Making of Arte Fora do Museu

Atualização: O projeto Arte Fora do Museu também está no site do SP-Arte 2012, numa parceria com os organizadores. Veja clicando aqui.

Depois de vários meses, finalmente está na rua o Arte Fora do Museu. Aproveitamos para compartilhar aqui um pouco sobre como foi feito esse projeto jornalístico multimídia.

Cada um de nós (eu e o também jornalista Felipe Lavignatti) já havia tido uma ideia semelhante sobre um site que fizesse um georreferenciamento de obras de arte em espaços públicos de São Paulo. Eu havia visto um artigo numa revista sobre os grafites do bairro da Liberdade, e desde então me incomodava que o artigo não tivesse sequer um mapa desenhado com um trajeto proposto. Um site poderia fazer isso muito bem.

Felipe já tinha também pensando a respeito, tendo inclusive mapeado algumas obras. Em 2007, quando visitou uma exposição na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), viu algumas réplicas de obras de Aleijadinho. “Eu não sabia que tinha cópias do Aleijadinho em São Paulo e pensei que devia haver muitas obras que não estão catalogadas. No Masp [Museu de Arte de São Paulo] tem um catálogo das obras, mas como saber o que está na rua?”.

Eis que surge um edital da Funarte, o Bolsa Funarte de Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet, que oferecia a chance de finalmente começarmos o projeto. Trabalhando juntos já em projetos na Casa da Cultura Digital, escrevemos o que seria este site, que mapearia obras de arte em espaços públicos, chamamos de Arte Fora do Museu. Projeto no correio, algumas semanas depois veio a alegria: acabamos vencendo em primeiro lugar.

Tínhamos seis meses para realizar tudo o que havíamos prometido no projeto: cem obras de arte, num sistema de georreferenciamento que funcionasse também a partir de celulares. Sempre nos pareceu correta a estratégia chamada “mobile first” – você desenvolve pensando para celulares, e depois faz funcionar também na web.

Felipe assumiu a produção do projeto, encontrando os consultores Fabio Cypriano e Diogo de Oliveira, que auxiliaram a selecionar as 100 obras de acordo com alguns critérios que definimos em conjunto:

  • A relevância reconhecida por especialistas;
  • Obras consideradas modernas ou contemporâneas;
  • As proximidades do centro expandido da metrópole;
  • Acesso gratuito e fácil ao pedestre (sem ingressos ou agendamentos).

Felipe também montou um banco de dados, onde começava a listar os pormenores que depois alimentariam o site e o aplicativo para celular. Conseguimos uma parceria com a empresa Galapagos Mobile, que se prontificou a desenvolver o aplicativo para o Iphone. O Android, quando havíamos pensando no projeto, ainda não era o que já se tornou: um sistema operacional forte concorrente da Apple.

Enquanto Felipe mapeava as obras, buscando no Google Street View o local exato de cada uma delas, fizemos alguns desenhos do site, que começava a ser criado pelo também parceiro e programador Paulo Geyer. Ele escolheu o Ruby on Rails para criar a site, o que já gerou uma API aberta, como essa aqui. Queremos melhorar isso para que qualquer um possa usar nossa base de dados para outros projetos.

Fora do Brasil existiam algumas experiências semelhantes, mas quase todas baseadas em catalogação colaborativa. Nada contra projetos colaborativos, mas existe todo um sistema complexo de checagem da produção coletiva, e não optamos por este caminho. Pensamos num trabalho jornalístico mais tradicional: apuração com especialistas, produção de conteúdo, edição, apresentação multimídia. Bem, talvez não tão tradicional assim.

A parte mais divertida – mas não menos trabalhosa – foi sair a campo para capturar as imagens de cada obra de arte. Optamos por dias de sol, e fizemos a maior parte dos trajetos de bicicleta, uma vez que muitos dos nossos objetos estavam concentrados no centro da cidade. Fotografar São Paulo com um olhar para o que há de bonito é uma das coisas que há muito eu queria realizar.

A ideia de fotografar as obras foi uma forma de garantir que grafites, ou mesmo edifícios, possam ser guardados de maneira perene na memória da cidade. Alguns projetos gringos que mapeiam arte nas ruas fazem isso a partir do Google Street View, apenas. Nada garante que quando o carro do Google passou, ou passar de novo, aquele grafite ainda estará lá.

