Entrevista com Paulo Fehlauer, Garapa.org


Paulo Fehlauer é jornalista. Mas também

é fotógrafo, arrisca como programador de HTML e CSS e é um dos três fundadores da Garapa, produtora multimídia que já é reconhecida dentro e fora do Brasil pelos trabalhos de qualidade. Leo Caobelli e Rodrigo Marcondes são os outros jornalistas da Garapa que, como alguns casos talvez cada vez mais frequentes neste século novo, resolveram demitir seus chefes para tentar criar seu próprio emprego, buscando realizar coisas incríveis. E lançaram agora um projeto para financiamento via crowdfunding, pela plataforma Catarse.me.

Esta entrevista é parte de um projeto de mestrado, que é uma espécie de categorização de novas funções que jornalistas que estão na ponta do processo produtivo realizam. Tarefas que fazem de maneira conjunta, às vezes até sobrepostas, sem medo de tatear o novo. Ele respondeu esse mini-questionário durante o vôo que o levava para Belém, e publico aqui as respostas todas:

Você se considera um jornalista multimídia?

Pergunta difícil. Multimídia cada vez mais, jornalista talvez cada vez menos, a não ser que a definição do termo seja ampliada. Nosso trabalho tem uma base documental muito forte, mas que hoje se aproxima mais do mundo das artes visuais do que do jornalismo propriamente dito. Assim, o vínculo com a “assim chamada realidade” vai ficando cada vez mais sutil. Então ou questionamos as fronteiras do jornalismo ou nos distanciamos dele.

Como chamaria a função que desempenha hoje?
Talvez um produtor multimídia, ou um criador multimídia.

Quais atividades você realiza?
Nosso foco está em projetos com base audiovisual. Então vou da concepção à realização do projeto, trabalhando em praticamente todas as etapas: concepção, redação, fotografia, edição, video, web, distribuição. Se, em determinado projeto, não realizo alguma etapa com as próprias mãos, trabalho na orientação dessa execução.

Como é sua rotina? Quais funções específicas?
A rotina é a não-rotina. Dentro da Garapa, dividimos algumas tarefas administrativas entre os sócios e funcionários. Na minha mão ficam a contabilidade e a comunicação externa, por exemplo. Fora isso, as funções vão depender dos projetos, mas geralmente acabamos participando de todas as funções pertinentes a um trabalho.

O que cabe a você – e o que cabe ao repórter, como padrão – nas reportagens multimídia que você realizou?

Geralmente, cabem a mim as etapas da produção audiovisual – concepção visual, captação e edição de foto, áudio e video. Quando há a figura de um repórter propriamente dito, ele costuma se encarregar da concepção narrativa, pesquisa, entrevista e redação. Mas, mais uma vez, todas essas tarefas podem se confundir na execução de uma reportagem desse tipo.

Que treinamento ou quais cursos seria preciso ter para realizar o que você faz?
Eu praticamente não fiz cursos, além da graduação em jornalismo; fui aprendendo com a prática e as necessidades que surgiam. Mas o treinamento pode encurtar esse processo, tanto do lado técnico quanto na parte mais conceitual. Entre as disciplinas técnicas, eu sugeriria um treinamento básico em webdesign, arquitetura da informação e edição de vídeo. No entanto, cada vez mais tendo a questionar a figura do “homem-banda”, por perceber que o resultado de um projeto dessa linha costuma ser muito superior quando é realizado por uma equipe de profissionais qualificados em suas respectivas áreas. O treinamento técnico, assim, deve ter como objetivo familiarizar o profissional com as ferramentas e com as especificidades de cada linguagem. É o que buscamos, por exemplo, nas oficinas “Experiência Multimídia”, que realizamos pelo Brasil em 2010.

Em relação ao “treinamento” conceitual, acredito que o maior desafio colocado aos interessados nessa atividade seja a estruturação de uma narrativa ao mesmo tempo não-linear, interativa, coesa e que não seja redundante. Na web é muito fácil colocar tudo, todas as linguagens, juntos na mesma página, mas isso por si só não cria necessariamente uma narrativa interessante. Ou seja, o desafio é o mesmo desde a Bíblia, só muda a plataforma.

Como você chamaria esse (s) curso (s) ou esse treinamento?

Narrativa hipermídia, talvez. Ou Hipernarrativa. Ou mesmo “Como Dante escreveria A Divina Comédia nos dias de hoje?”, hehe.

Quais atividades você desenvolve hoje, que no início da década de 90 não existiam no jornalismo? Como você as denomina?

Várias atividades, de certa forma, já existiam: captação e edição de vídeo, áudio, foto, por exemplo, mas nunca aconteciam na mesma mesa e destinadas ao mesmo aparelho. Outras são realmente novas, como essa estruturação prévia da narrativa considerando diferentes linguagens e possibilidades. Em todo projeto multimídia do qual participei, uma das principais etapas foi definir qual papel seria cumprido por cada um dos formatos, e como integrá-los de forma a criar uma narrativa coesa e interessante.Outra característica importante desse momento de estruturação é o planejamento das possíveis formas de participação do público, seja por meio de uma simples caixa de comentários ou até da construção colaborativa da narrativa. A tudo isso eu chamaria, talvez, uma “Arquitetura da narrativa”, que deve ser pensada antes e durante a execução do projeto.

