Pelo menos um

Acaba de sair do forno mais um trabalho do Portal NE10, feito em parceria com o Jornal do Commercio. O webdocumentário “Pelo menos um” revela a história de vida e lutas de ex-meninos e meninas de rua de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, que se conheceram há 10 anos em uma ONG. Só um deles conseguiu quebrar o ciclo da pobreza. Retrato de um Brasil ainda muito desigual e cruel.

Na página, o internauta tem acesso ao webdocumentário dividido em três episódios, que conta ainda com infográficos animados, galeria de fotos e textos extras:

http://especiais.ne10.uol.com.br/pelomenosum/

O material foi produzido pelas jornalistas Ciara Carvalho, do Jornal do Commercio, e por mim, do Portal NE10, com design de Bruno de Carvalho/ NE10 e fotos de Hélia Scheppa/ JC Imagem.

Making of Arte Fora do Museu

Atualização: O projeto Arte Fora do Museu também está no site do SP-Arte 2012, numa parceria com os organizadores. Veja clicando aqui.

Depois de vários meses, finalmente está na rua o Arte Fora do Museu. Aproveitamos para compartilhar aqui um pouco sobre como foi feito esse projeto jornalístico multimídia.

Cada um de nós (eu e o também jornalista Felipe Lavignatti) já havia tido uma ideia semelhante sobre um site que fizesse um georreferenciamento de obras de arte em espaços públicos de São Paulo. Eu havia visto um artigo numa revista sobre os grafites do bairro da Liberdade, e desde então me incomodava que o artigo não tivesse sequer um mapa desenhado com um trajeto proposto. Um site poderia fazer isso muito bem.

Felipe já tinha também pensando a respeito, tendo inclusive mapeado algumas obras. Em 2007, quando visitou uma exposição na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), viu algumas réplicas de obras de Aleijadinho. “Eu não sabia que tinha cópias do Aleijadinho em São Paulo e pensei que devia haver muitas obras que não estão catalogadas. No Masp [Museu de Arte de São Paulo] tem um catálogo das obras, mas como saber o que está na rua?”.

Eis que surge um edital da Funarte, o Bolsa Funarte de Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet, que oferecia a chance de finalmente começarmos o projeto. Trabalhando juntos já em projetos na Casa da Cultura Digital, escrevemos o que seria este site, que mapearia obras de arte em espaços públicos, chamamos de Arte Fora do Museu. Projeto no correio, algumas semanas depois veio a alegria: acabamos vencendo em primeiro lugar.

Tínhamos seis meses para realizar tudo o que havíamos prometido no projeto: cem obras de arte, num sistema de georreferenciamento que funcionasse também a partir de celulares. Sempre nos pareceu correta a estratégia chamada “mobile first” – você desenvolve pensando para celulares, e depois faz funcionar também na web.

Felipe assumiu a produção do projeto, encontrando os consultores Fabio Cypriano e Diogo de Oliveira, que auxiliaram a selecionar as 100 obras de acordo com alguns critérios que definimos em conjunto:

  • A relevância reconhecida por especialistas;
  • Obras consideradas modernas ou contemporâneas;
  • As proximidades do centro expandido da metrópole;
  • Acesso gratuito e fácil ao pedestre (sem ingressos ou agendamentos).

Felipe também montou um banco de dados, onde começava a listar os pormenores que depois alimentariam o site e o aplicativo para celular. Conseguimos uma parceria com a empresa Galapagos Mobile, que se prontificou a desenvolver o aplicativo para o Iphone. O Android, quando havíamos pensando no projeto, ainda não era o que já se tornou: um sistema operacional forte concorrente da Apple.

Enquanto Felipe mapeava as obras, buscando no Google Street View o local exato de cada uma delas, fizemos alguns desenhos do site, que começava a ser criado pelo também parceiro e programador Paulo Geyer. Ele escolheu o Ruby on Rails para criar a site, o que já gerou uma API aberta, como essa aqui. Queremos melhorar isso para que qualquer um possa usar nossa base de dados para outros projetos.