Felipe me convenceu que poderíamos também ter vídeos com especialistas falando sobre cada uma das obras, individualmente. Uma loucura, produzirmos 100 vídeos, editarmos 100 vídeos. Mas compramos um tripé vagabundo na Santa Ifigênia para minha pequena câmera Flip HD, um microfone de lapela com fio, que ligamos no meu gravador digital da Sony, e fomos pras entrevistas. Aproveito para agradecer aos entrevistados, Fabio Cypriano, Felipe Chaimovich, Isabel Ruas, Pato, Ricardo Ohtake, Rosana de Paula Prado e Valter Caldana, que nos receberam sempre muito bem.

Pedimos aos nossos amigos da produtora Filmes para Bailar que fizessem a animação do logo, para inserirmos nos vídeos. O próprio Felipe desenhou o logo do projeto, aliás – orçamento baixo é assim.

Com fotos e vídeos nas mãos, começamos a edição de tudo – o que foi um erro nosso: deveríamos ter editado assim que voltávamos de cada saída, e aí não seria tão custoso editar tudo de uma só vez. Uma semana trancados, praticamente.

Compartilhamos as fotos via Dropbox com Paulo Geyer e a equipe da Galápagos. Usamos o Google Docs para compartilhar o banco de dados. Premiere para edição dos vídeos, mas simplesmente porque ainda não temos um Mac – todos dizem que o Final Cut é muito melhor.

Um detalhe: como eram relativamente longas as gravações, descobrimos que a Flip, após 10 ou 15 minutos, gera uma desincronia entre áudio e vídeo. A Flip é uma câmera incrível, pequena, custa US$ 100, mas, bem, descobrimos que não é muito profissional. Não tivéssemos gravado também na lapela, nenhum vídeo teria servido, ou pelo menos teria dado um trabalho infinito para editar.

Subimos todos os vídeos no YouTube, e todas as fotos no Flickr. Tudo foi liberado em Creative Commons, uma licença que permite a reutilização de tudo o que produzimos, desde que se cite a fonte. Primeiro, achamos que se foi feito com dinheiro público, toda a produção resultante deve ser pública. Mas também nos interessa que nosso trabalho circule, e que mais pessoas tenham acesso ao que fizemos. Assim, quem sabe, mais gente passa a nos conhecer e a nos procurar para trabalhos jornalísticos multimídia. Quem sabe. Viver de royalties é tão século 20.

O projeto está na rua, e agora queremos continuar. Este projeto foi feito praticamente por dois jornalistas, quase sem recursos – não ganhamos absolutamente nada. Mas esperamos que a ideia floresça e que alguém resolva patrocinar uma continuação, aprimoramentos, uma versão para Android. Contanto que o conteúdo seja sempre oferecido de graça, claro.

Pra finalizar, um depoimento do Felipe Lavignatti, acrescentando um pouco mais sobre a história e o processo de criação do projeto:

Eu sempre achei que de todos os cursos que ja fiz, o de desenho e pintura era o que de menos valia teve para minha profissão. Influenciado por gibis e capas de discos de rock, por alguns anos achei que esse seria meu destino: viver das minhas pinturas. Para sorte de todos, estes quadros nunca foram vistos por mais do que cinco pessoas. Quando me decidi pelo jornalismo na adolescência, a paixão pelas artes foi deixada de lado. Mas não totalmente esquecida. E agora, 20 anos após este curso de desenho feito em Jundiaí, as artes plásticas voltam a bater à minha porta. Fiquem tranquilos, não voltei a pintar nem decidi vender minhas obras primas que hoje mofam em algum canto na casa da minha mãe. A arte virou objeto para mim. No caso, objeto jornalístico. Com o Arte Fora do Museu, feito em parceria com o também jornalista e geek Andre Deak, posso satisfazer o desejo de trabalhar com arte daquele menino de 12 anos que pintava quadros duvidosos em Jundiaí. Mas mais do que isso, satisfaço meu lado jornalista ao criar um site que reúne as obras de arte em espaços públicos da cidade de São Paulo.