Você acha que essas são agora atividades básicas do jornalismo?

Não necessariamente, porque são mais específicas do meio online, mas eu diria que o conhecimento dessas possibilidades e especificidades deve fazer parte do repertório de todo jornalista.

Quais são os pré-requisitos para um bom jornalista hoje em dia?

Em geral, tendo a pensar que as premissas do bom jornalismo se mantêm, independentemente das mudanças de formato. No entanto, justamente por ter me afastado do jornalismo propriamente dito, começo a questionar também tais premissas. Por exemplo, se trabalhamos desde a primeira aula da graduação conscientes da inexistência da objetividade, por que não assumir então a possibilidade (e o valor) da subjetividade? A pergunta talvez soe ingênua, mas considerando que boa parte das informações que recebemos hoje já vem filtrada mais por grupos de interesse (Facebook, Twitter etc.) do que por editores sentados em suas redações, me parece que o caminho da subjetividade é quase uma realidade. Bom, divaguei, rs.

E para trabalhar no jornalismo online? Algum pré-requisito diferente?

O mais importante é entender, ou buscar entender, as dinâmicas da rede – não-linearidade, multilateralidade, capilaridade, multimídia etc. Para isso, é necessário mais disposição do que conhecimentos técnicos, já que o próprio conhecimento técnico está amplamente disponível na web.

Marcos Faerman e a lista de livros para jornalismo literário

Por Andre

Deak

Já não lembro mais a origem dessa lista que recebi – ou que escrevi – com livros indicados pelo jornalista e professor Marcos Faerman (1943-1999). Tive a sorte de tê-lo como professor durante os últimos dois anos de sua vida, quando ele dava aulas na Cásper Líbero e editava um jornal-revista laboratório conhecido como Esquinas.

Faerman foi um grande apaixonado do jornalismo literário, ensinava e escrevia assim. Compartilho com a rede agora essa lista, que ficou guardada durante anos, mas que ainda é uma preciosidade – e confesso que ainda me faltam um ou dois títulos para completar a coleção.

A lista não está em ordem de importância. Mas acho que era pela ordem dos nomes que ele foi lembrando. Segue:

Lista de livros-referência para quem quer aprender jornalismo literário, segundo indicações do professor Marcos Faerman:


“A Sangue Frio”, Truman Capote
“Honrados Mafiosos”, Gay Talese
“Aos olhos da multidão”, Gay Talese
“A mulher do próximo”, Gay Talese
“Décadas Púrpuras”, Tow Wolfe
“A arte da reportagem”, Igor Fuser – coletânea
“México Rebelde”, John Reed
“Operação Massacre”, Rodolfo Walsh
“O cego de Ipanema”, Paulo Mendes Campos
“Casa de Loucos”, João Antonio
“Os vira-latas da madrugada”, Adelto Gonçalves
“Moby Dick”, Helman Melville
“A Ilha do Tesouro”, Robert Louis Stevenson
“Lobo do Mar”, Jack London
“Fábrica de Mentiras”, Günther Wallraff
“Cabeça de Turco”, Günther Wallraff
“E louvemos agora os grandes homens”, James Agee e Walker Evans
(“Let Us Now Praise Famous Men”)
“Notícia, um produto a venda”, Cremilda Medina
“Com as mãos sujas de sangue”, Marcos Faerman
“Guerra Civil”, Hans Magnus Enzensberger
“Através do continente misterioso”, Henry Stanley
“Recordação da casa dos mortos”, Dostoiévski
“Um belo domingo”, Jorge Semprum
“A longa viagem”, Jorge Semprum
“Os nus e os mortos”, Norman Mailer
“A canção do carrasco”, Norman Mailer
“Tempo de morrer”, Ernest Hemingway
“Nada de novo no front ocidental”, Erich Marie Remarch
“A peste”, Albert Camus
“Entrevistas com a História”, Oriana Fallacci
“1919”, John dos Passos
“Boquinhas Pintadas”, Manuel Puig
“Diário do ano da peste”, Daniel Defoe
“As vinhas da ira”, John Steinbeck
“Oliver Twist”, Charles Dickens
“Conto de Natal”, Charles Dickens
“David Copperfield”, Charles Dickens
“Cidades Fascinantes”, Ian Fleming

Convido os amigos leitores a comentarem outros livros que achem importantes, e irei acrescentando ao post.

Pedro Valente, jornalismo e programação: entrevista

Em entrevista durante o VI Newscamp, que ocorreu no II Fórum de Cultura Digital, Pedro Valente fala um pouco sobre sua rotina profissional e o papel do jornalista/programador.

Pedro Valente é jornalista, desenvolvedor de projetos online, trabalho

u na TV Cultura realizando o Radar Cultura, e hoje é responsável pelo projeto do Yahoo! Meme.