Fora do Brasil existiam algumas experiências semelhantes, mas quase todas baseadas em catalogação colaborativa. Nada contra projetos colaborativos, mas existe todo um sistema complexo de checagem da produção coletiva, e não optamos por este caminho. Pensamos num trabalho jornalístico mais tradicional: apuração com especialistas, produção de conteúdo, edição, apresentação multimídia. Bem, talvez não tão tradicional assim.

A parte mais divertida – mas não menos trabalhosa – foi sair a campo para capturar as imagens de cada obra de arte. Optamos por dias de sol, e fizemos a maior parte dos trajetos de bicicleta, uma vez que muitos dos nossos objetos estavam concentrados no centro da cidade. Fotografar São Paulo com um olhar para o que há de bonito é uma das coisas que há muito eu queria realizar.

A ideia de fotografar as obras foi uma forma de garantir que grafites, ou mesmo edifícios, possam ser guardados de maneira perene na memória da cidade. Alguns projetos gringos que mapeiam arte nas ruas fazem isso a partir do Google Street View, apenas. Nada garante que quando o carro do Google passou, ou passar de novo, aquele grafite ainda estará lá.

Felipe me convenceu que poderíamos também ter vídeos com especialistas falando sobre cada uma das obras, individualmente. Uma loucura, produzirmos 100 vídeos, editarmos 100 vídeos. Mas compramos um tripé vagabundo na Santa Ifigênia para minha pequena câmera Flip HD, um microfone de lapela com fio, que ligamos no meu gravador digital da Sony, e fomos pras entrevistas. Aproveito para agradecer aos entrevistados, Fabio Cypriano, Felipe Chaimovich, Isabel Ruas, Pato, Ricardo Ohtake, Rosana de Paula Prado e Valter Caldana, que nos receberam sempre muito bem.

Pedimos aos nossos amigos da produtora Filmes para Bailar que fizessem a animação do logo, para inserirmos nos vídeos. O próprio Felipe desenhou o logo do projeto, aliás – orçamento baixo é assim.

Com fotos e vídeos nas mãos, começamos a edição de tudo – o que foi um erro nosso: deveríamos ter editado assim que voltávamos de cada saída, e aí não seria tão custoso editar tudo de uma só vez. Uma semana trancados, praticamente.

Compartilhamos as fotos via Dropbox com Paulo Geyer e a equipe da Galápagos. Usamos o Google Docs para compartilhar o banco de dados. Premiere para edição dos vídeos, mas simplesmente porque ainda não temos um Mac – todos dizem que o Final Cut é muito melhor.

Um detalhe: como eram relativamente longas as gravações, descobrimos que a Flip, após 10 ou 15 minutos, gera uma desincronia entre áudio e vídeo. A Flip é uma câmera incrível, pequena, custa US$ 100, mas, bem, descobrimos que não é muito profissional. Não tivéssemos gravado também na lapela, nenhum vídeo teria servido, ou pelo menos teria dado um trabalho infinito para editar.

Subimos todos os vídeos no YouTube, e todas as fotos no Flickr. Tudo foi liberado em Creative Commons, uma licença que permite a reutilização de tudo o que produzimos, desde que se cite a fonte. Primeiro, achamos que se foi feito com dinheiro público, toda a produção resultante deve ser pública. Mas também nos interessa que nosso trabalho circule, e que mais pessoas tenham acesso ao que fizemos. Assim, quem sabe, mais gente passa a nos conhecer e a nos procurar para trabalhos jornalísticos multimídia. Quem sabe. Viver de royalties é tão século 20.

O projeto está na rua, e agora queremos continuar. Este projeto foi feito praticamente por dois jornalistas, quase sem recursos – não ganhamos absolutamente nada. Mas esperamos que a ideia floresça e que alguém resolva patrocinar uma continuação, aprimoramentos, uma versão para Android. Contanto que o conteúdo seja sempre oferecido de graça, claro.