A ideia de mapear arte na cidade me ocorreu pela primeira vez ao visitar a FAAP durante uma exposição do fotógrafo Bob Gruen em 2007. Fiquei espantado em saber que existia no saguão de entrada da faculdade esculturas do Aleijadinho (mais tarde descobri que sao réplicas). Lembrei-me de que havia alguns cemitérios em São Paulo que também continham obras de artistas renomados, assim como grafites famosos, e resolvi fazer disso uma pauta, mapeando obras de arte ao ar livre, fora dos museus, para criar um catálogo que não existia em nenhum lugar. É fácil saber quais obras estão no Masp, no MAM, mas saber de quem é uma escultura no centro da praça da Sé é uma tarefa um pouco mais difícil. Cheguei a mandar um e-mail para um professor meu, Fabio Cypriano, que além de dar ótimas aulas é crítico de arte da Folha de S. Paulo. Ele chegou a me indicar alguns pontos na época, mas, por algum motivo, esta ideia não saiu do papel, e a visita guiada pela cidade de São Paulo ficou adormecida. Isso até o ano passado, quando o projeto foi posto no papel para ser inscrito em uma bolsa da Funarte. Foi minha primeira empreitada neste tipo de concurso, e não seria possível sem a ajuda do também jornalista e co-autor do projeto, Andre Deak. Andre tinha algumas ideias de projetos para este premio, e uma delas parecia com a pauta que eu guardava no meu bolso há três anos. Sua ideia era fazer um mapa de grafite em São Paulo. O meu era um mapa um pouco mais megalomaníaco, abrangendo tambem esculturas, pinturas e arquiteturas (sempre quis ver um site que listasse todas as obras de Oscar Niemeyer em São Paulo, e agora isso existe). Escrevendo a quatro mãos (nunca entendi este conceito, sendo que cada pessoa escreve com uma mão só…), eu e Andre fomos delineando o que teria neste site, como seria a navegação, etc. Era uma ideia muito boa e bem resolvida, por isso confiávamos que seria premiada. E foi o que aconteceu. Com a divulgação do resultado pela Funarte, o Arte Fora do Museu comecava a nascer.

O primeiro passo foi recuperar a lista de 2007. Não só a lista, mas também o contato com Fabio Cypriano. Se for para mapear as obras de arte de Sao Paulo, melhor chamar alguem que entenda muito do assunto, e Fabio era essa pessoa. Ele trouxe a ajuda do amigo Diogo Oliveira, que trabalha com turismo voltado para arte na cidade – nada mais adequado. Em diversas reuniões, nós quatro listamos pouco mais de 100 obras na cidade, discutimos quem seriam os especialistas para comentar cada peça. A partir daí, foi partir para rua e conhecer cada uma destas obras. E foi um aprendizado incrível ver cada uma destas obras ao vivo e ouvir a explicação de nossos entrevistados: o grafiteiro Pato, os arquitetos Ricardo Ohtake e Valter Caldana, a educadora Rosana de Paula Prado, a mosaicista Isabel Ruas e Cypriano, claro, que também gravou alguns depoimentos.

No fim, foi uma aula de arte feita de metrô, a pé, de carro e bicicleta em uns 7 dias de passeios de sol por lugares da cidade que eu mal conhecia. Reavaliando aquele curso feito em 1991, foi importante ter tido contato com as artes plásticas ali. No fundo, esta paixão nunca foi esquecida, sempre fui admirador. Graças ao jornalismo, agora posso trabalhar com arte sem ter que expor meus dotes na pintura (para sorte de todos).

O Paulo Geyer, programador, também mandou um parágrafo contando a experiência dele na produção do Arte Fora do Museu:

Em dezembro de 2010 o Lavignatti entrou em contato comigo, queria fazer um site com cadastro de obras de arte nas ruas de São Paulo. Não sabia exatamente o que seria, mas ao longo da conversa começou a parecer cada vez mais interessante, algo realmente diferente do que eu costumava fazer. Dei início ao projeto em Ruby on Rails. Ao longo do semestre fomos conversando e o projeto foi tomando cada vez mais forma, eu trabalhando em Florianópolis e ele em São Paulo. Não é comum achar gente que consiga trabalhar à distância, mas funcionou perfeitamente bem para nós. Enquanto produziam o material e disponibilizavam por uma planilha do Google Docs (a lista das obras), e os arquivos multimídia com as fotos e áudio via Dropbox, o site ia ganhando forma. Estava gostando muito da navegação do site com as fotos, informações e street view de cada obra, mas quando chegaram os arquivos de áudio eu tive a impressão de que deu um avanço muito grande na navegação: ouvir a explicação de cada obra enquanto se observam as fotos ou o street view melhorou muito a experiência de usuário (eu mesmo parei para rever e ouvir o áudio de diversas obras). Mas somente nos últimos meses deu pra ver todo o potencial do site, e o resultado final me agradou muito mesmo. Da próxima vez que o Lavignatti me chamar para participar de algum projeto não vou pensar duas vezes! 😉

