Our Choice, o jornalismo interativo na versão livro-app de Ipad

Por Ana Ikeda

Elegante, imersivo e bonito (muito bonito). São essas as palavras mais usadas nas resenhas e críticas na imprensa sobre “Our Choice: A Plan to Solve the Climate Crisis”, livro-aplicativo desenvolvido pela Push Pop Press, startup criada por ex-engenheiros da Apple, para um cliente notório: Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e prêmio Nobel da Paz em 2007. Mais impactante que o lançamento do próprio livro multimídia foi o anúncio de Mike Matas, 25, cofundador da desenvolvedora, de que se tratava apenas de um embrião para um projeto ainda maior, o de uma plataforma de publicação que permitiria a qualquer pessoa criar livros tão sensacionais quanto aquele feito para Al Gore. Mas a “revolução editorial” alardeada pela Push Pop Press acabou em menos de cinco meses. A empresa foi comprada pelo Facebook.

Não é à toa que Mark Zuckerberg se interessou pelo trabalho dos jovens desenvolvedores. É difícil definir o que é “Our Choice”: não é parecido com os e-books disponíveis no mercado; também não tem paralelo com pulicações digitais, como o “The Daily”, jornal exclusivo para iPad. Livro-aplicativo parece ser o termo mais honesto para nos referirmos a esse produto, que até o momento parece uma das soluções mais eficientes para a transição da leitura em papel à digital.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=LV-RvzXGH2Y[/youtube]

Ao mesmo tempo em que possui uma navegação extremamente simples, com pouquíssimos botões, ele oferece uma nova forma de construção da narrativa por meio dos seus recursos multimídia. O texto, apesar de ainda importante, não é mais protagonista. Vários vídeos (cerca de uma hora de documentário segmentado em diferentes páginas), fotos (ao menos 400) e infográficos interativos tem peso igual na leitura.

A melhor forma de entender como essa mudança é significativa é conferir o aplicativo (disponível via iTunes para iPad, iPhone e iPod por US$ 4,99) ou simplesmente acompanhar o vídeo em que Matas o apresenta. “Nada de barras de ferramenta, botões de voltar, nós queremos justamente que o conteúdo preencha a tela para que você possa mergulhar nele. Acho que isso resulta numa experiência para o usuário que é muito próxima a de um livro físico, no qual você pode simplesmente viajar no conteúdo e não ser constantemente jogado para fora por ter de lidar com a tecnologia por trás dela”, explicou Matas em um fórum de participantes do TED, que realiza conferências ao redor do mundo para disseminar ideias sobre tecnologia, entretenimento e design.

Ao usar o livro-aplicativo, fica clara a preocupação da Push Pop Press em evitar um erro comum cometido pelas publicações que passam do papel aos tablets, que é simplesmente imitar o “folhear das páginas”. Segundo Matas, essa é uma das principais barreiras entre os dois meios de publicação. “Na transição do impresso para o digital, não podemos perder a habilidade de mergulharmos no conteúdo”, disse no TED. Para cumprir essa meta, houve a preocupação em fazer com que cada página tivesse um tempo de navegação semelhante, o que Matas chama de “livro estável”. Sempre há um pedaço da página anterior na próxima página, para que a pessoa saiba que está avançando pela história. “Quando você segura um livro impresso, pode ver o final dele e tem uma ideia aproximada de que ponto está e para onde está indo. Em uma tela, se você não pensa numa forma diferente de mostrar isso, a experiência de leitura parece realmente descontinuada”, explicou no fórum.

Da parte ao todo

Para desenvolver esse projeto para Al Gore, que foi iniciado em setembro de 2009 e lançado em abril deste ano, a Push Pop Press precisou criar uma plataforma completamente diferente do que existia no mercado, dominado principalmente pelas ferramentas da Adobe. Depois de tanto tempo gasto em seu desenvolvimento, por que não aproveitá-la comercialmente?

Além de Matas, designer de interface, participaram do projeto Kimon Tsinteris, arquiteto de software, Austin Sarner, engenheiro de software e Bret Victor, designer de infográficos. A principal diferença dessa plataforma seria a eliminação de alguns “intermediários” entre o autor e o seu livro: os programadores e designers. Então, mesmo sem grandes conhecimentos em linguagem de programação ou softwares de edição de imagens, qualquer pessoa seria capaz de produzir um livro-aplicativo, com direito à interatividade e impacto visual. Para jornalistas, por exemplo, seria uma tremenda ferramenta: liberdade em relação aos conglomerados de mídia e editoração, aliada à publicação de conteúdo especial (e visualmente atrativo) para o mercado crescente de usuários de tablets.

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Matas evitou ao máximo dar detalhes da tecnologia por detrás da ferramenta de publicação, reiterando sempre que o objetivo era que “a plataforma fosse amplamente disponível”. Ainda na discussão do fórum do TED, respondeu apenas que usou uma linguagem de programação chamada Quartz Composer, encontrada em computadores Mac (o que demonstra a atitude deles em ignorar completamente a plataforma Android, do Google), principalmente para criar os elementos de animação e interatividade.

A empolgação e o burburinho gerados foi tanta que um editor da Wired chegou a dizer que a novidade, se projetada com sucesso, “poderia facilmente se tornar no meio mais rápido e fácil para editores e artistas independentes transformarem seus conteúdos em aplicativos para iPhone e iPad e ‘tomar uma pancada’ de dinheiro na App Store.”

Mas não foi bem assim que a história terminou.

Devorado pelo Facebook

Poucos meses após o lançamento de “Our Choice”, em agosto deste ano, o Facebook anunciou a compra da Push Pop Press, bem discretamente, sem informar quanto pagou pela startup. Em um post, a desenvolvedora de Matas apenas revelou que, apesar da rede social não ter planos de publicar livros digitais, “as ideias e a tecnologia por trás da Push Pop Press seriam integradas ao Facebook”. Mas como?

O jornalista Ilie Mitaru, em uma análise publicada na PC World, especulou que o Facebook poderia criar uma rival para a eBookstore do Google. Assim como a gigante de internet, a rede social tentaria mobilizar alguns dos seus quase 800 milhões de usuários para utilizar uma ferramenta que iria além da mera loja de livros digitais.

Outro palpite do colunista foi o de que a tecnologia da Push Pop Press ajudaria no lançamento do aplicativo oficial do Facebook para iPad, aguardado há meses e uma deficiência grave na rede social de Zuckerberg. Essa última opção soa muito mais provável: basta lembrar que Matas e sua equipe eram da Apple.

Embora a tão sonhada “revolução editorial” da Push Pop Press tenha sido “engolida” pelo Facebook, nada impede que outros desenvolvedores de aplicativos para tablets se inspirem nessa ideia. Quem sabe para a plataforma Android, até.

 

Este texto é um trabalho para a disciplina design informacional, da pós-graduação 2011 na PUC-SP.