Pra finalizar, um depoimento do Felipe Lavignatti, acrescentando um pouco mais sobre a história e o processo de criação do projeto:

Eu sempre achei que de todos os cursos que ja fiz, o de desenho e pintura era o que de menos valia teve para minha profissão. Influenciado por gibis e capas de discos de rock, por alguns anos achei que esse seria meu destino: viver das minhas pinturas. Para sorte de todos, estes quadros nunca foram vistos por mais do que cinco pessoas. Quando me decidi pelo jornalismo na adolescência, a paixão pelas artes foi deixada de lado. Mas não totalmente esquecida. E agora, 20 anos após este curso de desenho feito em Jundiaí, as artes plásticas voltam a bater à minha porta. Fiquem tranquilos, não voltei a pintar nem decidi vender minhas obras primas que hoje mofam em algum canto na casa da minha mãe. A arte virou objeto para mim. No caso, objeto jornalístico. Com o Arte Fora do Museu, feito em parceria com o também jornalista e geek Andre Deak, posso satisfazer o desejo de trabalhar com arte daquele menino de 12 anos que pintava quadros duvidosos em Jundiaí. Mas mais do que isso, satisfaço meu lado jornalista ao criar um site que reúne as obras de arte em espaços públicos da cidade de São Paulo.

A ideia de mapear arte na cidade me ocorreu pela primeira vez ao visitar a FAAP durante uma exposição do fotógrafo Bob Gruen em 2007. Fiquei espantado em saber que existia no saguão de entrada da faculdade esculturas do Aleijadinho (mais tarde descobri que sao réplicas). Lembrei-me de que havia alguns cemitérios em São Paulo que também continham obras de artistas renomados, assim como grafites famosos, e resolvi fazer disso uma pauta, mapeando obras de arte ao ar livre, fora dos museus, para criar um catálogo que não existia em nenhum lugar. É fácil saber quais obras estão no Masp, no MAM, mas saber de quem é uma escultura no centro da praça da Sé é uma tarefa um pouco mais difícil. Cheguei a mandar um e-mail para um professor meu, Fabio Cypriano, que além de dar ótimas aulas é crítico de arte da Folha de S. Paulo. Ele chegou a me indicar alguns pontos na época, mas, por algum motivo, esta ideia não saiu do papel, e a visita guiada pela cidade de São Paulo ficou adormecida. Isso até o ano passado, quando o projeto foi posto no papel para ser inscrito em uma bolsa da Funarte. Foi minha primeira empreitada neste tipo de concurso, e não seria possível sem a ajuda do também jornalista e co-autor do projeto, Andre Deak. Andre tinha algumas ideias de projetos para este premio, e uma delas parecia com a pauta que eu guardava no meu bolso há três anos. Sua ideia era fazer um mapa de grafite em São Paulo. O meu era um mapa um pouco mais megalomaníaco, abrangendo tambem esculturas, pinturas e arquiteturas (sempre quis ver um site que listasse todas as obras de Oscar Niemeyer em São Paulo, e agora isso existe). Escrevendo a quatro mãos (nunca entendi este conceito, sendo que cada pessoa escreve com uma mão só…), eu e Andre fomos delineando o que teria neste site, como seria a navegação, etc. Era uma ideia muito boa e bem resolvida, por isso confiávamos que seria premiada. E foi o que aconteceu. Com a divulgação do resultado pela Funarte, o Arte Fora do Museu comecava a nascer.

O primeiro passo foi recuperar a lista de 2007. Não só a lista, mas também o contato com Fabio Cypriano. Se for para mapear as obras de arte de Sao Paulo, melhor chamar alguem que entenda muito do assunto, e Fabio era essa pessoa. Ele trouxe a ajuda do amigo Diogo Oliveira, que trabalha com turismo voltado para arte na cidade – nada mais adequado. Em diversas reuniões, nós quatro listamos pouco mais de 100 obras na cidade, discutimos quem seriam os especialistas para comentar cada peça. A partir daí, foi partir para rua e conhecer cada uma destas obras. E foi um aprendizado incrível ver cada uma destas obras ao vivo e ouvir a explicação de nossos entrevistados: o grafiteiro Pato, os arquitetos Ricardo Ohtake e Valter Caldana, a educadora Rosana de Paula Prado, a mosaicista Isabel Ruas e Cypriano, claro, que também gravou alguns depoimentos.