 

PARA ACESSAR:

Arte Fora do Museu – o site

As fotos do projeto no Flickr

Os vídeos no YouTube

Para acompanhar no Twitter e no Facebook

Jornalismo bem planejado funciona melhor, por Celso Nucci

Por Celso Nucci*, maio de 2011

Planejar o jornalismo é exercitar a consciência de que esse ofício é, antes de tudo, um compromisso dos jornalistas com seus leitores, ouvintes ou telespectadores. Que eles estão em primeiro lugar e que suas necessidades e interesses serão respeitados. O planejamento é o momento em que se estabelece o conceito das publicações em sintonia com essas necessidades e os jornalistas amarram seu fazer ao cumprimento das metas e do compromisso definido com os leitores (vamos chamar assim todos esses cidadãos que têm direito à comunicação).

Planejar também é saber que a qualidade do jornalismo entregue ao cidadão usuário tem que ser checada e aferida periodicamente, pois desvios, voluntários ou não, podem causar danos irreversíveis à qualidade editorial e perda de leitores ou de audiência.

Em muitas publicações on-line ou impressas, em programas de tevê e de rádio percebe-se falta de amarração conceitual sobre o direcionamento editorial e a relação com o leitor. É comum, ao navegar por sites jornalísticos ou folhear publicações impressas e ler notícias, matérias, reportagens, artigos, notas, seções, o leitor ficar desnorteado com a confusão. As perguntas são inevitáveis: qual a intenção ao publicar isso? Com quem esses jornalistas estão tentando se comunicar?

Há redações que não têm uma missão para sua publicação e que param pouco para discutir os caminhos que estão trilhando, para quem estão escrevendo e para analisar a qualidade do jornalismo que entregam aos leitores. Impera um pragmatismo excessivo, marcado pela ausência de objetivos claros e de controle de qualidade no processo editorial.

É comum entre os jornalistas haver uma baixa sintonia a respeito da missão e dos objetivos de sua publicação junto aos leitores. A ausência de planejamento editorial resulta na falta de orientação clara para os envolvidos e em risco constante de desvios de foco.

A busca da qualidade editorial, base do sucesso de uma publicação, pede uma sistemática de planejamento que envolva todos os jornalistas na discussão dos seus caminhos editoriais. É nesse contexto que vamos tratar do Plano Editorial, um instrumento básico para planejar e monitorar a qualidade editorial de publicações.

Plano editorial: quando os jornalistas organizam suas ideias
A principal função de um plano editorial é organizar o pensamento de todos os envolvidos sobre uma publicação, seja ela impressa, on-line, televisiva ou radiofônica. O plano editorial que tem os seguintes pressupostos:

  • Representa a visão da redação sobre a publicação e sua relação com o leitor.
  • Deve ser alterado de acordo com as necessidades de uma realidade mutante.
  • Serve de insumo formal da redação para o plano de negócios.
  • Deve ser refeito no mínimo anualmente.
  • É negociado entre a redação e a direção da empresa, no caso de redações que se reportam a outros níveis hierárquicos dentro de empresas, e assim se torna a bússola da publicação.

A estrutura básica do plano editorial é composta dos seguintes pontos: missão, objetivos, o leitor, cenário, histórico da publicação, fórmula editorial e ações. Esses pontos estão indissoluvelmente ligados entre si e cada um leva ao desenvolvimento do seguinte. O conjunto é o plano editorial que expressa o pensamento organizado sobre uma publicação. Pode-se utilizar o plano editorial para criar uma nova publicação ou para administrar publicações existentes.

No início da atividade de planejamento editorial os planos editoriais produzidos podem ter qualidade bastante desigual, pois os jornalistas ainda estarão habituando-se a pensar e discutir seu fazer e isso leva algum tempo. A qualidade de um plano editorial também depende muito do envolvimento e da liderança da direção da redação – verdadeiro condutor do planejamento editorial. A qualidade do plano deixa claro quanto essa liderança está envolvida e comprometida com o processo.

A história escrita
Para as publicações que já têm uma história de vida, o plano editorial é iniciado com a construção de um histórico editorial que proporciona aos jornalistas a visão da publicação como um processo e registra o que aconteceu desde o início. É um resgate da memória que obriga os jornalistas a refletir sobre a vida da publicação e as diversas fases por que passou.