Você se considera um jornalista multimídia?

Não, tentei ser designer, mas não consegui. Eu sou mais um programador-jornalista. Mas não sei se tem um rótulo, porque a gente faz várias coisas. Um dos meus objetivos era colocar um site no ar sozinho. Então fiz tudo: programação, texto, design. É claro que algumas coisas saem melhores que as outras, mas a gente acaba fazendo um pouco de tudo.

Qual sua rotina ?

Sou gerente de produto no Yahoo! de uma equipe de inovação, pequena, para criar um novo produto. Criamos o Yahoo! Meme. O que eu faço é definir as prioridades do produto e ajudar a equipe a realizá-las , uma por vez. Trabalhamos com Scrum, uma metologia ágil. Existe a figura do Project Owner, esse é meu papel. O time diz o que pode fazer e em qual período de tempo. E eu faço o lead das tarefas, o que vai ser feito primeiro.

Você fez curso para usar o Scrum?

Só li uns livros e começamos. Eu estudava isso. Antes eu trabalhava na TV Cultura e tentei implantar isso lá para desenvolver de forma mais organizada. Quando no Yahoo! surgiu a chance de usar, foi ótimo. Antonio Carlos Silveira, que veio da Globo.com, e toda a Globo.com foi transformada em times de Scrum. Como ele eu aprendi bastante.

O que fazia na Cultura?

Eu era desenvolvedor, basicamente. Trabalhava no Radar Cultura, e a gente ficava inventando moda, o que poderíamos integrar com a rádio e a TV.

Pra fazer o que você faz, quais treinamentos alguém precisa? Precisa ser jornalista?

Eu acabei me treinando sem querer. Eu tenho que conversar com designers e programadores o dia todo, e preciso transmitir o que o usuário quer. Tudo o que aprendi de linguagem técnica é importante para essas conversas. Não sei se eu seria um bom programador, acho que seria pior que eles, mas esse conhecimento, saber qual coisa é mais ou menos complexa, isso me permite conversar com eles com algum respeito. O fato de eu ter ido atrás e aprendido a programar me ajudou muito.

E mesmo se eu fosse trabalhar com jornalismo hoje seria igual, tentaria inovar linguagens, criar novas ferramentas.

No Radar, da TV Cultura, era jornalismo, não?

Jornalismo cultural participativo? Pode ser. Mas de novo, não me importa o rótulo. Sei que era divertido.

Ser jornalista é importante para realizar essas coisas?

O que você aprende com jornalismo é bem importante. Não escrever corretamente, que qualquer um faz isso, com alguma dedicação. Mas como saber o que é uma pauta legal? O faro da notícia? Como apresentar isso de uma maneira que o leitor entenda? Como traduzir o complexo para linguagens simples? Isso pode ser aplicado não só num texto. Isso ajuda muito.

Um jornalista precisa ter alguma habilidade ligada ao digital?

Depende do que ele quer fazer hoje. Talvez ele queira fazer o que sempre fez. Não podemos impor isso a eles. Mas a gente vê que o mercado está desmoronando. Se a pessoa não se mexer, alguma coisa vai acontecer. Ou ela perde o emprego, ou ela vai mesmo ser obrigada a aprender coisas novas. Existe sim uma pressão para as pessoas acharem uma maneira nova de fazer jornalismo.

Quais então seriam os pré-requisitos para esse novo jornalista?

Mais do que programação, é importante a pessoa estar antenada com o que está acontecendo nas redes, no mundo digital. Qual a necessidade dos que estão online. Você tem que aproveitar um comportamento existente e usar isso num projeto jornalístico. Colaboração, por exemplo. Por que não usar esse hábito de colaboração para criar um projeto jornalístico? Você não precisa ser programador. Precisa apenas se quiser conversar de detalhes técnicos com quem vai executar. O que é viável, o que dá para fazer ou não dá. Mas hoje tudo dá pra fazer. Se alguém disser que não dá, é mentira. Pode levar um tempão, mas dá.

Isso é mais importante. Acho impressionante como muita gente não se atualiza, não faz a menor ideia do que está rolando. Às vezes a gente encontra gente de nome, medalhões, que não fazem a menor ideia do que tem de novo. Olhar o que o NYT está fazendo, o Washington Post, os caras que estão na ponta.

E além de estar antenado, alguma outra habilidade que você acha que quem quer trabalhar nas redações da internet no Brasil hoje precisa?

Nas redações online que a gente tem hoje? Se você vai trabalhar nas redações de hoje, vai fazer notinha o dia inteiro e cozinhar matérias. Fora algumas excessões, como as áreas de infográficos, mas são inscipientes. A grande massa faz notinhas e detesta. E os editores estão sobrecarregados e não conseguem pensar em como pode melhorar. Eu sugiro que, se a pessoa estiver na faculdade e tiver tempo, faz sozinho. Faz um blog, invente sozinho coisas que seriam legais. Não espere que os veículos dêem um formato. Vai ser o contrário, vai vir de baixo. Os formatos novos virão desse pessoal que experimenta, não das redações.

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