No fim, foi uma aula de arte feita de metrô, a pé, de carro e bicicleta em uns 7 dias de passeios de sol por lugares da cidade que eu mal conhecia. Reavaliando aquele curso feito em 1991, foi importante ter tido contato com as artes plásticas ali. No fundo, esta paixão nunca foi esquecida, sempre fui admirador. Graças ao jornalismo, agora posso trabalhar com arte sem ter que expor meus dotes na pintura (para sorte de todos).

O Paulo Geyer, programador, também mandou um parágrafo contando a experiência dele na produção do Arte Fora do Museu:

Em dezembro de 2010 o Lavignatti entrou em contato comigo, queria fazer um site com cadastro de obras de arte nas ruas de São Paulo. Não sabia exatamente o que seria, mas ao longo da conversa começou a parecer cada vez mais interessante, algo realmente diferente do que eu costumava fazer. Dei início ao projeto em Ruby on Rails. Ao longo do semestre fomos conversando e o projeto foi tomando cada vez mais forma, eu trabalhando em Florianópolis e ele em São Paulo. Não é comum achar gente que consiga trabalhar à distância, mas funcionou perfeitamente bem para nós. Enquanto produziam o material e disponibilizavam por uma planilha do Google Docs (a lista das obras), e os arquivos multimídia com as fotos e áudio via Dropbox, o site ia ganhando forma. Estava gostando muito da navegação do site com as fotos, informações e street view de cada obra, mas quando chegaram os arquivos de áudio eu tive a impressão de que deu um avanço muito grande na navegação: ouvir a explicação de cada obra enquanto se observam as fotos ou o street view melhorou muito a experiência de usuário (eu mesmo parei para rever e ouvir o áudio de diversas obras). Mas somente nos últimos meses deu pra ver todo o potencial do site, e o resultado final me agradou muito mesmo. Da próxima vez que o Lavignatti me chamar para participar de algum projeto não vou pensar duas vezes! 😉

 

PARA ACESSAR:

Arte Fora do Museu – o site

As fotos do projeto no Flickr

Os vídeos no YouTube

Para acompanhar no Twitter e no Facebook

terremoto no Jap̣o Р1 ano

O Uol tem uma equipe que trabalha com especiais multimídia interativos, e recentemente publicou um trabalho que chamou a atenção por utilizar a linguagem HTML5  – o que há de mais novo na tecnologia web.

Foi o especial 1 ano do terremoto no Japão, com material recolhido da cobertura e uma edição adicional, com fotos, vídeos, texto.

O projeto usa um tipo de navegação que mimetiza os tablets, uma espécie de “navegação em E”, uma vez que tem um eixo vertical, e muitos eixos horizontais. Em alguns momentos, o eixo horizontal é grande demais, e sem uma marcação mais adequada, a usabilidade fica prejudicada. De qualquer forma, é uma das poucas experiências brasileiras com o formato. O G1 tinha experimentado algo semelhante antes, num especial sobre o Corinthians.

Abaixo, Cíntia Baio, produtora conta um pouco dos bastidores de como foi pensado e feito o especial.

 

O nosso objetivo era tentar contar qual é o retrato do Japão um ano após o terremoto com uma linguagem diferente, que valorizasse vídeos e imagens, que foram muito fortes durante toda a cobertura do ano passado. Depois de uma reunião com designers e programadores, um deles sugeriu fazer em html 5, com um formato diferente dos infográficos que já tínhamos como padrão. Um dos pontos que contou bastante para a decisão foi o planejamento antecipado e um conteúdo frio, facilitando o trabalho de apuração, layout e programação.
A partir daí, os jornalistas do projeto (éramos em 3) decidiram quais seriam os itens abordados e qual seria a ordem e começamos o trabalho de apuração, escolhendo fotos e vídeos que relembrassem o tema. Um deles, que é editor-assistente de Inter e quem deu a ideia de fazer uma cobertura especial para o tema, foi até o Japão para visitar os locais atingidos e mostrar como estava sendo a reconstrução.
Para a equipe, criar um projeto assim foi importante no processo de integração de diferentes áreas, já que tivemos a participação de programador, designer, jornalistas, técnicos de vídeo desde a criação até a execução do projeto. É uma maneira diferente da redação trabalhar e do jornalista pensar de uma maneira diferente em como apresentar o conteúdo.