Para escrever o histórico de publicações mais antigas é preciso fazer verdadeiras reportagens para recuperar o passado, com pesquisas e entrevistas com profissionais que por ali passaram. Quando se tem um bom histórico por escrito, cada novo profissional que chega à redação tem à mão um texto que o informa sobre a trajetória percorrida até aquele momento e permite a ele atuar consciente de que a publicação é fruto de um processo e de um relacionamento mutante com os leitores que, por sua vez, também são mutantes na sociedade em contínuo desenvolvimento.

Conhecer melhor o leitor
Uma etapa importante na realização do plano é o desenho do leitor que a equipe de redação deve elaborar. Esse é um exercício para organizar a visão que os jornalistas têm sobre os seus leitores baseada na experiência e na intuição, sem a ajuda de pesquisas. O objetivo dessa prática é afinar os jornalistas para focar um leitor único. Elabora-se uma relação de pelo menos 20 características de comportamento, atitudes e valores que se imaginam serem atributos do leitor da publicação. Por meio desse conjunto de características busca-se construir uma imagem orgânica e coerente do leitor projetado.

Quando o resultado desse processo é o desenho de um leitor que pode quase ser visualizado em carne e osso, este é um sinal de que é boa a percepção do leitor pela equipe. Há casos em que o perfil resultante mostra uma mistura mal feita de ingredientes, desenha um leitor que soa falso, e isso pode ser um sinal de que a redação entende mal quem é o seu leitor. Nesse caso é preciso repetir o exercício até que a equipe chegue a uma visão coerente. Quando uma redação não consegue essa visão depois de várias tentativas, isso pode indicar falta de foco da publicação que se examina ou cuja ideia se planeja.

Depois de construído o perfil intuitivo do leitor, é preciso identificar quais são suas necessidades e como a publicação se propõe atendê-las, além de ver quais são as tendências percebidas nesses leitores e como a redação está se comunicando ou vai se comunicar com eles.

Cenário: como vai a vida lá fora
Nessa discussão a equipe identifica e registra o que está acontecendo nos cenários mundial e brasileiro, sob a ótica temática da publicação. Isso permite situar os leitores nos cenários e analisar as possíveis implicações e impactos em suas vidas. Proporciona uma visão dinâmica do país e do mundo, da inserção dos leitores nesse panorama e como a publicação pode atuar atendendo necessidades desses leitores, muitas vezes antecipando-se a eles.

Com o grande aumento da velocidade das informações, das mudanças tecnológicas e a presença imponente da Internet, o cenário tende a ser cada dia mais mutante. As publicações on-line precisam ser avaliadas com mais frequência. Para isso é indicado que a redação promova encontros sistemáticos para discutir cenário, suas mudanças e tendências. O que permitirá avaliar com mais rapidez quais os impactos das transformações do cenário, na publicação e em seus leitores e como a publicação deve responder editorialmente às mudanças contínuas.

Missão e objetivos: o que a publicação quer ser na vida
A missão de uma publicação é sua identidade, é a razão de sua existência. Se uma publicação não tem uma missão por escrito, cada jornalista da equipe tem o direito de imaginar uma missão para ela. Isso pode dar origem a muitos desencontros editoriais e à falta de foco no leitor almejado. A missão de uma publicação deve ser objeto de acordo e envolvimento de todos da equipe.

A tarefa de estabelecer a missão de uma publicação é trabalhosa. Boa parte dos jornalistas está pouco habituada a discutir conceitos sobre seu trabalho diário. Assim, durante uma primeira rodada para se fazer um plano editorial, pode-se chegar a uma missão muito longa, cheia de adjetivos, advérbios e gerúndios. Quando isso acontece é bom rever a redação do texto. Uma boa missão é concisa, precisa e construída com substantivos e verbos. Cada palavra utilizada na missão deve ter um significado claro que se transforme em objetivo da publicação. Cada missão deve ser burilada e melhorada até que haja consenso na equipe. É um trabalho às vezes demorado, mas no qual vale a pena investir, pois todo o desenvolvimento do plano editorial depende de uma boa missão. Pode também acontecer que uma missão considerada pronta pela equipe seja totalmente modificada durante as discussões.

