material bruto;

6. Feito isso, inicia-se a montagem final da reportagem hipermídia, a sua efetiva confecção artesanal, a edição;

7. Cumpridas todas as etapas, é hora de ir para o ar, momento em que tem início o processo interativo de (re)criação da reportagem pelo usuário. Isso, se o usuário não foi convidado para todas as etapas anteriores (o usuário deveria, ao menos, intervir na pauta).

Fecha o círculo.

Estamos na era digital. O repórter e os novos desafios da reportagem. Já faz tempo o repórter não trabalha sozinho. O repórter trabalha em parceria com o artista, com o fotógrafo, com o cinegrafista, com o programador: sua orquestra. O repórter precisa saber um pouco de tudo. É o maestro e pode até tocar todos os instrumentos. É bom que saiba. A reportagem, no entanto, melhor é se resulta do encontro criativo de várias perplexidades. O repórter tem nos seus parceiros o seu primeiro leitor (ou seria usuário?). E tem nos seus leitores (ou seria usuários?) um milhão de parceiros.

O repórter e sua perplexidade. A reportagem digital hipermídia é uma obra aberta. Links, caminhos, fios aparentemente desconexos se integram num todo multiforme. Tem de valorizar a essência da rede: abertura e colaboração. Ao repórter cabe encontrar as narrativas. As diferentes camadas da história.

Uma fórmula, para um mundo sem fórmulas. Com base no projeto Nação Palmares. Qualquer um pode criar uma fórmula. Rabisque-se um quadro:

(1) A narrativa principal deve ter começo, meio e fim. O usuário que caminhar apenas por essa infovia tem o direito de abandoná-la sentindo-se informado. A reportagem não é um exercício diletante. A reportagem informa. A reportagem é jornalismo. O repórter deve definir um fio condutor. Estender a mão ao usuário. (Apenas aqui é preciso lembrar que a mesma história pode ser contada de maneiras diferentes, portanto a narrativa é, em última análise, uma escolha, uma opção e não necessariamente uma obrigação decorrente da história. Evidentemente que a história pode sugerir uma narrativa específica, mas ela pode ser adotada ou subvertertida, conforme a necessidade ou vontade). O essencial – não o fundamental – deve ser trabalhado nesta camada da história. O fundamental é tudo que faz parte da reportagem. Se não for, deve ser jogado fora.

(2) O repórter pode usar a narrativa secundária para o aprofundamento da narrativa principal. A narrativa secundária pode propiciar encontros e desencontros, de acordo com a vontade do usuário. O repórter entrevista um líder quilombola. O repórter oferece além de trechos da fala desse líder a íntegra de sua conversa com o líder. Cenas que não estariam à disposição do usuário. Estimula que samplers e loops mentais ocorram, que samplers e loops reais ocorram. Pode oferecer fotos do líder, da mulher dele, do filho dele, da casa dele. A narrativa secundária pode servir também para (des)construir a narrativa principal. Serve a qualquer interesse do repórter. A narrativa secundária deve existir, porque é por meio dela que estabelece o jogo de interação da rede. Sem ela, temos nas mãos apenas uma história linear. A rede é não-linear. A mente não é linear. As histórias não são lineares. Nem mesmo a realidade é linear.

(3) A narrativa terciária pode ser tudo o que a secundária é. Pode e não pode existir. Quando existe, qualifica o trabalho. Também pode ser uma ponte para quebrar definitivamente a linearidade de uma história, abrindo portas para outros pontos da mesma reportagem que ou já foram exibidas ou ainda serão (considerando o tempo linear de narração). É o espaço ideal para pendurar textos explicativos, links internos e externos, informações adicionais (os extras do DVD). Não há fim da linha. Não há regras.

Estamos na era digital. O jornalismo é James Agee, García Márquez, Eduardo Galeano, Heródoto, René Chateaubriand, Norman Mailer, Euclides da Cunha. É Marcos Faerman, Aloysio Biondi, Rodolfo Walsh e Dan Gillmor. O jornalismo sou eu. O jornalismo é você. O jornalismo é o vídeo-repórter autodidata do Ponto de Cultura de Arco Verde, Pernambuco, que manipula uma câmera digital, capta áudio, entrevista e, de posse dos conteúdos, senta em seu computador para pós-produzir com qualidade superior a de um editor de arte de televisão.

O repórter e sua perplexidade. Os repórteres e suas perplexidades. A busca de uma realidade exige uma linguagem capaz de captá-la. Como captar uma realidade fragmentada? Como captar a realidade pós-moderna? Existe uma realidade? Ou muitas? Existe a pós-modernidade? Não é este o tempo estilhaçado, com sua potência de diversidade e perigo de unidade imposta? Existem caminhos e alternativas. Tempo propício à invenção, ao novo, à experimentação.

De volta aos anos 60. Tom Wolfe escreve:

“Eles (os jornalistas) estavam indo além dos limites convencionais do jornalismo, mas não apenas em termos de técnica. O tipo de reportagem que faziam parecia muito mais ambicioso também para eles. Era mais intenso, mais detalhado e sem dúvida mais exigente em termos de tempo do que qualquer coisa que repórteres de jornais ou revistas, inclusive repórteres investigativos, estavam acostumados a fazer. Eles tinham desenvolvido o hábito de passar dias, às vezes semanas, com as pessoas sobre as quais escreviam. Tinham de reunir todo o material que o jornalista convencional procurava – e ir além. Parecia absolutamente importante estar ali quando ocorressem cenas dramáticas, para captar o diálogo, os gestos, as expressões faciais, os detalhes do ambiente”.

Estamos na era digital. Era da liberdade radical.

De volta ao início. É necessário ser repórter. E uma das tarefas do repórter do mundo digital é descobrir onde a reportagem sobrevive, redefinida, após a libertação da linguagem. Após a libertação do próprio repórter-jornalista. As histórias sempre precisarão ser contadas, e serão contadas pelos contadores de histórias. Sejam eles quem forem. Estejam onde estiverem. Sejam homens ou máquinas.

O desafio, afinal, mudou. O desafio não mudou.

* Samplers de Palavras Aprisionadas, de Marcos Faerman, e O Novo Jornalismo, de Tom Wolfe