 

O nascimento de Joicy, sobre como João virou mulher

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O Jornal do Commercio, do Recife, publicou no impresso, nos dias 10, 11 e 12 de abril, a reportagem O Nascimento de Joicy, sobre como João, agricultor, virou mulher. O trabalho, que também tem vídeos e diversas fotos, também foi organizado num site do JC Online – algo que todos os jornais deveriam fazer, mas pouquíssimos fazem. (Se o repórter foi às ruas para realizar uma boa reportagem, por que não eternizar este conteúdo com uma boa apresentação? As redações dirão que falta tempo, faltam profissionais, falta estrutura – mas, como mostra o JC Online há muitos anos, falta apenas vontade.)

A reportagem é fruto do trabalho da repórter Fabiana Moraes, com design gráfico de Andrea Aguiar e Cláudio França e imagens de Rodrigo Lôbo e Hélia Scheppa. O jornal publicou uma nota em que dá alguns números sobre o início da repercussão:

Desde que foi disponibilizado no JC Online, às 21h de sábado (9), O nascimento de Joicy já teve mais de cinco mil visualizações. Milhares de leitores acessaram o especial a partir de links em redes sociais como o Facebook e o Twitter.

Também foi aberto um grande espaço de divulgação no portal do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC), o NE10. Das cidades brasileiras que mais acessaram a matéria, Recife foi a campeã, seguida por Rio de Janeiro, Fortaleza e São Paulo.

Outros grandes trabalhos já saíram do JC Online: A Viagem de Joanda, E o Verbo se fez Vida, e até o mais antigo Longe da Casinha de Bonecas, de 2007. O Jornal do Commercio também já tinha feito o ótimo Os Sertões, que no impresso ganhou a principal categoria do prêmio Esso em 2009.

Dessa vez, quem explicou para o Jornalismo Digital.org o processo de produção do especial foi a repórter Fabiana Moraes:

O processo de produção da matéria, como você viu, foi longo. Na verdade, havia iniciado o acompanhamento de outra transexual, que, acredito, no segundo mês de nossos encontros, começou a me passar a impressão de que iria desistir. Assim, voltei aos corredores da ginecologia do hospital das clínicas. Antes entrevistei médicos e psicólogos.

Conheci Joicy nesse corredor, em um dia onde outras transexuais tambémaguardavam atendimento.

Sua não-adesão aos códigos femininos (naturalizados como femininos, fique claro) me chamou atenção. Vivia em uma pequena cidade no agreste, perto do sertão, trabalhou a vida toda como agricultora. Eram marcadores que tornavam Joicy uma transexual muito específica.

No entanto, não sublinhei isso como algo “curioso” e, muito menos, engraçado. Queria mostrar, independentemente da natureza do trabalho da transexual, como era viver com um certo corpo e tempos depois viver sem ele, sem aquele corpo como era antes. Como, socialmente, as transexuais eram tratadas no dia-a-dia, entre a família, entre os vizinhos e, claro, no serviço público de saúde.

O mais difícil talvez foi ficar em alguns momentos “longe” de Joicy quando ela precisava de algo estrutural. Um caso desses foi o dia de sua volta a Alagoinha, após receber alta. Poderíamos, com o carro do jornal, ter levado ela para casa. Mas não seria o que ia acontecer normalmente caso não estivéssemos lá. Assim, passamos das sete da manha às 18h30 no hospital, esperando uma ambulância, o carro que levaria Joicy para Alagoinha.

O especial sobre Joicy deve ir também para a televisão, como série de reportagens.

UPDATE: O JC Online mudou de nome e passa agora a se chamar NE10. Gustavo Belarmino, editor do NE10, explicou num email que me enviou: a mudança foi também “para não causar mais a confusão entre site do Jornal do Commercio (que agora estreou com uma produção “quente” e não mais apenas o jornal estático) e o novo produto, que abriga todos os sites do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. O nome desse novo portal é NE10, numa referência não só a Pernambuco, mas a todo Nordeste, onde o grupo de comunicação da qual o portal faz parte é lider”.