Um bom exercício a ser feito com uma publicação que tem uma missão estabelecida e que tenta se pautar por ela é analisar a publicação que está no ar ou impressa levando em conta quatro pontos:

  1. A boa definição e a clareza da missão escrita.
  2. Até que ponto a edição ou programa ou site analisado corresponde à missão e atende a ela.
  3. Quanto a fórmula editorial, ou seja, a pauta, o equilíbrio de matérias e seções, noticiário, reportagem, imagens, sustenta a missão da publicação.
  4. Se o design, projeto gráfico e a produção da publicação são condizentes com a intenção editorial expressa na missão.

Se a missão está clara e bem enunciada, cada palavra de seu texto desencadeia um objetivo no plano editorial. Objetivos são os pontos que sustentam a missão e permitem que ela se realize. Cada objetivo tem a função de detalhar um dos compromissos da missão e encaminhar a sua viabilização. É importante assegurar que a realização do conjunto de objetivos resulte no cumprimento da missão.

Quando temos uma boa missão, objetivos bem amarrados a ela e um desenho claro do leitor que se deseja atingir, já se sabe o que a publicação quer ser na vida. Então é preciso partir para a prática e estruturar a fórmula editorial e as ações para realizá-la.

Uma boa fórmula editorial e mão na massa
A fórmula editorial é a receita da publicação e deve ser a materialização da missão e dos objetivos dessa publicação. Seus ingredientes variam de acordo com a natureza do veículo para o qual o plano editorial está sendo feito. O ponto básico, onde tudo começa, é a estrutura física que marca os limites de espaço ou tempo da publicação, seja o número de páginas de uma publicação on-line ou de uma revista ou jornal impressos, ou o tempo, no caso de programas de rádio ou de televisão.

Detalham-se os tópicos do conteúdo jornalístico da publicação, cada um deles com seu conceito resumido. O projeto gráfico também deve ter ali seus conceitos básicos delineados e explicitada a ligação entre a identidade visual e as seções de conteúdo.

A seguir devem ser registradas todas as ações necessárias para a execução da fórmula editorial. Cada ação deve ser acompanhada de seu custo, duração e prazo para realização.

De posse de uma fórmula editorial bem estruturada, equilibrada e harmônica pode-se lançar uma publicação com boa chance de sucesso. Do contrário, a probabilidade de dar cabeçadas é grande. A história de lançamentos de publicações que não foram aceitas e fecharam rápido é abundante em bons exemplos. A análise de um port-fólio de fracassos (os lançamentos que não deram certo) pode ser muito rica nesse sentido.

A importante revisão anual
A revisão anual do plano editorial de uma publicação tem a função de analisar a qualidade editorial da publicação que está sendo entregue aos leitores e as questões internas da redação. Essa revisão avalia também a relação direta entre a qualidade da publicação e a qualidade dos profissionais que a fazem. Ao analisar a qualidade da publicação, a redação revisa o seu trabalho e identifica os pontos fortes e fracos de seu desempenho. A partir daí estabelece os caminhos para melhorar ainda mais os pontos fortes e eliminar os pontos fracos.

São discutidos pontos como imagem, foco no leitor, identidade, pauta, reportagem, texto, edição, correção gramatical, fotografia, ilustração, imagem, projeto visual, fluxo de produção, monitoramento da qualidade. A análise cobre todas as etapas do processo de produção jornalística e editorial da publicação. Dessa discussão surgem as oportunidades e os riscos a que está sujeita a publicação. E as soluções para aproveitar as oportunidades e minimizar os riscos.

A análise aborda as necessidades da redação em relação a seus profissionais, uma visão do quadro salarial, do plano de carreiras dos jornalistas, designers e fotógrafos e sua relação com as necessidades práticas da redação. São identificadas as necessidades de treinamento e desenvolvimento da equipe. Isso permite montar um plano de desenvolvimento de profissionais. Em prazo mais longo, possibilita estabelecer a relação direta entre qualidade da publicação e o desenvolvimento dos profissionais que a fazem.

Fluxo de trabalho, informática, administração e controle de custos são temas práticos que influem diretamente na qualidade da publicação. A discussão torna mais clara a relação entre qualidade editorial e custos; trabalha-se a dinâmica entre tecnologia e fluxo redacional.

Esse encadeamento de raciocínios constitui um conjunto orgânico da atividade editorial e operacional para fazer a publicação. Pede aos jornalistas que passem seu radar pelo mundo e pelo Brasil, que revisem sua relação com os leitores, que critiquem sua publicação e que apontem caminhos para melhorar. Propicia uma análise consistente da publicação, de seus jornalistas e de suas necessidades. E desemboca nas ações necessárias para levar a publicação a bom termo nos próximos tempos.

Planejar o jornalismo é um aprendizado contínuo
É bom que o planejamento editorial se realize no segundo semestre e que sejam estabelecidas metas para o ano seguinte. O formato básico do plano editorial é sempre o mesmo, mas deve-se dar ênfase no tratamento às questões mais importantes do momento, principalmente a pontos fracos como, por exemplo, foco no leitor, projeto gráfico envelhecido, problemas de pauta, reportagem, texto e edição.

O processo se inicia com reuniões entre os jornalistas para discutir a publicação, a qualidade do jornalismo que está sendo praticado e os tópicos do plano editorial. O envolvimento de toda a redação é muito importante. O chefe de redação, de posse do material produzido nos encontros com a equipe, escreve o plano editorial, que depois será revisto pela equipe e discutido com a direção da empresa, no caso de a redação estar inserida em uma empresa. Depois de negociado com essa direção, ele se transforma na bússola da redação e dos rumos da publicação.

O processo de planejamento editorial é uma atividade contínua que se aperfeiçoa com o tempo. Na fase inicial pode-se levar um tempo maior para discutir a missão da publicação. Quando ela já está clara e bem definida o tempo pode ser usado de forma mais equilibrada. A discussão do plano editorial depende do grau de maturidade da equipe, da qualidade do material apresentado e da saúde da publicação. Uma publicação com problemas pede uma discussão aberta e direta desses problemas nas reuniões do plano editorial.

Com o tempo, os jornalistas se habituam ao planejamento editorial. Muitos passam a contar com esse momento importante no calendário da redação para uma sintonia fina em torno do leitor e da publicação. Pensar o seu fazer vai se tornando uma atividade familiar aos jornalistas. Há um importante crescimento desses profissionais durante o processo.

A atividade de planejamento editorial não é apreciada unanimemente pelos jornalistas. Alguns preferem continuar atuando de forma pragmática. Mas para quem já experimentou a atividade de estruturar um plano editorial é difícil pensar a atividade jornalística sem a ancoragem sólida em um bom planejamento.

*Celso Nucci é jornalista, fez carreira na Editora Abril (1972-2000) e foi secretário editorial e diretor de desenvolvimento editorial durante dez anos. Participou da direção editorial e desenvolveu um original programa de planejamento e de qualidade editorial para as revistas. Foi assessor da presidência da Radiobrás (2003-2007) para qualidade editorial, conduziu o planejamento e implantou programa de qualidade editorial para três emissoras de TV, quatro emissoras de rádio e uma agência de notícias. Organizou e editou o Manual de Jornalismo da Radiobrás.

PARA SABER MAIS:

Manual de Jornalismo da Radiobrás (2006, pdf)

Plano editorial da Agência Brasil (2006, pdf)

Plano editorial da Voz do Brasil (2004, pdf)

Plano editorial da Rádio Nacional da Amazônia (2004, pdf)

 

As melhores infografias do mundo: Malofiej 2011

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Saiu o resultado do prêmio Malofiej 2011, que dá medalhas às melhores infografias do mundo. O Brasil levou uma das medalhas de ouro na categoria online com o belo trabalho do Estadão, Tapuiassauro, uma de prata (Estadão também, com o belo trabalho sobre jogadores da Copa) e duas de bronze.

Abaixo, as medalhas de ouro na categoria online, por área:

Breaking News1 ouro

NYTimes.com: Tracking the oil spill in the Gulf

Comentário: a evolução da mancha de óleo, num ótimo trabalho de apuração em tempo real, atualizado dia-a-dia

Reportagens – 2 ouros

NYTimes.com: How Mariano Rivera Dominates Hitters
(Premio Peter Sullivan Award Best of Show)

Comentário: apesar de ser um vídeo (nada interativo), é incrível o trabalho de apuração e de animação gráfica realizado pelo NYTimes.com

Estadão: Tapuiassauro, o novo dinossauro do Brasil

Comentário: um dos trabalhos mais legais que já vi no Brasil, e bem pouco divulgado. A equipe do Estadão tem e teve grandes profissionais nos seus especiais multimídia

O Brasil ainda teve outros premiados, com prata (Estadão) e bronze (iG, Veja.com)

Estadão: Onde atuam os jogadores da Copa

iG: Quem precisa do motorista?

Veja.com: Quanto você sabe sobre os candidatos a presidente?